Burnout parental: 4 estratégias para mães e pais exaustos

Educar os filhos pode ser estressante, mas há maneiras de aliviar essa sobrecarga, praticando, por exemplo, a autocompaixão, sugere a mestre em psicologia positiva Adriana Drulla

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Mãe sentada no chão com laptop no colo massageia nuca
Segundo a especialista, o burnout ocorre quando sentimos que não temos recursos para lidar com os nossos problemas

Votos de ano novo costumam se repetir ao longo dos anos. Os típicos são paz, amor, saúde e prosperidade. De vez em quando, claro, ouvimos algum desejo que não faz parte deste menu. Mas nesta última virada, fui surpreendida pela presença constante de um desejo diferente.

Muitas pessoas viraram o ano desejando a leveza. É como se no corre-corre de cada dia, a leveza tivesse se tornado um oásis no deserto. Para mães e pais, uma metáfora mais assertiva para a leveza seria miragem, uma espécie de sonho ou ilusão. O papel parental pode ser exaustivo. Somado a tantas outras demandas, é como se carregássemos o mundo inteiro em nossas costas. Uma tarefa nada leve.

No último artigo falamos sobre como reconhecer o burnout parental – a sensação de esgotamento associada ao estresse crônico que vem das demandas com os filhos. Pesquisas que estudam este tipo de burnout sugerem que ele pode ser pior do que o burnout profissional. Isto porque, quando o que te esgota é a parentalidade, não dá para pegar atestado, nem mudar de emprego. Porém, um dos pré-requisitos para a saúde mental é sentir-se capaz de lidar com os problemas. E se não podemos pedir demissão nem tirar licença remunerada, o que podemos fazer quando estamos à beira do burnout? Conheça estas quatro estratégias.

1 – Foque no que você consegue mudar, mesmo que pareça insignificante

Quando estamos sobrecarregados, temos a tendência de focar naquilo que mais nos estressa. Por exemplo, pode ser que seu filho esteja passando por uma fase difícil e isto não saia da sua cabeça. Ou então, pode ser que você tenha menos tempo em casa e lamente constantemente as consequências de sua ausência. Porém, quando o que mais te estressa são coisas que você não pode controlar, é inútil remoer. Lembre-se que o estresse é cumulativo, é sempre um conjunto de coisas que nos sobrecarrega. Então, procure equilibrar aquilo que está ao seu alcance, mesmo que sejam problemas menores.

Por exemplo, você pode fazer uma lista dos seus afazeres diários e distribuir para as outras pessoas aquilo que é possível. A louça pode ser responsabilidade do seu companheiro, o seu filho pode alimentar o cachorro. Se o problema é que as crianças têm atividades demais, considere o que pode cortar, ou então reveze o transporte com os pais dos amigos. De nada adianta dar para os seus filhos aquilo que você não teve se, em casa, eles encontrarem pais irritados e pouco pacientes. Mais do que qualquer coisa, crianças precisam de amor e conexão. E é muito difícil dar amor e paciência quando estamos esgotados.

2 – Invista em conversas sinceras com quem vale a pena

É difícil assumir que precisamos de ajuda. Quando estamos sobrecarregados, somos invadidos por sentimentos de incapacidade e até vergonha. Usamos o silêncio como estratégia de defesa. Isto porque sentimos que se nos abrirmos e dissermos a verdade, podemos ser rejeitados, ridicularizados ou diminuídos. De certa forma, isto pode até ser verdade. Existem pessoas que se aproveitam da vulnerabilidade alheia para fazer com o que o outro se sinta muito pior.

Existem também aqueles amigos bem-intencionados que metem os pés pelas mãos nos dizendo que o que temos não é nada. E a última coisa que precisamos em sofrimento é de um ouvinte que nos invalide. Quando optamos pelo silêncio, nos protegemos destas pessoas. Mas por outro lado, também deixamos de conversar com quem pode nos ajudar.

Na verdade, o isolamento só aumenta os sintomas do burnout. Temos cérebros sociais, somos programados para funcionar em sintonia com o outro. Por exemplo, quando explicamos para um amigo ou terapeuta as nossas dificuldades, as entendemos melhor por consequência.

Ademais, presenciar as reações do outro às nossas experiências nos ajuda a compreender seu significado. O apoio amoroso e empático é uma fonte valiosa de resiliência emocional.

