Medida Provisória: a importância de lutar agora contra o fascismo brasileiro 

Luciana E. Correa, especialista em educação tecnológica, dá orientações de como proceder contra a desinformação, assédio e discursos de ódio, dentro e fora da internet

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Cena do filme Medida Provisória, que mostra a atriz Thaís Araújo
"O discurso, a atitude, a estrutura da narrativa dos governantes, a covardia dos colaboradores que instituíram um regime de terror racista naquele Brasil distópico me deixaram envergonhada", diz Luciana sobre o filme Medida Provisória

Nunca imaginei que seria interrompida no meio de uma aula por expor um fato histórico do Brasil: a chegada de um governo com discurso fascista ao poder, em 2018. Mas há 15 dias, essa situação surreal realmente aconteceu, enquanto eu ensinava Português a uma aluna da República Tcheca, de forma remota. Estava em um coworking em São Paulo e explicava a ela que isso ocorreu devido a uma guerra de informação planejada e financiada pela elite brasileira, quando uma senhora presente no local resolveu interromper minha aula, em uma clara tentativa de intimidação, exclamando aos berros:

– Fascismo? Era só o que faltava! 

– Vou te contar viu! Ninguém merece essa aí!

Ignorei os ataques, terminei a aula e me dirigi à recepção para relatar o ocorrido. A simpática moça do RH foi explicar à “cidadã de bem” o que significava espaço coletivo e respeito. Eu fui embora.

Recuso-me a ser plateia de fascista ou de gente manipulada por esse discurso. Afinal atacar uma professora em pleno exercício da sua profissão para intimidá-la, policiando o conteúdo da aula, é sim fascismo. 

Mais tarde fui ao cinema ver o filme recém-lançado Medida Provisória, com direção de Lázaro Ramos. O discurso, a atitude, a estrutura da narrativa dos governantes, a covardia dos colaboradores que instituíram um regime de terror racista naquele Brasil distópico me deixaram envergonhada. Envergonhada de fazer parte de uma classe privilegiada que não ajuda a silenciar e combater o fascismo como deveria. Que não se posiciona diante do inominável. 

Todas, todes e todos precisam fazer a sua parte. Ser neutro em uma situação de ameaça à dignidade humana, é ser cúmplice. Mas como lutar contra as tempestades de desinformações diárias, os assédios constantes, os olhares ameaçadores e os discursos de ódio cada vez mais frequentes? 

Não interaja

Primeiro é preciso saber como a informação é processada por esses algoritmos que ritmam os humores da humanidade nas últimas décadas. A palavra-chave aqui é engajamento. Logo quando você se deparar com um post fascista, controle seus impulsos. Evite confronto direto com respostas ao post, dislike ou tentativa de diálogo. Fascismo é uma ideologia que inclui racismo, machismo, homofobia e ataques à democracia, trata-se de um posicionamento eticamente inaceitável que dispensa debate.  

Denuncie o conteúdo

Faça um print e denuncie o conteúdo primeiro na própria rede. Se a rede social ignorar, denuncie a rede. Pressione quem pode instaurar filtros contra esses ataques que colocam outras vidas em risco.

Evite citar nomes

Não cite nomes nos posts da internet. Os nomes podem ser usados por bots para responder com mensagens positivas, aumentando o engajamento e, consequentemente, a visibilidade das ideias fascistas. Mesmo um hater ajuda quem posta na internet. Os bots são pequenos programas que possuem função de procurar, disseminar e/ou interagir automaticamente com conteúdos específicos, em especial os que citam nomes de pessoas públicas. Se o post estiver nos comentários da vítima dos ataques, responda sua defesa diretamente para a vítima. Evite escrever respostas diretas ao agressor. Desta forma você ajuda e protege quem foi agredido.  Caso o post se enquadre em crimes previstos pela lei, faça um boletim de ocorrência. 

