Não compre qualquer brinquedo só porque ‘todos os amigos têm’

Realizar os desejos de consumo pode prejudicar a percepção da criança sobre o próprio valor

131
O consumo de brinquedos e a percepção da criança sobre o próprio valor
Adriana Drulla explica que, muitas vezes, o desejo por um brinquedo tem a ver com a preocupação da criança em querer ser igual aos amigos

Leia em 5 minutos


Eu não costumo dar aos meus filhos os brinquedos da moda. Portanto, seria lógico inferir que os poucos que a minha filha ganhou ocupem um lugar especial em seu quarto, como se fossem troféus. Mas se você tem criança em casa, sabe que não é assim que a coisa funciona. Os antigos brinquedos – um dia considerados artigos de primeira necessidade – acabaram provando-se desnecessários. Jazem no cemitério de cacarecos indesejáveis, dentro de uma caixa no canto do quarto. Empilhados, os antigos objetos liberam o espaço e a atenção da minha filha para novas promessas do consumo.

A bola da vez agora era o fidget toy. “O que é isto?”, perguntei. Ela disse que era um objeto colorido que tinha bolhinhas de apertar. Quando eu questionei por que ela queria algo cuja única função era apertar bolhinhas, a resposta foi “porque é legal”. E emendou dizendo que todas as amigas tinham. Por que seria a família dela a única a questionar o sentido da bugiganga?

Querer e precisar são coisas diferentes

Toda mãe e pai que lidam com o discurso pidão, sabem que na cabeça da criança existe uma confusão entre querer e precisar. Quando a criança pede, ela de fato acha que precisa daquilo. Alguns chegam a chorar ou suplicar por dias. Mas veja o exemplo dos fidget toys. Embora não tenham eficácia comprovada, são apetrechos terapêuticos usados para quadros de ansiedade, déficit de atenção e autismo. A ideia é que com a repetição de movimentos – a criança aperta as bolhinhas de um lado e depois do outro – o usuário consiga descarregar energia, concentrar-se e ainda substituir manias que normalmente acompanham a ansiedade, como roer unhas.

Minha filha não tem ansiedade, não rói as unhas e não tem qualquer outro quadro que torne benéfico o uso do fidget toy. Logo, ela não precisa deste objeto. Além disso, desconfio que o uso constante possa fazer com que a criança desenvolva o hábito de fazer o movimento repetitivo com os dedos. Porque eu daria algo para a minha filha que além de desnecessário, poderia até causar consequências ortopédicas? Acrescente a isto o fato de que custam caro e geram lixo. Contabilize também a superpopulação da caixa de cacarecos.

Um pouco de frustração não faz mal a ninguém

Pedidos insistentes são inconvenientes e cansativos, tanto que muitas vezes cedemos e compramos o que desejam. Mas pedidos insistentes são também oportunidades para ensinarmos importantes lições. Por exemplo, a diferença entre querer e precisar. Necessidades são universais, precisamos daquilo que nos garante saúde mental e física. Temos necessidades materiais, como casa, comida e roupas. Também temos necessidades relacionais, como pertencimento e aceitação. Por outro lado, muito daquilo que desejamos comprar não cumpre um papel fundamental em nossa vida, muda com o tempo e costuma variar conforme a
moda.

A consequência de não se ter o que precisa, chama-se prejuízo mental e físico. A consequência de não se ter o que deseja, chama-se frustração. E um pouco de frustração não faz mal a ninguém. Inclusive, tolerar a frustração é uma importante lição que estes
momentos nos convidam a ensinar.

O reforço poderoso que é atrair a atenção alheia

Sabemos que realizar todos os desejos da criança pode deixá-la mimada e exigente. Mas, na minha visão, o buraco está muito mais embaixo. Realizando todos os desejos de consumo do seu filho, você pode prejudicar a percepção que ele tem sobre o próprio valor. A explicação é simples. A criança diz que precisa dos brinquedos da moda porque de fato acredita que eles preencherão uma necessidade. Por exemplo, por trás do argumento “mas todas as minhas amigas têm” está o fato de que ela se sente excluída, ou diferente do grupo, sem o objeto.