Pode ser uma boa ideia procurar grupos de apoio e conversar com mães e pais que já passaram por esta situação. O burnout é muito mais comum do que se imagina. Constatar isso é uma excelente forma de normalizar o que você sente e superar o sentimento de incapacidade. Se você está sobrecarregado, não fique em silêncio, mas também não se abra com qualquer um.

3- Risque a palavra deveria do seu vocabulário

A sobrecarga acontece quando existe muita pressão sobre nossos ombros. Uma das formas de aliviar esta pressão, é cuidando das expectativas. Muitas vezes, esperamos que as coisas aconteçam de determinada forma. Por exemplo, não é realista esperar que você dê conta de tudo sempre, que esteja alegre todos os dias, ou que seus filhos sejam sempre obedientes e bem-comportados.

Correr atrás do impossível é exaustivo. Passamos a nos cobrar aquilo que é humanamente impossível. Sentimos vergonha de nossos erros como se fossem sinal de inferioridade. Na verdade, erros sinalizam que somos humanas, portanto, iguais a todos os outros pais e mães que caminham por esta terra.

Uma pesquisa interessante capturou bem o quão prejudicial é o perfeccionismo. Matilda Sorkkila e Kaisa Aunola entrevistaram 1725 mães e pais, buscando confirmar fatores de risco para o burnout parental. Elas constataram que o índice de burnout foi maior entre os pais muito jovens, que não tinham apoio, estavam desempregados, que tinham filhos com necessidades especiais, e que estavam em situação financeira difícil. Até ai, nenhuma surpresa.

Afinal de contas, o burnout acontece quando sentimos que não temos recursos para lidar com os nossos problemas. O que foi surpreendente nesta pesquisa é que entre todos os fatores de risco mapeados, o que tinha maior associação com o burnout foi o perfeccionismo. Quando sentimos que a sociedade espera que sejamos perfeitos, e quando nos cobramos ser perfeitos, temos grande risco de esgotamento.

4 – Pratique a autocompaixão

Autocompaixão envolve o reconhecimento de que todos nós falhamos, erramos e nos sentimos inadequados em alguma medida. Ou seja, nossos erros e defeitos são prova de que somos humanos e iguais aos demais, e não inferiores. Na autocompaixão, o respeito que sentimos por nós mesmos vem do reconhecimento de que estamos fazendo o nosso melhor para lidar com dificuldades que não escolhemos, e que na maioria das vezes não controlamos. É sobre honrar a nossa coragem de enfrentar todos os dias as dificuldades inerentes à nossa natureza. Por esta perspectiva, conseguimos ser gentis e acolhedores conosco, independentemente de estarmos vivendo uma vida de sucesso ou dificuldades.

Kristin Neff, pesquisadora referência no tema, operacionalizou autocompaixão com três elementos: mindfulness, humanidade comum e autogentileza. Nos momentos difíceis, faça uma pausa, e passe mentalmente por cada um deles. Primeiro investigue sua experiência com mindfulness, ou seja, com curiosidade e abertura em vez de negar o sofrimento ou lamentar excessivamente. Segundo, lembre-se da sua humanidade e do entendimento que o sofrimento é inerente à condição humana.

Ou seja, dificuldades são parte da experiência humana, e não provas de incompetência ou fraqueza. Então, acolha o que você sente com o terceiro elemento da autocompaixão, a autogentileza.

Pense sobre como você encorajaria ou apoiaria um amigo – ou até seu próprio filho – se ele estivesse passando pela mesma situação. E fale consigo da mesma forma. É muito mais fácil sentir-se seguro e capaz para mudar o que é necessário quando você encontra amor-próprio em vez de autocrítica. O amor-próprio não é uma recompensa que recebemos quando tudo vai bem. Amor não é apreço sobre como você está, amor é sobre quem você é.


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Adriana Drulla é mestre em Psicologia Positiva pela University of Pennsylvania (Estados Unidos), facilitadora do programa americano Mindful Self-Compassion para o desenvolvimento da autocompaixão, pós-graduanda em Terapia Focada na Compaixão pela University of Derby (Inglaterra). Autora do artigo científico Intergenerational Transmission of Self-Compassion, que trata da relação entre autocompaixão e parentalidade, escrito com Karen Bluth, pesquisadora e autoridade mundial nos temas autocompaixão e adolescência. Mãe da Chiara, 9 anos, e do Matteo, 4 anos.

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