A pele ‘russa’ e outras cobranças com a aparência impostas pelo racismo

O produtor de conteúdo Niltinho Ricardo fala sobre preocupações diárias que não deveriam existir e geram uma sobrecarga mental em pessoas pretas

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Menino tem cabelo black power e corrente de prata
Cabelos e estilos diferentes aos nossos devem ser respeitados
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Nas últimas semanas, as temperaturas baixas do inverno deram o ar da graça com a chegada da época mais fria do ano. Aqui em casa, um dos rituais pós-banho dos meus filhos é passar hidratante em suas pernas e braços. Algo que intuitivamente vou passando de geração em geração, e que faço até hoje com o objetivo de a pele não ficar “russa” (ressecada).

Esse é um hábito que me acompanha desde criança. Lembro da minha mãe passando hidratantes de marcas duvidosas em mim e nos meus irmãos. O costume ia muito além de querer deixar nosso corpo macio e hidratado: a preocupação da minha mãe era evitar o aspecto acinzentado da pele, o que seria mal visto por outras pessoas, principalmente na escola, onde poderíamos sofrer racismo, ainda que não tivéssemos consciência disso.

E o pior era perceber que as críticas não se dirigiam a qualquer aluno que eventualmente aparentasse desleixo – se meus amigos brancos chegassem com o cabelo bagunçado ou com a pele desidratada, estaria tudo bem, ninguém falava nada.

O tom acinzentado é algo comum na pele preta, principalmente no inverno, quando as fibras elásticas e de colágeno ficam mais resistentes, as glândulas sudoríparas mais ativas e há menos permeabilidade na pele, que acaba perdendo mais água e ficando desidratada com mais facilidade.

Me recordo da minha saudosa vó falando que minhas pernas e cotovelos estavam “russos”. Hoje entendo o quão racista é essa expressão

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Minha vó era uma mulher de pele preta e só estava replicando algo que até hoje, numa sociedade que não admite sermos o que somos ou como desejamos ser, ainda ecoa no dia a dia de pessoas negras. 

Meus filhos já me perguntaram por que às vezes falo sobre os meus joelhos, pernas, cotovelos e braços estarem “russos”. Parece uma simples expressão, mas ela traz em si o racismo enraizado, praticado há séculos, inclusive por negros.

Minha reflexão neste texto é mostrar como as pessoas pretas se sobrecarregam mentalmente, com aspectos aparentemente banais, na tentativa de se blindar do racismo que nos consome diariamente. 

Isso vale para a pele desidratada e para muitas outras questões de aparência, como não andar desarrumado para não ser confundido com um mendigo; ou então, o fato de as mulheres pretas alisarem os cabelos crespos por acharem que assim ficam mais bonitas e com uma melhor aparência em entrevistas de emprego, por exemplo. Muitos homens também raspam seus cabelos para não pensarem que são sujos ou bagunçados, e usam perfume o tempo inteiro para disfarçar o cheiro do corpo, por achar que são fedidos. Ainda, há quem evite usar roupas com cores vibrantes para que não pensem que são espalhafatosos ou uma bagunça ambulante.

Todos esses comportamentos demonstram uma preocupação das pessoas pretas em querer mudar suas origens e características para poder fazer parte de uma sociedade que exclui e, em grande parte, não aceita conviver com diferenças. 

Por essas e outras, falo aos meus filhos que respeitem o estilo de cada um, ao verem, por exemplo, uma pessoa ostentando o seu cabelo “black power”, com roupas afro de estampas marcantes. Ou ao cruzarem com alguém que está de bermuda, camisa de time e chinelos, e deixa à mostra a pele acinzentada.  

Cada um se arrumou e está sendo vaidoso do seu jeito, não para agradar aos demais, mas sim, a ele próprio. Além disso, cada pessoa começa o dia partindo de um ponto e de condições diferentes às dos demais, e não cabe a nós fazer julgamentos, muito menos pelas aparências.

*Este texto é de responsabilidade do colunista e não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.

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