[email protected] [email protected] de [email protected]: o projeto que ameaça direitos LGBT

"Como mãe, rejeito esse projeto. Como professora de tecnologia, e doutoranda na área, denuncio as redes sociais por mais esse flagelo da democracia brasileira", diz Luciana Correa

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Pel@s filh@s de tod@s: o projeto que ameaça a diversidade sexual; mãos diversas seguram corações coloridos, um dele tem as cores do arco-íris
Ao acessar conteúdos ofensivos ou provocativos, não clique nem o visualize, pois isso aumenta a sua audiência, orienta Luciana

Em nome da liberdade de expressão e, principalmente do lucro gerado, grandes corporações responsáveis pelo Youtube, Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn deixaram, e ainda deixam, o mal do fundamentalismo espalhar-se pelo Brasil. Esse mal chegou na presidência do nosso país, no congresso e nas assembleias legislativas dos principais Estados Brasileiros.

Em São Paulo já estamos vendo a escuridão do pensamento dar frutos: o projeto de Lei 504/2020 pretende proibir propagandas para crianças que aludam à diversidade sexual, por considerar o conteúdo danoso à infância. Danoso à infância é crescer em um ambiente onde a diferença de crianças, adolescentes e famílias LGBTs são invisibilizadas pelo manto grotesco da homogeneização religiosa fundamentalista que vem assolando nosso país.

Quero que meu filho cresça sabendo que existem várias formas de amar, ser amado e amar-se. Quero que ele cresça sabendo que os bens maiores da vida são a liberdade, o respeito, o amor e a busca consciente pela felicidade.

Quero que ele compreenda que felicidade, como explicou singelamente o filósofo grego Epicuro, vem da prudência/cuidado consigo mesmo, com os outros e com o planeta. Isso passa por acolher a diferença como uma grande amiga da Humanidade. Como mãe, rejeito esse projeto. Como professora de tecnologia, e doutoranda na área, denuncio as redes sociais por mais esse flagelo da democracia brasileira. 

É incrível como os últimos anos vêm sendo um conjunto de sobressaltos diários. Todos os dias acordo, vejo as redes sociais e encontro algum direito fundamental humano sendo ameaçado. No início, eram comentários de ódio, vídeos, influenciadores digitais de extrema direita e mêmes hediondos. Agora temos que lutar diariamente contra o negacionismo que mata milhares de brasileiros por dia, o machismo endossado por falar presidenciais e projetos de lei assustadores como o da senhora deputada Marta Costa (PSD) que pretende ameaçar ainda mais os direitos LGBTs. Os algoritmos de monetização, busca e filtros dessas redes matam os sonhos de nossos filhos de crescerem uma sociedade plural e justa. Fazem isso “sem intenção”, pois somente visam o lucro. O que são as vidas das famílias LGBTs frente a trilhões de dólares gerados pelo engajamento em sites extremistas? Mas como cobrar das empresas por responsabilidade se grande parte da população considera os outputs das telas um mero acaso de cliques?


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Nem a parcela esclarecida e intelectual das redes brasileiras sabe comportar-se de maneira eficaz para combater essas aberrações fundamentalistas. A maioria, por exemplo, replica, responde, e, inconscientemente, alimenta o monstro. Dica do dia: esses algoritmos são alimentados por likes, dislikes e, principalmente, views.

Quanto mais você interagir com um discurso de ódio, mais o discurso crescerá em views. O certo é bloquear, denunciar e cobrar que a rede derrube a conta do criminoso. 

Se preciso for, faça um “print” da tela, guarde a prova e registre um boletim de ocorrência (pois homofobia, machismo e incitação a crimes como a tortura são previstos pelo código penal). Denuncie sistematicamente, mas não interaja. Em hipótese nenhuma distribua o link das páginas dessas pessoas, até porque a maioria são bots (robôs que simulam ações humanas repetidas vezes de maneira padrão) ou são “profissionais” pagos para responder absurdos. Poucos dos que viralizam são pessoas reais que escreveram/postaram pontualmente um conteúdo extremista. 

Em contrapartida apoie iniciativas de valorização das diversidades, influenciadores digitais que defendam a democracia e denunciem os abusos cometidos contra minorias.

Ajude a treinar os algoritmos a valorizarem o cultivo da paz e a refutar os discursos de ódio. Para isso, controle suas emoções e não saia clicando ferozmente quando receber alguma chamada ofensiva ou post provocativo (eles são pensados para atrair tanto apoiadores quanto opositores, por isso são campeões de visualizações).

Educar crianças, adultos e idosos para compreenderem o funcionamento desses algoritmos, ajudando a evitar a disseminação de fake news, discursos de ódio e distorções grotescas da realidade tornou-se tão importante hoje quanto era aprender a ler e escrever em 1964, nos primórdios no pensamento Paulo Freiriano. Alfaletrar (ou alfabetizar letrando) em programação é preciso. Eduquem-se, eduquem seus filhos, filhas e [email protected] Somos as mãos das mães e pais que balançam os berços brasileiros. [email protected] precisamos lutar por [email protected] as famílias brasileiras para que o sonho da democracia sobreviva a esses tempos sombrios.   


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Doutora em Linguística Aplicada pela PUC-SP, trabalha com letramento em programação e Transletramento em TEIA (Tecnologia, Educação, Inovação e Afetividade). Investiga a Educação Tecnológica aplicada aos anos iniciais da Educação Básica. Fez doutorado sanduíche na Universidade de Pittsburgh (EUA). Idealizadora do Programa de Educação Tecnológica Clube01, colaboradora do IMATech e da ONG Assemble, na qual atuou como convidada expert.

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