Abusos que não marcam o corpo, mas ficam tatuados na alma

"Na minha casa não tinha palmatória, mas tinha chinelo, cinto, gritos e ameaças", recorda a psicóloga Patrícia Nolêto

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Furious adult woman screaming at daughter while she helping to do her homework assignment at home

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Infelizmente a violência contra a criança cresceu muito com a pandemia. As crianças estão muito tempo em casa solicitando mais atenção, ajuda, afeto. Os pais estão cansados, estressados e assumindo tarefas extras em relação aos filhos. E essa combinação pais cansados + crianças demandantes muitas vezes não termina bem. Quando falamos sobre violência contra as crianças geralmente pensamos em violência física. Bater em uma criança é abuso, mas existem abusos onde o adulto não precisa levantar as mãos.

Sei que muitos dessa geração de pais de hoje, foram crianças que receberam violência em casa. Quando faço uma retrospectiva, voltando às gerações passadas é muito comum ver o abuso como algo corriqueiro nas famílias que eu atendo. Era algo que não era questionado, os pais batiam quando a criança não obedecia.

Meus pais apanharam dos meus avós. Lembro de uma cena da minha infância, eu tinha por volta de 8 anos de idade e meu avô juntou todos os netos para exibir com orgulho um objeto que nunca tinha visto na vida: uma palmatória. Nela tinha escrito os nomes dos 6 filhos e em frente a cada nome, tracinhos, que representam quantas vezes aquela criança havia apanhado por ter
desobedecido.

Hoje quando lembro disso consigo olhar para meus pais, e para maneira que eles sabiam ser pais com compaixão. Na minha casa não tinha palmatória, mas tinha chinelo, cinto, gritos e ameaças. Mais gritos e ameaças que palmadas, mas essas também existiam.

Nos meus 20 anos como psicóloga clínica atendi poucos adultos que não tivessem apanhado quando criança. Todos trazem memórias doídas, relatos com olhos marejados e emoções sofridas. Alguns se sentiam culpados e merecedores do castigo pois não eram bons o suficiente, outros se sentiam injustiçados e hoje os olhos marejados também são de raiva.

Não tenho dúvidas do impacto dos abusos físicos na vida de cada adulto que apanhou na infância, mas também não tenho dúvidas do impacto de abuso um pouco mais “aceitável”: gritos, chantagens, um olhar fuzilante, críticas, ofensas e até mesmo o silêncio.
Hoje são adultos que carregam dentro de si, suas crianças feridas e assustadas. Crianças que receberam palavras invalidantes, olhares críticos, que foram envergonhados pelos seus erros, que foram tachados de filho ruim, mal aluno, preguiçoso, incompetentes.


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Adultos que ouviram:
“Eu estou falando isso porque eu te amo!”
“Foi bom, mas você é capaz de fazer melhor”
“Não quero saber o que aconteceu, você só inventa desculpas”
“Já vai chorar?”
“Deixa de ser idiota, ninguém gosta de você!”
“Suas notas são medíocres, você é medíocre, não vai ser ninguém na vida!”
“O seu irmão só me dá orgulho.”
“Eu mando e você obedece”
“Se não vai fazer por bem, vai fazer por mal.”
“Você deveria ter vergonha de me mostrar notas assim!”
“Não sei mais o que fazer com você!”
“Você me deixa louca!”
“Infeliz o dia que você nasceu!”

Acredite, não foram só palavras. Foram abusos!

Abusos que não marcam o corpo, mas ficam tatuados na alma! Tatuados de tal maneira que muitas vezes estamos ali entregando aos nossos filhos os gritos que recebemos.

Quando percebemos, já gritamos, já chantageamos, rotulamos e ferimos com palavras. Quando eu era criança minha mãe tinha orgulho em dizer: “Eu não preciso falar, nada, eu só olho e elas obedecem”. Você pode imaginar como era esse olhar de repreensão da minha mãe. Um olhar que provavelmente jurei mil vezes que não ia repetir.

Mas houve um dia na minha vida que esse olhar doeu de um jeito diferente. A Clara tinha quase 3 anos de idade, e passávamos por um grande desafio na hora de dormir. Ela deitava e demorava muito a pegar no sono, ás vezes mais de uma hora. Nesse dia eu estava cansada, com fome e ela por várias vezes levantou da cama, saiu do quarto, foi ao banheiro, bebeu água, cantou. Lembro
que agachei ao lado da cama dela e disse: Já chega! Não aguento mais.

Ela começou a chorar. Entre soluços e lágrimas falou. “Eu fico com medo quando você me olha assim!”

Nesse momento voltei a minha casa de infância. E vi que a dor dela também já foi a minha.

Choramos juntas naquela noite.

Sei que não está fácil para muitos pais nesse momento. Quanto mais cansados estamos, mas fácil é voltar para aquilo que nos é conhecido e repetir com nossos filhos, o que recebemos dos nossos pais.

Como mudar disso?

Olhar para nossa parentalidade, é olhar constantemente para nossa infância. Para silenciar os gritos que damos, precisamos curar os gritos que recebemos.


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Patrícia Nolêto de Campos, é mãe da Clara, 4 anos. Psicóloga, palestrante, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, trabalha há mais de 19 anos com psicologia clínica com atendimento a adultos crianças, adolescentes e pais. Desenvolveu workshop de Treinamento de pais e Treinamento de Educadores e ferramentas terapêuticas que facilitam a regulação emocional das crianças. Saiba mais em http://www.patnoleto.com.br

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns pela matéria, amei me identifiquei de mais. Confesso que preciso de ajuda pra saber como curar os gritos que recebi e assim silenciar os que estou dando

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