Etiqueta digital: replicar informações não confiáveis em grupo de pais da escola é irresponsabilidade

Assim como eu, muitos pais precisam participar do grupo da escola por uma questão de logística e ficar recebendo esses vídeos e memes impróprios torna-se exaustivo

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Fake news não deve ser replicada de modo irresponsável em grupo de pais da escola; na imagem uma pessoa segura o celular que mostra na tela as palavras

Tinha imaginado um post falando sobre a homofobia e como ela matou um dos maiores heróis da Segunda Guerra Mundial, Alan Turing. Mas, infelizmente, terei que deixar esse artigo para depois. Como vocês já sabem, sou professora, pesquisadora e mãe. Equilibro essas funções com muito orgulho e alegria. Adoro o que faço, mas acho importante sublinhar que a maternidade é sim um trabalho. Pois bem, o grupo de pais do colégio do meu filho foi invadido pelas fake news (notícias falsas) do youtuber Felipe Neto.

Tudo começou com uma coluna de uma jornalista sobre os excessos do influenciador digital. Achei importante avisar, educadamente, que ele estava sendo atacado pela milícia digital por causa de seus posicionamentos políticos. Esses criminosos digitais destroem reputações de toda e qualquer pessoa que saia do estreito conceito de “aceitável” definido por eles ou ataquem seus ídolos. Acredito ser necessário ver todos os lados de uma questão.

A resposta veio na forma de uma enxurrada de fake news sobre o assunto e comentários afirmando que tratava-se sim de um “pedófilo depravado”. Confesso que perdi a paciência.

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Pedi encarecidamente que um grupo feito para trocar informações sobre nossos filhos não fosse intoxicado por notícias falsas, milícia digital e assédio ideológico.

Argumentei que, assim como eu, muitos pais precisam do grupo por uma questão de logística e ficar recebendo esses vídeos e memes impróprios estava tornando-se exaustivo. A resposta foi: “mas se você não quer ouvir opinião contrária à sua, não fale, querida”. Acontece
que fake news não é opinião. Fake news é crime. Replicar de forma inconsequente uma mentira feita para arruinar a vida de outra pessoa (qualquer pessoa) é, no mínimo, uma atitude antiética. Acreditar em fake news também não é opinião, é irresponsabilidade.

Hoje em dia existem inúmeros órgãos de imprensa especializados em verificar notícias falsas. Muitos deles com certificação internacional. Bastam cinco minutos para saber se o post, vídeo ou meme é verdadeiro ou falso. Logo quem replica esse tipo de notícia está sim dando um péssimo exemplo para seus filhos e filhas. Aqui vão algumas dicas simples para não passar conteúdo criminoso e difamatório para frente em grupos e outras mídias sociais.

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Como checar se a informação é fake news

1- Verifique em órgãos oficiais de imprensa se a notícia é verdadeira. Aqui estão algumas sugestões sérias:
Fato ou Fake, da Globo
Estadão Verifica, do jornal Estado de S. Paulo
Comprova – Se você não acreditar na “imprensa oficial”, então procure o Projeto Comprova, eles verificam todos os vídeos, posts e memes enviados. Demora mais uma pouquinho. No entanto sempre é bom não ter pressa em ajudar a destruir a vida de alguém não é mesmo?

2- Pense duas vezes antes de replicar se a vítima for alguém que você não gosta. Normalmente, nos precipitamos quando vemos adversários ou desafetos atacados.

3- Imagine que o acusado (ou vítima) poderia ser alguém da sua família ou mesmo seu filho no futuro. Verifique a informação com a mesma diligência que você faria para seu filho, filha, familiar ou amigo.

Fazer isso em um grupo de pais é falta de educação, pois coloca pessoas como eu (aquelas que teimam em ter consciência) diante de uma escolha infernal: ficar exaustivamente desmentindo cada falácia replicada ou ignorar tornando-me cúmplice de uma atrocidade. Não fiz uma coisa, nem outra. Decidi denunciar esse comportamento inaceitável e hipócrita de confundir liberdade de expressão com conivência à agressão/discriminação/ofensa ao próximo, próxima ou pró[email protected]

Tenho quase certeza de que não sou a única mãe a passar por esse tipo de assédio ideológico. Espero que meu artigo alerte coordenadores, diretores, professores e pais sobre esse novo tipo de violência moral que invadiu os grupos de pais em colégios. Precisamos desses grupos, mas a adoção do mínimo de etiqueta digital parece urgente.

