“Maternidade não é Olimpíada; se você busca medalha, a prova já está perdida”

Diferentemente dos atletas, a preocupação maior das mães não pode ser a performance, ou corre-se o risco de deixar de lado o principal: a conexão com as emoções e necessidades dos filhos, explica a mestre em psicologia positiva Adriana Drulla

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Mulher com faixa na testa e medalha no pescoço mostra biceps do braço
Ao entendemos que os erros fazem parte do pacote, fica mais fácil aceitarmos nossas limitações, explica Adriana

As cobranças sociais relacionadas à maternidade estão cada vez mais altas. E enquanto podemos – e devemos – questionar estas cobranças, a verdade é que a realidade se impõe sobre a sua rotina. Por exemplo, é fato que você vai receber o olhar reprovador do vizinho segunda feira de manhã se o seu filho fizer outro escândalo no elevador. Se abrir o e-mail, encontrará outra newsletter dizendo que crianças deveriam comer orgânicos – frescos é claro. Um pouco mais abaixo, encontrará o artigo dizendo que você deveria ter amamentado até os dois anos de idade. Parido naturalmente. Tirado a rodinha da bicicleta aos 4 anos. Nunca ter colocado a rodinha em primeiro lugar. Quando você ficar orgulhosa porque conseguiu matricular a criança no inglês, conhecerá na saída da escola a mãe do Joãozinho – um menino de 5 anos que já faz inglês, programação e curso de arte moderna.

Nesta hora, você vai chegar à conclusão que deveria fazer mais pelo desenvolvimento do seu filho – afinal de contas, você escolheu colocar esta criança no mundo. Não, a ciência sobre o desenvolvimento infantil não está errada. Quem está errada é você. E então você fará um compromisso consigo: você vai se tornar uma mãe boa o suficiente. Nesta hora, você vai decidir deixar o trabalho para depois. Afinal de contas, é papel da boa mãe ir para a feira comprar os orgânicos. Você ficará orgulhosa ao ver a linda refeição que você mesma preparou. Mas, mais tarde, quando você terminar a rotina noturna recomendada (banho-jantar-livro-xixi-cama), verá que seu filho foi dormir uma hora depois das 7:59 – o horário ideal para o desenvolvimento cerebral desta faixa etária. E é quando você vai concluir que este negócio de maternidade é difícil demais para você. 

Mas cuidado com o que você vai fazer para esfriar a cabeça! Se sem querer você abrir o Instagram… Pois é. Vai se dar conta de que a mãe do Joãozinho se multiplicou, elas existem aos milhares! 

Ser mãe nos tempos modernos tornou-se uma Olimpíada. E a característica básica das Olimpíadas é que, além de ser um desafio para poucos, ela é, obviamente, uma competição. E eu não sei se você sabe, mas para mim foi libertador descobrir que cérebros humanos funcionam de uma forma característica dependendo do que nos motiva naquele momento. Em uma Olimpíada, por exemplo, humanos precisam dar a sua melhor performance, destacar-se, provar o valor que têm enquanto atletas. É por isso que, nestas circunstâncias, pensamentos humanos giram em torno da própria performance: “qual foi o meu tempo? Como lidar com este desafio? Lembrei de todas as instruções?”. Também é natural que a atenção humana se dirija à performance de outros atletas, quer dizer, a performance do outro se torna um referencial ao qual você se compara. 

Ou seja, quando o homo sapiens sapiens – leia-se qualquer ser humano – acredita que o seu valor social está em xeque, ele – nós – se torna obcecado em autoavaliar-se e comparar-se socialmente. Quando consegue dar conta do recado, sente um imenso prazer. Dopamina é o nome do barato. Mas quando falha, sente-se incapaz, frustrado, inseguro e desanimado. 

A questão é que enquanto você encarar a maternidade como uma prova olímpica – uma avaliação sobre a sua capacidade de seguir as melhores práticas – a maternidade será apenas sobre a sua performance. Assim como o atleta, você ficará tão preocupada em seguir a rotina recomendada (banho-jantar orgânico fresco-livro-xixi-cama às 7:59) que se esquecerá de olhar nos olhinhos da criança e perceber o que ela precisa naquele momento. 

E se o que te convence é a ciência, saiba que estudos também sugerem que quando a parentalidade é encarada como um teste que põe em xeque a competência, o valor social e a identidade parental, isto faz com que funcionemos a partir da mentalidade social competitiva. Em uma situação de conflito, mães preocupadas com a preservação de uma identidade materna positiva, podem gritar, ameaçar ou manipular a criança em vez de conectar com as emoções e necessidades dela. 

Por exemplo, se o seu objetivo é não passar vergonha no elevador às segundas-feiras de manhã, você pode acabar dizendo para o seu filho “quando você chega os vizinhos devem pensar, olha, lá vem o menino birrento”. Ou seja, você tenta controlar o comportamento da criança fazendo com que ela sinta uma das maiores dores humanas – a sensação de vergonha e inferioridade. 

Claro, se você sente que a sua identidade está ameaçada pelo comportamento do seu filho, ficará difícil conectar-se com ele em um espírito de cuidado e amor. Simplesmente porque, neste momento, a mentalidade que opera em você não é a de cuidado.

Se enxergarmos nossos filhos meramente como resultado do nosso trabalho – provas da nossa competência, ou falta dela – faremos de tudo para que eles se adequem às expectativas e se tornem a medalha das nossas Olimpíadas. 

