A dramática experiência de pais que pegaram covid-19: o que fazer com as crianças?

Além do medo de internação e complicações da doença, pais vivenciam o temor de transmitir a covid-19 para os filhos e não conseguir cuidar das crianças. Veja relatos de famílias que passaram por isso

A difícil experiência de pais que pegaram covid-19: como cuidar do filho?

Leia em 10 minutos

Amanda Nunes Moraes e Malu Delgado  – A possibilidade de contaminação pelo coronavírus tem deixado muitas famílias apreensivas. Implementar o isolamento social em casa, sobretudo para proteger os pequenos da covid-19, em caso de contaminação de integrantes da família, é um desafio que exige muito controle psicológico e calma. Além do medo de internação e complicações da doença – num momento de colapso de sistema de saúde –, os pais vivenciam o temor de transmitir a doença para os filhos e a angústia de não conseguirem cuidar das crianças. Famílias que viveram situações de tensão quando um ou mais integrantes contraíram o vírus compartilharam suas experiências com a Canguru News. As reações de cada um, obviamente, são distintas, mas os relatos podem ajudar a todos os que estão vivenciando situações semelhantes a enfrentarem esse momento.

Lidia Nakamura, psiquiatra da infância e da adolescência do Centro Psiquiátrico Interdisciplinar (CENPI), afirma que a pandemia já provoca fortes impactos psicológicos nas crianças. Vivenciar a doença nos pais ou familiares pode agravar ainda mais esses sentimentos. Portanto, é muito importante observar eventuais mudanças comportamentais das crianças e buscar ajuda de profissionais neste período em que a família tenta vencer a covid-19. “Essa situação que estamos vivendo no mundo hoje é muito grave, e às vezes todos os sentimentos que a criança sente não cabem dentro dela, então ela extravasa todas essas sensações por meio de sintomas, como insônia, falta de apetite ou mau humor”, explica Nakamura. É fundamental, segundo a médica, que os pais comuniquem-se com os filhos sobre a doença de maneira clara e direta, transmitindo segurança, além de incentivar as crianças a falarem sobre os próprios sentimentos. “Quanto mais a gente incentiva a criança a falar, melhor ela vai se sentir, é como tirar um peso das costas delas”, aconselha a psiquiatra.

Confira aqui depoimentos de pais que ficaram doentes:

Simone Burse e sua filha
Simone Burse e sua filha: a opção de ficar lado ao lado, mesmo contaminada, depois do divórcio recente | Foto: Reprodução

“Me bateu um forte sentimento de medo de morrer”

Psicóloga escolar, Simone Burse contraiu covid-19 no ano passado e experienciou sintomas como tosse, falta de ar e perda de olfato. Consultou-se por videochamada com uma pneumologista que a receitou um antibiótico e um corticoide inalatório. Assim que foi diagnosticada, questionou a pediatra sobre como deveria proceder com sua filha de 4 anos. Simone havia acabado de se divorciar e a situação era delicada, já inspirando cuidados psicológicos à filha. A médica aconselhou que seria melhor a mãe permanecer ao lado da filha, ainda que tentando manter o menor contato físico possível.

“Lá pelo 11º dia, começou a me bater um forte sentimento de medo. Muito medo da morte, de morrer. Fiquei frágil emocionalmente por uns três dias”, conta Simone. No 14º dia, ela fez nova consulta com a pneumologista, que a informou que caso não melhorasse até o dia seguinte, deveria ir ao hospital. Incrivelmente, no 15º dia a tosse parou, o olfato começou a voltar e a respiração se normalizou. Simone diz que durante todos esses dias tentou não transparecer sentimentos angustiantes para a criança. “É importante acolher quando vierem sentimentos de tristeza, ansiedade, medo; entendendo que são efeitos da doença, de uma fragilidade física e psíquica, e que esses sentimentos também vão passar.” Uma forma que encontrou de manter um contato afetivo com a filha foi por meio de videochamadas ou brincadeiras, evitando o contato físico.


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“Meu objetivo e da minha mulher, por 14 dias, foi não deixar nosso filho chorar”

O jornalista Henrique Gomes Batista passou boa parte do ano de 2020 com medo. Sua mulher, Alexandra, engravidou do segundo filho no ano passado. Como já tinham perdido um bebê recentemente, na gestação anterior, ambos conviveram com o trauma e enfrentaram a nova gestação em plena pandemia. “Estávamos ultra isolados. Eu parecia um astronauta, usava máscara, face shield. Até hoje não tenho ideia de como peguei o vírus.” Em agosto de 2020, no Dia dos Pais, ele conta que sentiu um “cansaço desumano”, acordou com febre e “uma dor de cabeça do outro mundo”. “Sério, achei que era um aneurisma. Fiz duas tomografias, até punção para descartar meningite.” O teste PCR confirmou que havia contraído covid-19. Com a mulher grávida de nove meses e o filho mais velho de seis anos, Henrique partiu logo para o isolamento em casa.