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A questão aqui não é concordar ou discordar do conteúdo polêmico do Felipe Neto. Meu filho não assiste. Nunca pediu para assistir, pois direcionei os interesses dele para ciências, literatura, mitologia, games e programação. Também não recomendo, como educadora, que ele seja visto por crianças. Ele mesmo já disse que seu conteúdo não foi inicialmente pensado para o público infantil. Chegou a admitir publicamente erros e procurou corrigi-los em livros e vídeos posteriores. Mesmo assim acho que o conteúdo dele deveria ser visto por adultos. Salvo minhas reservas com o trabalho do Felipe Neto, fiquei chocada com a rapidez com que mães, ideologicamente comprometidas, replicam mentiras comprovadas por diversos órgãos de imprensas de forma tão irresponsável.

Conteúdos impróprios para menores sempre existiram e existirão na internet, nos livros, nas ruas, na televisão e no mundo. Cabe aos pais cuidarem, orientarem, vigiarem e fazerem-se presentes na vida de seus filhos e filhas. Assistam os vídeos juntos, discutam o conteúdo, planejem e combinem regras. Isso vale para qualquer outra mídia impressa ou digital. A receita não é nova, mas funciona. Não adianta
ficar esbravejando contra esse ou aquele youtuber que grita, fala palavrões ou tem um conteúdo questionável. Falar mal de um comunicador desperta a curiosidade nas crianças e é um convite quase irresistível de rebeldia para adolescentes.

Dialogue e redirecione os interesses. Leia livros com seus filhos, procure por outros youtubers mais apropriados, brinquem e dividam experiências. Nada mais impactante do que a presença parental amorosa, divertida, cuidadosa e cúmplice para dissipar qualquer
ameaça digital. Não se pode pedir respeito e ética agindo na direção oposta desses valores. Aonde tem amor sempre tem solução. Aplique essa regra com suas crianças e, principalmente, com os filhos e filhas dos outros. Lembrem-se: as vítimas de difamação também possuem famílias…

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Doutora em Linguística Aplicada pela PUC-SP, trabalha com letramento em programação e Transletramento em TEIA (Tecnologia, Educação, Inovação e Afetividade). Investiga a Educação Tecnológica aplicada aos anos iniciais da Educação Básica. Fez doutorado sanduíche na Universidade de Pittsburgh (EUA). Idealizadora do Programa de Educação Tecnológica Clube01, colaboradora do IMATech e da ONG Assemble, na qual atuou como convidada expert.

2 COMENTÁRIOS

  1. Mesmo nessa fase de isolamento social tenho vontade de lhe dar um abraço e um beijo, Luciana! Matéria pertinente demais nos dias atuais, além de direta e clara! Fico só observando pais que disponibilizam celulares e demais telas para seus filhos ainda bebês, que criam perfil em rede sociais para crianças que ainda nem largaram as fraldas, que mal acompanham o que seus filhos são expostos no dia a dia, sendo críticos vorazes pela educação de qualidade infantil! Quanta hipocrisia, sem falar nos crimes que cometem ao deturpar a imagem do outro e ao espalhar fake news, sem ao menos se preocupar com os exemplos que passam aos seus filhos. Parabéns pela exposição necessária!

    • Querida Thaís,
      Muito obrigada pelas palavras de apoio e carinho. Retribuo o abraço, mesmo que a distância! Acredito na leveza e na alegria para levar a vida. No entanto, há situações que pedem firmeza e posicionamento. Calar-se em nome da harmonia diante de uma Fake News significa ser cúmplice de maldades e mentiras travestidas de opinião. Há muito tempo o Brasil e o mundo vem sendo assolado por notícias falsas. Essa violência digital vem sendo feita para desmoralizar movimentos sociais legítimos, minorias étnicas e religiosas ou qualquer voz que fira os interesses obscuros de grupos conservadores extremistas. Desde 2018 lidamos com valentões e valentonas digitais que pensam poder intimidar quem os enfrenta com agressões, ameaças, exposição e assédio moral. Sempre é bom lembrar que não estamos sozinhas. Podemos contar com uma corrente de pessoas que sonham uma sociedade mais fraterna e justa para seus filhos, filhas e [email protected]

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