Material escolar usado: incentivo à sustentabilidade e consumo consciente na infância

Várias escolas já trabalham com o incentivo à reutilização de cadernos, livros, lápis e até uniformes por mais um ano letivo; prática pode incentivar um maior cuidado com os objetos e trabalhar o consumo consciente, dizem educadoras

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Mãe e filho realizando o reuso de material escolar para o ano letivo, evitando desperdícios
Buscador de educadores parentais
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Com a proximidade do início do ano letivo das crianças, o momento é de conferir a lista de materiais escolares e preparar o que precisa ser providenciado na reta final para que os pequenos retornem às aulas. Entretanto, para muitas famílias e escolas investir em renovar todo o material escolar a cada ano já não é um hábito frequente e incentivos ao reuso passa a ser uma prática cada vez mais difundida.

É o caso de Milena Palma, diretora administrativa da Escola Carandá, em São Paulo. Além de ter o hábito de checar o estado do material escolar com os próprios filhos, avaliando a possibilidade de reuso de itens como lápis e canetinhas, Milena conta que, na Carandá, a compra de materiais novos para uso comum dos alunos em sala só é feita caso o material acabe. “No final do ano, nós pedimos para as professoras darem uma olhada geral no que está bom e pode ser reaproveitado, e temos um departamento de materiais que aponta todos os lápis, limpa as canetinhas, dispõe de novo todo o material que chega sujo no final do ano. Elas dão um trato no material usado, para voltar pras salas e continuar sendo usado”, explica Milena. 

Esse tipo de análise e preparo do material antigo também é inspirado nas famílias, a partir de avisos na lista de materiais de cada série. “Nós colocamos entre parênteses ‘não precisa ser novo’ em itens como conjuntos de lápis de cor, estojo de canetinhas, para trazer essa consciência. Isso chama a atenção de quem está lendo a lista, e aí você vai checar o que ainda pode ser usado esse ano”, comenta Milena Palma. Com o engajamento dos pais, a escola já possui há cerca de 4 anos projetos de troca e venda de livros usados, materiais escolares e até uniformes que são reutilizados entre os alunos a cada ano letivo, para que não seja necessário a compra de produtos novos e descarte dos antigos utilizados no ensino.

Pensar na sustentabilidade desde cedo

Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2021, realizado pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o processo de aquisição e consumo de qualquer bem ou produto está diretamente atrelado ao descarte de resíduos. De acordo com os dados apurados pela pesquisa, a geração de resíduos sólidos urbanos – o lixo resultante da atividade doméstica e comercial das pessoas – durante o ano de 2020 alcançou um total aproximado de 82,5 milhões de toneladas geradas, ou 225.965 toneladas diárias produzidas. 

Refletir a respeito da real necessidade de consumir itens novos e descartar os antigos, como no caso dos materiais escolares, é um movimento capaz de exercitar valores de sustentabilidade e consumo consciente na infância, além de contribuir para a redução do descarte de materiais e impacto no meio ambiente. É o que defendem Elisa Lunardi e Tati Garrido, mães educadoras e idealizadoras do Infância Sem Excesso (@infanciasemexcesso). A dupla realiza ações e produz conteúdos em prol da conscientização e educação de cuidados em relação ao consumismo na infância e formas de driblar essa questão.

“A gente acredita que o que a gente consome e a forma como a gente consome diz muito sobre nosso cuidado com o meio ambiente. Além disso, há outras formas de se ter as coisas sem ser comprando. Quando a gente troca, pega emprestado, conserta algum material, em vez de comprar, estamos repertoriando a infância com outros jeitos de atuar no mundo, tão necessários atualmente para a preservação ambiental”, afirmam Elisa e Tati, ambas professoras da educação infantil.

Elisa Lunardi e Tati Garrido, mães educadoras do perfil Infância Sem Excesso
Elisa Lunardi e Tati Garrido, mães educadoras do perfil Infância Sem Excesso | Imagem: Arquivo pessoal

As educadoras também ressaltam que exercitar valores de sustentabilidade e consumir sem excessos no presente, enquanto as crianças ainda vivem a infância, é essencial para que sejam consumidores mais conscientes na fase adulta.

“O que chega na criança é o que, para ela, é a normalidade, a experiência, a vida. O consumismo tem chegado desenfreado. Precisamos ajudar a criança a questionar, a ver que não é normal e, então, viver uma vida, desde já, mais respeitosa com a natureza e com o que é importante para a própria infância”, afirmam.


