Não me venha dizer que ‘vai passar’

Não há nada mais cruel do que dizer isso a uma mãe, quando ela enfrenta uma fase desafiadora com os filhos, avalia a escritora Sheila Trindade

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Mãe desesperada põe as mãos na cabeça e filha brinca no sofá
O 'vai passar' invalida o sentimento, diz a escritora
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Eu poderia dizer que toda fase passa, explicaria que o cansaço será motivo de saudade, mas, poxa, eu não gosto de mentir. Estou esperando noites completas de sono há anos. Há sempre um motivo que me mantêm acordada ou semi, dependendo do cansaço acumulado.  

Dizer que “vai passar” é a frase mais cruel que se pode dizer a uma mãe. Nela está embutida o descaso pelo o que ela sente, liberta da culpa de acolher a dor ou ouvir as lamúrias. O “vai passar” cala todo o sentimento e invalida o sofrimento. Por que a pessoa sofreria por algo que já vai passar? É como se dissessem: 

—  Espera aí, quietinha, sem reclamar e dando conta de tudo, sempre com um sorriso de olheira a olheira, como diria a escritora Thaís Braga. 

E esperamos. O “já” não é tão imediatista assim e passam-se anos e continuamos a esperar. E mesmo que passe, a dor nas costas ficam, aquela noite mal dormida não voltará, a pausa na carreira e na vida, o casamento e planos que fazemos, tudo fica um pouco de lado. E por mais reconfortante que seja pensar assim, de fato, isso não ameniza as dores por tudo o que nos privamos. Apesar de amar meus filhos, tanta desumanização faz-me odiar ser mãe.  

Não importa se é o primeiro ou quarto filho, uma nova mãe sempre nasce a cada gestação, completamente diferente da versão anterior. Não existe nenhum período de adaptação à vida materna ou àquela pessoa que você se tornou. Somos jogadas na água e a gente que lute para aprender a nadar e não se afogar.  

Há diferentes formas de se afogar, até as que nem parecem afogamento. Você está tão imersa, os sentidos confusos, entorpecida e envolta em tanta coisa, que por algum tempo até acredita ser possível respirar embaixo d’agua. Sinto em dizer, mesmo que você não perceba, está se afogando. Nestas horas, em meio aos caos, é necessário pensar rápido, antes que seja tarde demais.  

Gosto de ver a maternidade da mesma forma que um nadador apaixonado pelo esporte enxerga a natação: Ele ama estar ali imerso, mas precisa de um tempo para respirar e tomar o fôlego, caso contrário morre afogado em sua vontade louca de tentar ser o melhor sempre.  

Eu demorei muito tempo, passei muitos anos me afogando aos poucos, até perceber que preciso respirar, ter vida e força própria para florescer, iluminar e trazer vida por onde eu passar. 

Embora a frase pareça reconfortante, dizer “vai passar” não ajuda em nada. Desculpe-me, mas não dormi direito e não há frase motivadora que amenize minha enxaqueca. Não há bochechas rosadas que paguem a noite mal dormida. 

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Sheila Trindade
Sheila Trindade é escritora e fundadora do Blog Uai Mãe. Mãe de quatro filhos, um monte de histórias para contar cheias de aventuras, dúvidas e receios. De forma autêntica e com bastante humor, quer provar que a maternidade pode ser divertida quando a gente se permite rir dos próprios erros.

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