O medo dos dois era o impacto na gravidez. Quando Alexandra foi fazer o teste, Miguel, o filho mais velho, começou a apresentar alguns sintomas, como diarreia. “Eu só pensava neles. Não pensei em mim”, revela o jornalista. A mulher não estava contaminada, mas o exame de Miguel também deu positivo. E aí começou a saga do isolamento, por 14 dias, do jornalista e seu filho no quarto do apartamento. “O meu objetivo e da minha mulher, nesses 14 dias, era não deixar o Miguel chorar”, conta.

“Fizemos de tudo. Noite do pijama, o dia da pizza, inventávamos brincadeiras, jogo de xadrez, de buraco. Eu até viciei a criança”, brinca Henrique, com bom humor invejável.

“Era a gente trancado o dia inteiro no quarto, com varanda, e a minha mulher circulando pelo resto da casa. Ela cozinhava pra gente e ficou muito preocupada comigo. Fizemos muita festa, tinha sempre chocolate e usamos a criatividade pra não deixar a peteca cair com o Miguel.” Segundo Henrique, o acompanhamento de médicos foi fundamental para tranquilizar toda a família, especialmente acompanhando os momentos finais da gravidez de Alexandra. “Cada dia era uma vitória. Em 14 dias de isolamento, sua cabeça vai a mil. Os avós foram fundamentais, ligavam pra ele todo dia, jogavam cartas  por videoconferência. E nossos amigos foram incríveis, mandaram um monte de presentes, joguinhos para o Miguel. Fazíamos longas sessões de filmes, campeonatos de futebol. A gente só se via pela varanda. Era o único contato que ele tinha com a mãe. Foi barra.”

“A questão psicológica é fundamental. Ter tranquilidade e buscar calma. No meu caso não tivemos sintomas graves, mas o psicológico podia ter tido um impacto gigante, sobretudo no Miguel. Temos que ter calma nessas situações, um apoiar o outro, um acalmar o outro.” Sem integrantes de ambas as famílias morando em São Paulo, Henrique e Alexandra também traçaram um Plano B, caso fosse necessário antecipar o parto ou Henrique precisasse de internação. Uma amiga, madrinha do Miguel, foi escalada para atuar neste plano de emergência, e também cuidou de levar Alexandra ao médico, para os acompanhamentos finais da gravidez. “Eu tive muita culpa. Pensava: como é que eu peguei isso? Como passei para o meu filho? Mas nos cuidamos, nos isolamos, e não podemos nos sentir assim.”


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“Em nenhum momento pensei que ficaria mal; fugia desse pensamento”

Em fevereiro, a fonoaudióloga Cris Buzico de Paula, 44 anos, acordou e não conseguiu colocar o pé no chão. Dias antes, seu marido também havia sentido um forte mal-estar, que lhe parecia uma gripe ou infecção intestinal. “Achamos logo que era covid, pois estávamos meio paranoicos. Quando eu comecei a sentir que tinha alguma coisa errada, tranquei todo mundo dentro de casa”, conta. No mesmo dia em que seus sintomas se manifestaram, a filha adolescente também não se sentia bem. Apesar das dificuldades para se locomover – Cris teve uma inflamação no nervo da perna direita como sintoma raro e consequência da doença –, ela disse que se manteve forte e assumiu os cuidados de todos na casa. A filha mais nova, Pietra, de 9 anos, foi a única que não fez o teste, mas não apresentou sintomas.

“O primeiro sintoma me derrubou, mas foi um alerta para parar e observar, me mostrar que eu também não estava bem e estava passando por cima. Na minha cabeça eu pensava: preciso cuidar, dia após dia. Meu marido era o que mais me perturbava, porque ele é obeso, faz um tratamento para psoríase e já toma corticoide, então ele não podia piorar.” O medo de agravamento da doença é um “fantasma que te atormenta”, revela, “mas você tem que se controlar diariamente”. O controle psicológico foi fundamental para as duas semanas de isolamento, conta Cris. Seu marido precisou de 20 dias para começar a se recuperar, mas nenhum deles precisou de internação hospitalar. “Em nenhum momento eu pensei que ficaria mal. Eu fugia desse pensamento. Pensava na praticidade do dia a dia: ainda tenho compras de mercado, hoje ainda tem comida pronta… Tive ajuda do meu pai, que veio na porta deixar compras quando precisamos. Temos um suporte bom de família, que me amparava, e eu sabia que podia contar com eles, com meus irmãos e meus pais. Isso me confortava.” Todos da família, hoje, estão bem.