Registre e guarde as provas

Quando uma, ume ou um fascista, ou pessoa manipulada  por esse discurso, faz comentários de forma presencial existem três cenários possíveis. 

Se for um discurso contra minorias sociais, trata-se de crime previsto em lei, como ou sem uma vítima direta presente.  Filme, grave, produza provas e denuncie na delegacia.  

Se os comentários se dirigirem a alguém presente no local, intervenha, ajude a vítima a sair da situação, procure ajuda policial e a apoie para fazer uma denúncia. Se conseguir ajude-a a produzir provas com filmagens e gravações. Sob nenhuma hipótese omita-se. O problema é seu sim. É de todas, todes e todos nós. 

Caso contrário ignore as provocações. Normalmente as falas de ódio começam sem ataques diretos. Se ninguém revidar, adivinhando o que vem depois da conversinha infame, o discurso morre ali. O ódio não será destilado. O veneno vai corroer somente quem o consome.

Evite engajamento desnecessário

Dentro e fora da internet, cancele socialmente essas pessoas que disseminam ódio e preconceito, impedindo a fala. Cancele redes e meios de comunicação que ofereçam espaço para esses discursos. Quem promove essas práticas precisa saber que suas atitudes não serão toleradas.  

Fale com seus filhos

Converse com suas filhas, sues filhes e seus filhos sobre fascismo. Explique o perigo dessas ideias. Oriente-as/es/os a combater os discursos de ódio. E, principalmente, desenvolva a consciência de que a luta agora é pelo que nos resta de Humanidade. Estamos em tempos sombrios onde precisamos optar entre Humanidade e selvageria, não há mais espaço para omissão.  

O que é o facismo

O fascismo é um movimento político que se serve do populismo, do patriotismo e de um discurso de resgate da moral e bons costumes para justificar a quebra das instituições democráticas. Escolhe-se, assim, um comandante que tomará o poder e lutará contra os inimigos do país. Esse dito salvador da pátria conta com vigias dos bons costumes – os famosos “cidadãos de bem” – para oprimir e silenciar diariamente críticas ao governo estabelecido. Para saber mais sobre o fascismo veja o vídeo “A política do nós contra eles” de Jason Stanley, autor de um dos livros mais assertivos sobre o tema – Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles” (Porto Alegre: L&PM, 2018).

O atual presidente insiste em atacar as instituições, oferece indulto para criminoso, decreta sigilos centenários para se proteger de investigações contra a corrupção, defende a tortura, deixou centena de milhares de brasileiros morrerem por falta de vacina e medidas sanitárias eficientes. Por fim menospreza as populações marginalizadas. A semelhança com o fascismo não é mera coincidência. Estamos em um momento no qual precisamos decidir se vamos nos calar e deixar a democracia morrer em nosso país. A intimidação feita pela “cidadã de bem” durante minha aula remota ilustrou que possibilidades de realidades distópicas, similares à descrita no filme “Medida Provisória”, estão mais próximas do que imaginamos.

Abaixo, a advogada Aliete Rodrigues Marinho, mestre em direito pela Universidade de Lisboa, enumera leis de proteção à dignidade humana:

Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH)

Constituição Federal da República Federativa do Brasil 

Lei 7.716/1989 – Lei contra Preconceito Racial

Lei nº 12.965/2014 – Marco Civil da Internet

*O texto contou com a revisão técnica na área de Ciências da Computação de Ismael Silva, especialista em segurança digital

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.


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Doutora em Linguística Aplicada pela PUC-SP, trabalha com letramento em programação e Transletramento em TEIA (Tecnologia, Educação, Inovação e Afetividade). Investiga a Educação Tecnológica aplicada aos anos iniciais da Educação Básica. Fez doutorado sanduíche na Universidade de Pittsburgh (EUA). Idealizadora do Programa de Educação Tecnológica Clube01, colaboradora do IMATech e da ONG Assemble, na qual atuou como convidada expert.

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