‘Parceria com escola requer ajustes na rotina em família’

Em guia recém-lançado, as educadoras Roberta e Taís Bento sugerem ações e estratégias que favorecem a saúde emocional das crianças, tornam mais leve a lição de casa e incentivam o aprendizado

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Educadoras Roberta e Taís Bento lançam guia sobre parceria escola e família
Guia sobre parceria escola família, das educadoras Roberta (esq) e Taís Bento, teve apoio do Instituto Ayrton Senna | Foto: Germano Lüders
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Aulas remotas, falta de contato com a escola e com os amigos, dificuldade em aprender a distância e desequilíbrio no tempo de telas. Diante de tantos impactos negativos da pandemia, muitos pais se perguntam até quando eles se estenderão: será que crianças e adolescentes levarão esses desafios para o resto da vida?

Para as educadoras e especialistas em neurociência cognitiva, Roberta e Taís Bento, mãe e filha, respectivamente, a única certeza que podemos ter é que a resposta está em nossas mãos. “Uma mão representa a Escola; e a outra, a Família”, afirmam elas no “Guia Para Família Parceira da Escola no Pós-Pandemia”, lançado na quarta-feira (30).

Na abertura da obra, as autoras do perfil @soseducacao citam uma parábola sobre um jovem que, desconfiado do conhecimento de um sábio, levou uma borboleta entre as mãos fechadas para ver se o homem saberia dizer se ela estaria viva ou morta. Caso o sábio respondesse que ela estava morta, o jovem abriria as mãos e deixaria a borboleta voar. E se dissesse que ela estava viva, o rapaz faria uma leve pressão para esmagar a borboleta e mostrar que o sábio teria errado sua resposta. Mas para surpresa do jovem, o sábio disse: “Meu filho, a resposta está em suas mãos!”.

A borboleta simboliza a beleza e fragilidade das crianças, que exige o apoio equilibrado das duas mãos, escola e família juntas, formando uma parceria de vida para que a criança saiba o quanto é encantadora e descubra seu potencial para alçar os voos que sonhar, explicam no livro as autoras.

Roberta e Taís afirmam que a escola precisa ajudar os pais a entender o impacto enorme que a rotina em família exerce no processo de aprendizagem. “O dia a dia dentro de casa afeta diretamente a trajetória do aluno”, destacam as educadoras em seu segundo livro ‒ o primeiro, “Socorro, meu filho não estuda!”, foi lançado em 2015.

O “Guia” traz uma série de dicas e estratégias que ajudam os pais a fazer funcionar essa parceria entre escola e família. São no total 11 capítulos que falam de temas como saúde emocional, desenvolvimento de habilidades, lição de casa, uso de telas e rotina de estudos. Vários deles foram abordados na entrevista por e-mail que as educadoras deram à Canguru News, cujos principais trechos podem ser lidos abaixo.

1. É comum a família jogar a responsabilidade da educação dos filhos para a escola e vice-versa. Como fazer para que atuem em parceria?

Primeiro, lembrando a ambas, família e escola, que hoje realmente é maior o desafio de educar crianças e adolescentes. E que a culpa não é da escola e nem da família. O contexto em que as crianças nascem e crescem traz uma série de obstáculos para que essa criança desenvolva habilidades como foco, concentração, paciência, empatia e capacidade para lidar com frustrações. Antigamente, desenvolvíamos essas habilidades no dia a dia, quando, por exemplo, tínhamos de esperar uma semana para ver o nosso programa de TV favorito ou quando queríamos tirar fotos, o que implicava em comprar um filme de 36 poses, fotografar e depois esperar a revelação para talvez descobrir que as fotos queimaram ou deram certo ‒ e isso exigia lidar com a nossa própria imagem do jeito que éramos, sem filtros nem truque nenhum. Esses são apenas alguns exemplos de situações em que desenvolvíamos habilidades sem que os pais tivessem que parar para nos ensinar sobre isso. Assim, quando íamos para a escola, já tínhamos o cérebro com uma boa base de habilidades necessárias para um bom relacionamento com o aprendizado, os estudos e os colegas. Hoje, tem até pesquisa que mostra que está mais desafiador educar os filhos, conseguir equilibrar uso de telas com o convívio na vida real, e a consequência é que as crianças estão crescendo com um cérebro que não é favorável a um bom relacionamento com o aprendizado. A lacuna no desenvolvimento dessas habilidades se reflete diretamente nas relações sociais e no envolvimento com o processo formal de aprendizagem. E a única maneira para vencer esse desafio, de educar crianças para o futuro que sonharem construir, é a parceria entre família e escola.

2. No livro vocês afirmam que as crianças têm vivido uma infância muito solitária, devido a aspectos como insegurança nas cidades, falta de irmãos e pandemia. Qual a importância de a criança se relacionar com outras crianças?

No relacionamento com outras crianças de idade próxima, nossos filhos desenvolvem as habilidades de convívio social que serão fundamentais para um bom desempenho na aprendizagem formal. Além disso, o autoconhecimento, as descobertas sobre nossos limites e sobre respeito a opiniões, culturas e diferentes costumes, tudo isso depende das oportunidades de convivência social que uma criança tem desde muito pequena.

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3. Vocês falam sobre o desafio de ajudar os filhos a construir uma imagem positiva de si mesmos. Como fazer isso?