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“Infelizmente, é uma experiência que muitos passaram ou passarão”

Também no ano passado, Fernanda Perin e seu marido testaram positivo a para covid-19. A filha adolescente do casal felizmente não foi contaminada. Fernanda teve forte dores nas costas, enjoo, dor de cabeça e fraqueza. O marido perdeu o olfato e o paladar. Para proteger a filha, ela ficou praticamente isolada dos dois: “Eu diria que infelizmente essa é uma experiência que muitos passaram ou passarão. Não ficávamos no mesmo ambiente, mas o raro contato que tivemos era com máscara e muito álcool em gel.” A situação causou muito desconforto para Fernanda. “Por ela ser mais velha e conseguir se manter, a minha maior preocupação era transmitir o vírus para a minha filha. Ela que acabou me consolando”, relata Fernanda, que recorreu a teleconsultas com um médico para buscar tranquilidade. “Acredito que não cabe culpa por estarmos contaminados, mas cabe a responsabilidade de nos protegermos e não transmitirmos para ninguém!”, afirma Fernanda.

Afeto, segurança e transparência: dicas da psiquiatra às famílias

A necessidade de afastamento e ou isolamento das crianças do resto da família, em especial dos pais, inspira cuidados. “Se a criança começa a ficar muito isolada, tem uma alteração muito súbita do comportamento que ela costumava ter, demonstra uma tristeza muito intensa, fica muito irritada, tem muitos medos ou perde interesse por atividades que fazia antes, algo está errado. Esses sinais não se podem deixar passar”, indica a especialista Lidia Nakamura. Segundo ela, se os pais estiverem com covid-19, é recomendável que a criança tenha algum acompanhamento psicológico com um profissional. Se os pais encontrarem-se mais debilitados por consequência da própria doença, também é importante construir uma rede de apoio para preservar uma boa saúde emocional. Outra dica importante é manter a rotina da criança.

“Quanto mais carga afetiva a gente consegue depositar nessa criança, melhor ela vai sair da situação”, orienta a psiquiatra.

Além disso, também é pertinente reservar tempo para entretenimento e brincadeiras, contando com amigos e outros familiares em videochamadas para distrair as crianças.    

Podem surgir neste período de enfermidade, explica a médica, questionamentos sobre a morte. Os pais devem estar preparados para falar sobre o assunto. Uma forma de explicar sobre isso é exemplificar com animais ou plantas, que é um mundo acessível às crianças. Outro caminho é utilizar a literatura, há muitos livros que explicam a morte de forma lúdica.

Lidia Nakamura aconselha os pais a não se sentirem culpados, pois é preciso aceitar que o corpo tem seus limites e o importante é dedicar todos os cuidados para evitar que a criança também seja contaminada.


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Cuidados e higiene

Caso os pais contraiam o coronavírus, é importante reforçar ainda mais os cuidados com a higienização da casa. Segundo a Sociedade Brasileira de Imunologia, é necessário limpar cautelosamente as áreas que os pequenos mais utilizam. Especialmente se realizarem atividades no chão, é aconselhável que este seja limpo de duas a três vezes ao dia, com álcool 70%. Além disso, seus brinquedos também devem ser devidamente higienizados. Os pais também não devem se aproximar das crianças, o recomendável é que fiquem aproximadamente a dois metros de distância, pelo menos.

É fundamental que aqueles que estiverem contaminados sempre utilizem máscaras dentro de casa. Neste momento, a mais recomendada pelo Ministério da Saúde para uso adulto é a PFF2. Caso não tenha acesso, a máscara cirúrgica é outra ótima opção. Independentemente de ficar úmido ou não, o acessório deve ser trocado a cada duas ou três horas para evitar a contaminação. Os maiores de dois anos também devem usar a proteção quando estiverem em ambientes compartilhados com os pais infectados.

Outra recomendação é separar os objetos usados pelos pais dos usados pelas crianças. Os que devem receber mais atenção são aqueles que têm contato direto com a saliva ou outras secreções respiratórias, como copos, talheres e pratos. O ideal é que eles sejam lavados separadamente dos que são utilizados pelos filhos. Se possível, é mais seguro que as crianças façam suas refeições em horários diferentes dos pais, já que é um momento em que todos precisam retirar as máscaras.

Se os pais contarem com uma rede de apoio e optarem por usá-la, é preciso tomar algumas precauções. O ideal é que a criança não fique com alguém do grupo de risco, caso não houver outra forma, é aconselhado que elas realizem um teste de coronavírus. Uma forma de fazer com que os 14 dias que terão que se distanciar seja mais leve é produzir um calendário para os pequenos acompanharem o tempo restante. Após o período de isolamento passar, os pais podem combinar de fazer alguma atividade divertida com os filhos, como pedir uma comida especial ou jogar sua brincadeira preferida. É uma forma de acalmá-los e deixá-los mais alegres.


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