E você pode estar sentindo agora uma mistura de alívio e desespero. Afinal de contas, antes pelo menos você tinha um norte a seguir – a mãe do Joãozinho! Agora – se você não pode nem tentar ser perfeita – o que fazer? 

Pode ser muito mais leve do que as recomendações fazem parecer. O que o seu filho mais precisa para se desenvolver bem é ter um vínculo profundo com você. Ele precisa te sentir como um porto seguro, alguém que dá segurança para que ele possa explorar o mundo à maneira dele, e que o acolha quando algo não vai bem. Ele precisa sentir segurança de que você o ama e valoriza exatamente do jeito que ele é. Ele precisa sentir que ele não precisa se transformar no Joãozinho.

Filhos humanos são seres falhos, portanto, precisam de modelos imperfeitos. Mais do que isso, precisam de modelos resilientes, que conseguem cair, levantar e ter a coragem de tentar de novo. 

E para crescer resiliente é necessário que seu filho acredite – de fato acredite – que erros não são algo para se ter vergonha. Ele precisa entender que erros são etapas necessárias para o aprendizado. Será importante que ele saiba que todos têm dificuldade, que homo sapiens sapiens não ganham todas as Olimpíadas. E para isso, ele precisa ver com os próprios olhinhos que até os seus ídolos máximos também erram. Mande um print deste parágrafo para a mãe do Joãozinho. 🤗

Veja que as mães dos Joãozinhos sofrem do mesmo mal que todas nós – a decepção por se verem imperfeitas frente a uma das maiores responsabilidades da nossa existência, a criação de nossos filhos. É a ansiedade de consertar o irreparável que nos leva a assumir a perfeição como um ideal, ou transformar nossos filhos em seres perfeitos. Mas a maternidade não é uma Olimpíada e se você busca uma medalha, saiba que a prova já está perdida. Faça o que fizer, você nunca mudará o fato de que que pertence à linhagem dos homo sapiens sapiens – seres falhos, imperfeitos, e que deixam a desejar. 

E veja, muitos dos padrões que não gostamos em nós se repetem não pela força do hábito, mas pela força do ódio. Quando lutamos contra nós mesmas, nos sentimos inseguras, com medo, pouco valiosas. E uma das necessidades básicas do ser humano – portanto sua também – é sentir-se valioso. Quando o homo sapiens sapiens sente que o seu valor está sob ameaça, torna-se prioridade reestabelecer o seu senso de competência. Lembra como fazemos isso? Nos tornamos obcecadas com a nossa performance. 

Expectativas irrealistas e cobranças sociais produzem pais e mães inseguros que, justamente por sentirem-se ameaçados, não conseguem responder às necessidades da criança de maneira adequada.

Quando entendemos que nossos erros fazem parte do pacote, que eles vêm com o genoma, e que todos os pais e mães que já caminharam por esta terra são imperfeitos também, fica mais fácil aceitarmos as nossas limitações, em vez de nos atacarmos por causa delas. Quando nossos erros não são motivo de vergonha, fica mais fácil assumir quando erramos. Pedir desculpas, para os nossos filhos em vez de culpá-los dizendo “eu só gritei porque você não me escuta”. Quando enxergamos nossas dificuldades como naturais, fica mais fácil conviver com elas. Fica mais fácil tentar novas rotas, comunicar as suas limitações com clareza. Fica mais fácil ser um modelo de autocompaixão e resiliência para o seu filho. 

Certa vez, depois de perder a cabeça e me sentir muito mal, contei para a minha filha que – no piloto automático – posso me tornar a própria competidora olímpica correndo os 100 metros rasos contra a mãe do Joãozinho. Me torno exigente e inflexível, posso ser dura e brava. Expliquei como é difícil me autorregular todas as vezes, e que de vez em quando acabo passando dos limites. Pedi a ajuda dela para que quando identificasse a mãe competidora, pudesse apenas me dizer as palavras “piloto automático”. Escutar “piloto automático” na voz dela é como tomar um banho de lucidez. Ela me ajuda, e se sente confortável para pedir a minha ajuda também. 

Foi o psicólogo Carl Rogers quem disse “quando me aceito como sou, então posso mudar”. Curiosamente, algo paradoxal acontece quando deixamos de brigar contra nós mesmos. Superamos coisas que antes era dificílimo superar. Quando você não precisa provar o seu valor o tempo inteiro, avaliar a sua performance deixa de fazer sentido. Você já se sente boa o suficiente por quem você é, defeitos inclusos. Segura do seu valor, as suas atitudes não serão motivadas pelo medo e pela insegurança, mas pelo desejo de ajudar e cuidar de quem você ama. Sim, para melhor ajudar e cuidar do seu filho, você precisa primeiro amar, respeitar e reconhecer o seu próprio valor. Mudar os padrões pela força do amor. Chama-se autocompaixão.  


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Adriana Drulla é mestre em Psicologia Positiva pela University of Pennsylvania (Estados Unidos), facilitadora do programa americano Mindful Self-Compassion para o desenvolvimento da autocompaixão, pós-graduanda em Terapia Focada na Compaixão pela University of Derby (Inglaterra). Autora do artigo científico Intergenerational Transmission of Self-Compassion, que trata da relação entre autocompaixão e parentalidade, escrito com Karen Bluth, pesquisadora e autoridade mundial nos temas autocompaixão e adolescência. Mãe da Chiara, 9 anos, e do Matteo, 4 anos.

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