Para o ser humano, a necessidade de pertencimento é tão importante quanto o alimento. Tanto que a dor da rejeição ativa circuitos neurais similares à dor física no cérebro. Nosso cérebro é programado para que estejamos sempre atentos ao nosso valor social e para que escolhamos comportamentos que nos façam mais valiosos aos olhos do outro. Para a criança, ter o objeto da moda a tornará valorosa para o grupo. Subentendida a seu pedido está a crença de que a posse do objeto satisfará uma de suas necessidades humanas mais básicas: a de pertencimento. E, de forma tosca, isso até acontece. O objeto da moda chama a atenção dos amigos. Portanto, aquele que o ostenta, torna-se mais interessante para o grupo. Momentaneamente, é claro.

À medida que a moda muda, ele precisará conquistar o próximo brinquedo para sentir-se especial. As crianças querem os novos gadgets não porque sejam úteis ou mais divertidos que os anteriores, mas porque querem sentir que são especiais. A atenção do grupo sempre se dirigirá para aquilo que é novidade. Portanto, cada amigo que consegue comprar o objeto do desejo desvaloriza a conquista dos demais. Então, passam a querer um outro objeto introduzido como hit do momento pelos youtubers, influencers, propagandas e afins.

Ter coisas interessantes para ser interessante

Mas este ciclo de consumo em que você não compra brinquedos ou outras coisas pela utilidade, mas por conta do que o artigo diz sobre você, é benéfico apenas para quem vende. O que nossos filhos precisam, de fato, é sentirem-se pertencentes e valiosos – e isto não está em objeto algum.

As pesquisas mostram que o materialismo é uma estratégia que as pessoas usam para lidar com a baixa autoestima.

Ou seja, quando a pessoa não acredita que é inerentemente valiosa, ela usa o consumo para provar o seu valor. As pesquisas também mostram que o materialismo está relacionado à infelicidade, competitividade, egoísmo, inveja, e menor percepção de sentido na vida.

Contribuímos para que nossos filhos se desenvolvam materialistas quando concordamos com compras motivadas pelo desejo de aumentar seu valor social. Isso acontece porque ao consumir eles de fato experimentarão uma sensação poderosa, porém efêmera, de importância. E então concluirão que a admiração do grupo está condicionada àquilo que têm e não àquilo que são.

Quando a criança aprende que seu lugar no grupo depende de suas posses, fica subentendido que ela precisa ter coisas interessantes para ser interessante. Ou seja, se ela não possuir coisas legais, ela também não é.

A importante lição que lhe cabe ensinar

No entanto, precisamos sentir que somos aceitos por quem somos e não pelo que temos. Para que cresçam confiantes e possam realizar-se na vida, crianças precisam sentir que têm valor por quem são. Para aprenderem que têm valor intrínseco precisam da chance de testar esta hipótese. Por exemplo, elas precisam perceber que os amigos as querem por perto porque admiram as qualidades que elas têm. Elas precisam constatar que a falta de fidget toy não alterará o seu lugar no grupo. E se alterar, é importante que compreendam que aqueles que as excluem por não terem o objeto da moda, nunca mereceram a sua amizade em primeiro lugar.

Se o seu filho aprender que ele é valioso exatamente como é, será mais feliz e trará menos lucro para a mídia, para os influencers, e para os fabricantes de gadgets. Ele não será alvo fácil de manipulação. E é por isso que estes agentes não te ajudarão a ensinar a seu filho estas lições. Mesmo assim, você pode ensiná-lo que ele não precisa ser diferente ou conquistar coisa alguma para ter valor. Você pode ajudá-lo a construir um senso crítico sobre as propagandas que o seduzem. Você pode inclusive refletir com ele sobre o que está por trás destes desejos de consumo de brinquedos e outros apetrechos, em vez de sentir-se pressionado a realizá-los. Para te ajudar nisso, não perca o próximo artigo.



Gostou do nosso conteúdo? Receba o melhor da Canguru News semanalmente no seu e-mail.

Adriana Drulla é mestre em Psicologia Positiva pela University of Pennsylvania (Estados Unidos), facilitadora do programa americano Mindful Self-Compassion para o desenvolvimento da autocompaixão, pós-graduanda em Terapia Focada na Compaixão pela University of Derby (Inglaterra). Autora do artigo científico Intergenerational Transmission of Self-Compassion, que trata da relação entre autocompaixão e parentalidade, escrito com Karen Bluth, pesquisadora e autoridade mundial nos temas autocompaixão e adolescência. Mãe da Chiara, 9 anos, e do Matteo, 4 anos.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, deixe seu comentário
Seu nome aqui