O pesadelo de ver que seu filho não consegue aprender e detesta estudar

Roberta Bento e Taís Bento usam a neurociência como aliada na educação e ajudam pais e educadores a compreenderem as 5 razões pelas quais crianças e adolescentes têm hoje tantas dificuldades de aprendizagem; elas deram palestra no 2º Congresso Internacional de Educação Parental

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A neurociência como aliada da educação: Roberta e Taís Bento ensinam a driblar as dificuldades no processo de aprendizagem
A neurociência como aliada da educação: Roberta e Taís Bento ensinam a driblar as dificuldades no processo de aprendizagem /Foto: Dani Ortiz

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O desgaste emocional é imenso: a criança não consegue aprender, se concentrar e desenvolve uma relação de horror pelos estudos. Mas por que será que as dificuldades de aprendizagem se tornaram um desafio tão gigantesco para pais, professores, educadores e gestores escolares? Roberta Bento e Taís Bento, mãe e filha, respectivamente, dedicaram-se a aplicar a neurociência na educação e compreender profundamente esse processo, oferecendo às famílias e aos educadores respostas claras e objetivas. Elas apresentaram, durante palestra no 2º Congresso Internacional de Educação Parental, organizado pela Canguru News, quais são os 5 aspectos que dificultam o processo de aprendizagem:

  • Falta de habilidades básicas (paciência, persistência, capacidade de lidar com frustrações, por exemplo)
  • Cérebro sob estresse constante
  • Síndrome do desgaste por empatia (o cuidador não consegue auxiliar a criança e se desespera)
  • Geração Dopamina (o imediatismo do prazer e do lazer, sem esforço)
  • Pais multitarefas

Antes mesmo da pandemia, as dificuldades de aprendizagem já eram evidentes, pontuaram as especialistas, fundadores do site SOS Educação e autores do livro “Socorro, meu filho não estuda!”. No entanto, obviamente os dois últimos anos escancararam o problema, sobretudo porque o estresse contínuo ao qual adultos e crianças estão submetidos no mundo contemporâneo se tornou ainda mais intenso.

“O processo de aprendizagem envolve 98% de hormônios e só 2% de neurônios. O estado emocional da criança, na hora em que vai para a escola, tem um impacto gigantesco no processo de aprendizagem”, explicou Taís Bento.

Roberta Bento explicou que a “síndrome do desgaste por empatia” já era um termo muito conhecido, entre cuidadores na área da saúde, por exemplo, mas ganhou novos contornos com a pandemia, na área da educação. “Quando existe um desequilíbrio por uma situação emocional que vivemos e não temos consciência, fica muito difícil ajudar a pessoa. O pesadelo de ver o filho não conseguir se concentrar na aula remota, não conseguir dar conta do acúmulo de atividades online, não ligar a câmera, isso tudo se tornou ainda mais grave e impactou os alunos, porque os adultos responsáveis por eles estavam também desequilibrados na tentativa de ajudá-los”, afirmou a educadora Roberta Bento.

Para agravar o quadro, as crianças e adolescentes hoje são o que as especialistas chamam de “geração dopamina”. Os vídeos, os jogos, as curtidas, as postagens, a busca de lazer e diversão é imediata. “E exige pouquíssimo esforço”, complementou Taís. Com essa sensação de prazer ocorrendo sempre de forma célere, o corpo perde a noção de senso de equilíbrio entre prazer e dor. O prazer vence sempre, com uma liberação exagerada de dopamina. E claro, neste contexto, estudar está muito mais associado à dor do que ao prazer, porque exige esforço. “Estudar vira um peso”, acrescenta Taís.

O cérebro dos pais, para completar, também está num estágio bastante vulnerável, explicou Roberta Bento, pois o ciclo maluco de trabalho, tentando conciliar a vida profissional com a vida doméstica, gera curto-circuitos. “A convivência e o relacionamento [com os filhos] fica muito mais difícil.”

“Educar os filhos para gostarem de estudar e se darem bem nos estudos é um dos desafios em que precisamos focar agora, para que nossos filhos consigam seguir a vida deles de estudantes e desenvolvam um potencial pleno, apesar de tudo o que vivemos. Só que é mais fácil para as crianças do que para os adultos, mas eles dependem de nós para retomar o ritmo de aprendizagem”, disse Roberta Bento.

Não se trata de banir a tecnologia

Roberta Bento enfatizou que, como educadora, é totalmente favorável ao uso da tecnologia na educação. “O que gera uma relação tão pesada que nossos filhos têm com os estudos é tudo o que eles deixam de fazer quando viver nas telas passa a ser o padrão dentro de casa, quando não há equilíbrio entre tempo de tela e tempo de convivência em família”, justifica.

“Quando eles estão conectados em telas, diminui a qualidade e quantidade de interações entre os membros da família, o que é essencial para a linguagem e o desenvolvimento emocional.”

Se a criança e o adolescente são absorvidos pelo mundo das telas, não sobre tempo para a interação familiar, o que é essencial para o desenvolvimento cognitivo, explicaram.

Transtornos do sono e sedentarismo

“Eu posso deixar o meu filho ter o tempo de tela dele. Mas preciso trazer de volta aquele momento em que escutamos uma música juntos, em que sentamos para desenhar”, exemplifica Roberta.

Dormir também é fundamental para aprender. Criança que não faz da forma correta a higiene do sono, com uma noite mal dormida, terá um cérebro cansado “e cheio de toxinas que atrapalham a conexão dos neurônios, que transformam o desafio de aprendizagem quase impossível de ser vencido”, afirmou.

O sedentarismo excessivo é outro fator que aumenta as dificuldades de aprendizagem. “Praticar atividade física é uma forma do nosso cérebro produzir novos neurônios. Isso impacta muito no aprendizado e no desenvolvimento da criança e do adolescente”, disse Taís Bento.

Segundo Roberta Bento, obviamente todo adulto é responsável por auxiliar a criança e o adolescente a superarem os desafios da aprendizagem, utilizando os estímulos corretos. Porém, não se tem “todas as respostas sobre como nossas crianças vão superar todas as lacunas de defasagem de aprendizagem”, enfatizou Roberta.

E é neste contexto, ela concluiu, que a educação parental adquire uma importância ainda maior na atual conjuntura. “Precisamos de pessoas de áreas de conhecimento diferentes que possam ajudar as famílias a definir os próximos passos. O educador parental é figura fundamental para que a gente consiga resgatar o processo da aprendizagem por nossas crianças e adolescentes.”

Malu Delgado é mãe da Nina, 8 anos. Jornalista, tem mais de 20 anos de experiência em coberturas políticas para veículos como “Valor Econômico”, “O Estado de S. Paulo”, “Folha de S. Paulo”, revista “piauí”, “Jornal do Brasil”, “iG” e “Globonews.com”. Pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas, atua no momento como colaboradora da Deutsche Welle Brasil, freelancer e consultora de comunicação da Canguru News.

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