Uma das formas mais eficazes para ajudar nossos filhos a construir uma autoimagem positiva e conseguirem equilibrar o nível de autoestima, que é impactado de forma negativa pela exposição às telas, é o elogio autêntico. Elogio autêntico é aquele que vem a partir de algo que a criança sabe que ela mesma fez. Pedir ajuda no dia a dia em casa, estimular autonomia na hora de se vestir e ensinar que guardar os brinquedos e cuidar dos próprios pertences é responsabilidade da criança são formas de colocar na prática oportunidades para o elogio autêntico. Sempre que a criança for elogiada pelo esforço que fez em cumprir esses combinados, estaremos ajudando para que ela tenha o sentimento de competência atendido. E sua autoimagem será diretamente proporcional ao quanto ela se vê capaz de resolver pequenas questões do dia a dia.

4. Contudo, muitas crianças demonstram ter uma boa autoestima, sendo comum que descrevam seus feitos aos amigos, dizendo frases como “eu jogo muito bem” ou “eu sou muito boa em…”. Será que com o tempo essa habilidade vai sendo minada?

Certamente, essas crianças que têm de fato um bom nível de autoestima e sentem segurança na convivência social, com resiliência para enfrentar situações de frustração e seguir adiante, tiveram um ambiente que favoreceu essa autorregulação. Na convivência familiar tiveram incentivo à autonomia e reconhecimento dos seus sentimentos de tristeza, medo ou mesmo estímulo para que pudessem aprender a perder em um jogo e não se acharem menos capazes por isso. Dá trabalho e requer um equilíbrio emocional dos próprios adultos responsáveis. E essas crianças que apresentam desde pequenas essa capacidade para lidar com desafios do mundo real, que fazem parte do dia a dia, são a prova de que é possível.

5. O que vocês querem dizer ao afirmar que “a chave para a criança se interessar pelos estudos está fora dos momentos da lição de casa ou da correria na véspera de provas”?

Paciência, foco, concentração, persistência e resiliência são habilidades que fazem toda a diferença na relação com a escola, no desempenho e na capacidade de enxergar o processo de aprendizagem como uma deliciosa aventura. Porém, no piloto automático, cobramos que essas habilidades sejam aplicadas na relação com os estudos ou a lição de casa sem que tenhamos oferecido oportunidades para que sejam desenvolvidas no dia a dia em família, tornando a escola uma vilã na vida de nossos filhos. Eis o porquê a parceria com a escola envolve mais do que a presença nos eventos: requer também ajustes na rotina em família para que o dia a dia de todos, em casa e na escola, sejam mais leves!

6. Vocês sugerem que as lições de casa sejam feitas sempre no mesmo horário e que seja usado um cronômetro para marcar o tempo de estudo e de descanso. Isso favorece o desempenho?

Sim. Pesquisas da neurociência cognitiva mostram que depois de em torno de 25 minutos focado, o cérebro perde a capacidade plena de concentração. Movimento é uma das formas para levar oxigênio ao cérebro e recuperar a capacidade plena para focar nos próximos 25 minutos. Por isso a estratégia que foi batizada de Pomodoro funciona: colocar 25 minutos no cronômetro, fazer a lição ou estudar. Quando soar, fazer um intervalo de 5 minutos com movimento e então voltar com foco total para terminar o que ainda restar para ser feito. Isso torna mais leve o momento dos estudos e traz ótimos resultados em termos de assimilação e compreensão daquilo que o aluno está estudando. Para crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental, o tempo pode ser um pouco menor do que os 25 minutos antes de cada intervalo. Além disso, manter o mesmo horário para estudar durante os dias de semana ajuda na formação do hábito e para ter o estudo como parte da prática diária, tão importante quanto escovar os dentes ou fazer as refeições, por exemplo.

7. O uso equilibrado das telas é desafiador, inclusive para os pais. Dá pra encontrar um equilíbrio entre o mundo virtual e o mundo real?

Encontrar esse equilíbrio é fundamental. E é também um dos maiores desafios que os responsáveis por filhos em idade escolar têm nos dias atuais. Precisamos lembrar que cabe a nós, os pais, ajudar nossos filhos no desenvolvimento de uma relação saudável no uso da tecnologia. E isso começa com nosso exemplo. Falar com os filhos sempre olhando nos olhos, sem uma tela entre nós é essencial. Garantir que eles tenham tempo para brincar ao ar livre, conversas em família, hora de ir para a cama e possam acessar conteúdos adequados à faixa etária, sempre com acompanhamento dos pais é o caminho que precisamos seguir. E voltamos novamente ao ponto que precisamos lembrar: precisamos cuidar da nossa saúde mental para estarmos equilibrados o suficiente, na medida que esse desafio demanda. Mesmo que o filho fique triste. Mesmo que diga estar entediado, precisamos manter o tempo de tela menor do que o tempo que nossos filhos passam convivendo com os desafios do mundo real.

8. Mães e pais exaustos nem sempre conseguem pôr em prática com os filhos tudo o que gostariam, ainda que saibam como fazer. O que dizer a esses pais?

Primeiro que a perfeição não existe. E nunca deve ser a meta, pois nossos filhos precisam de pai e mãe do mundo real, com seus medos, angústias e desafios. E depois, lembrar que fotos e vídeos de rede social não refletem a realidade das famílias, mas sim um momento que, muitas vezes, foi preparado para o clique. Não devemos nos comparar jamais. E mais dois pontos importantíssimos: 1) Não é possível dar conta de educar um filho sem uma rede de apoio. A escola, amigos, familiares são fundamentais. E 2) Tirar tempo para cuidar da própria saúde mental e emocional é primordial. Hoje, agora, já. Porque não vai sobrar tempo. Precisamos ser o exemplo do autocuidado que desejamos ensinar a nossos filhos.

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