Pediatras alertam para mudanças de comportamento nas crianças durante a pandemia

Pesquisa feita pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) também chama atenção para queda na vacinação e consultas pré-natal

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Mudanças de comportamento nas crianças chamam atenção de pediatras; na imagem, garota morena de cabelo preto está deitada na cama olhando para o celular que segura na mão
SBP ressalta que o o aumento de tempo das crianças em frente às telas não só pode provocar mudanças de comportamento, como também contribui para o aumento da obesidade infantil

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Quase 9 em cada 10 pediatras (88%) dizem que as crianças apresentaram mudanças de comportamento durante a pandemia de Covid-19. Oscilações de humor, como passar de felizes e ativas para taciturnas e retraídas, estão entre as queixas mais frequentes. Em seguida, aparecem questões de ansiedade, irritabilidade, depressão, agitação, insônia, tristeza, agressividade, aumento de apetite, entre outros. Os dados são da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Federação das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), que divulgaram a pesquisa “O impacto da Covid-19 na saúde das gestantes, novas mães e seus filhos”.

O levantamento foi realizado por meio de questionário online, entre 20 de julho e 16 de agosto, e ouviu 1.525 profissionais, sendo 951 pediatras e 574 ginecologistas e obstetras de todo o país.

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Segundo a presidente da SBP, dra. Luciana Rodrigues Silva, as mudanças de comportamento podem estar relacionadas a aspectos como alterações da rotina, falta da escola e da convivência com os colegas, e a necessidade de isolamento social imposta pela pandemia. A violência doméstica é outro fator que também preocupa os profissionais. “Com o confinamento, muitos pediatras têm relatado aumento dos casos de violência contra a criança e o adolescente”, afirma.

Luciana observa que as brincadeiras e as tarefas domésticas em conjunto, como cozinhar, podem ajudar nesse processo. Ela afirma que o fato de as crianças estarem mais tempo em frente às telas de celulares e computadores não só pode provocar mudanças de comportamento, como também contribui para o aumento da obesidade infantil.

A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) emitiu um alerta esta semana chamando a atenção para uma “crise generalizada de saúde mental” na região das Américas, com um pico inédito de casos de depressão, ansiedade e estresse, além de aumento da violência doméstica.

A diretora da Opas, Carissa Etienne, pediu que as famílias façam um esforço maior no diálogo com jovens para que expressem seus sentimentos. “É normal sentir-se triste, estressado, confuso e assustado com essa crise. Todos sentimos isso. Os conflitos, porém, devem ser mínimos”, argumentou.

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Médicos também chamam atenção para queda na vacinação infantil e atraso no pré-natal

Em relação aos mais pequenos, a preocupação da SBP é com a vacinação. Na pesquisa, 73% dos pediatras têm a percepção de que as crianças deixaram de ser vacinadas nesse período. “As mães estão com medo do contágio pelo coronavírus ao procurar os postos de vacinação, mas ficar sem a vacina é um risco ainda maior para as crianças. Há, por exemplo, um avanço nos casos de sarampo no Brasil neste ano, justamente pela queda nos índices de vacinação durante a pandemia”, destaca Luciana.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgou que mais de 117 milhões de crianças em todo o mundo podem deixar de receber a vacina contra o sarampo. Há registros de circulação da doença em 19 estados brasileiros.

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Riscos de transmissão do coronavírus em gestantes e seus bebês

A pandemia também traz impactos na assistência à gestante, na avaliação de 64% dos obstetras ouvidos na pesquisa. Para a maioria deles (52%), as grávidas estão atrasando o início das consultas de pré-natal. Um quinto (20%) relata que elas deixaram de ir ao consultório ou posto de saúde nas datas corretas. O principal motivo, na opinião de 81% dos entrevistados, é o medo da contaminação pelo coronavírus. Percentual semelhante (82%) relata que as pacientes têm o mesmo temor em relação aos hospitais, de se infectar no momento do parto. De acordo com 46% deles, as grávidas não estão conseguindo fazer os exames de acompanhamento no tempo certo, e 8% dizem que elas deixaram de realizá-los nesse período. Grande parte dos profissionais (70%) diz que as gestantes têm medo de que, uma vez infectadas, haja transmissão viral para o bebê, por meio da corrente sanguínea, e que o coronavírus cause má-formação fetal.

Segundo o presidente da Febrasgo, dr. César Eduardo Fernandes, até o momento, não existe nenhuma evidência de que haja transmissão vertical do coronavírus nem que ele cause defeitos congênitos no feto. “É uma crença equivocada talvez pela associação que muitas possam fazer com o vírus da zika, que assolou o país [entre 2015 e 2016] mais do que qualquer outro do mundo”, diz.

Dr. César Fernandes diz que é preciso desmistificar essas crenças e conscientizar as gestantes dos riscos que elas e os bebês correm se o pré-natal não for feito da forma correta. “Por exemplo, ao adiar o início desse acompanhamento, perde-se a oportunidade de detectar e tratar precocemente doenças como a sífilis que causam má-formação fetal. Se eu diagnosticar a sífilis no sexto mês de gravidez, não tenho mais o que fazer [em relação aos danos causados ao feto]”, adverte.

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Também há riscos de morte para a gestante e o bebê, além de parto prematuro, se doenças como a diabetes e a hipertensão não forem diagnosticadas e tratadas a tempo. A própria gestação aumenta as chances de complicações na Covid-19, o que torna o acompanhamento dessas mulheres mais de perto ainda mais imprescindível.

“A gestante tem uma dinâmica diferente da mulher não-grávida. A assistência ventilatória de uma grávida, caso precise ser intubada, é muito problemática. O [bebê no] útero dificulta a expansão do diafragma. É preciso uma equipe muito bem capacitada para atendê-la nessas condições”, explica.

O Brasil tem registrado alta taxa de mortalidade materna pela Covid-19. Para dr. César Fernandes, elas estão relacionadas à falta de acesso à assistência adequada do que à doença em si. [Com informações da SBP e Febrasgo]

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