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Escolas estimulam reuso e trocas de material escolar 

A fim de repensar os hábitos de consumo e adotar uma postura mais sustentável, ações como as realizadas na Escola Carandá já são feitas de modo similar em outras escolas. É o caso do Colégio Equipe, localizado no bairro Higienópolis, também em São Paulo. Luciana Fevorini, diretora do Equipe, explica que na própria lista de materiais já está escrito que os materiais pedidos podem continuar sendo utilizados se estiverem em bom estado, sem necessidade de uma nova compra. “Além disso, os professores incentivam o cuidado, para poder usar os materiais durante mais tempo”, completa Luciana.

Para a diretora, trazer esse momento de reflexão a respeito do que cada aluno já possui é uma boa oportunidade para exercitar um hábito mais cuidadoso com os materiais, e de debater a respeito do impacto que podemos exercer no meio ambiente: “É sempre importante trazer dados de quantas árvores, água e demais insumos são gastos na produção destes materiais, além de informações sobre as consequências para o meio ambiente se são descartados de forma inadequada. Esse conteúdo faz parte do currículo de algumas séries, mas sempre que há oportunidade, é importante fazer os estudantes refletirem sobre essas questões.”

No Centro Educacional Pioneiro, outra escola da capital paulista, a sustentabilidade é tema recorrente de conversas e ações pedagógicas com alunos e famílias, como exposições criativas com o uso de sucata e transformação de objetos como potes de iogurte ou latas de leite condensado em porta-lápis. Assim, o incentivo para o reaproveitamento de materiais e uso consciente de recursos faz parte da dinâmica da comunidade escolar.

“A partir do momento que permitimos e incentivamos o reaproveitamento dos materiais, estamos sinalizando para os alunos e alunas que isso é bacana”, pontua Irma Akamine Hiray, diretora geral do Centro Educacional Pioneiro. “Aliado a isso, também trabalhamos a valorização dos bens de consumo que ela possui, a sensibilização para aqueles que nem sempre conseguem tê-los e entender que nem tudo ela poderá ter. O ‘ser’ prevalecendo ao ‘ter’”, completa.

Como trazer a sustentabilidade para casa

Além dos projetos escolares e incentivos através da lista de material para que as famílias adotem o reuso de material escolar com os filhos, caso seja possível aproveitá-los, as profissionais defendem que é possível levar esse debate para dentro das casas de forma rotineira e tornar o reuso dos materiais tão divertido quanto comprar novos itens.

“O ato de comprar os materiais no início do ano é muito esperado porque foi colocado na sociedade como um ‘ritual’ de começar o ano”, dizem Elisa e Tati, do Infância Sem Excesso.

“Então se a gente pensar que poderíamos ter outros rituais, ensinado às crianças ou aos adultos de hoje outros rituais de como fazer o material do ano passado virar novo, por exemplo, como embelezar esse material antigo, também seriam hábitos inseridos na cultura da infância atualmente”, completam.

Em um de seus conteúdos publicados no Instagram, as educadoras propõem diversas formas para fazer com que o reuso do material antigo seja um novo hábito na família, trabalhando a sustentabilidade de forma divertida, como por exemplo: 

  • Encapar o caderno antigo com desenhos especiais
  • Colocar um broche ou penduricalho no estojo, marcando cada ano de uso
  • Apontar lápis, teste canetas e busque materiais guardados em casa para formar conjuntos novos 

Trabalhar periodicamente conversas a respeito da conservação dos materiais com os filhos também é uma boa forma de tornar esse cuidado com os objetos algo presente na rotina, diz Milena Palma. “Vale a pena os pais, durante o ano, uma vez ou outra, a cada dois meses, verem o estojo com os filhos e o estado dos materiais, enfatizando o cuidado para não perder o material, e pela conservação. Caso a canetinha não esteja tampada, por exemplo, mostrar que ela seca”, exemplifica. 

Desse modo, os pais exercem um papel fundamental para mostrar aos pequenos que há outras formas de obter o que se precisa, e nem sempre comprar tudo novo é necessário, como destaca Luciana Fevorini. “Numa sociedade baseada no consumo, é muito difícil ensinar esses valores. Mas justamente por isso eles são fundamentais, são um contraponto à tendência de querer sempre coisas novas e também a tendência de cuidar pouco do que é seu.”


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