Soft skills: por que os adolescentes precisam desenvolver essas habilidades

Recém-lançado, o livro "Soft Skills Teens" ajuda a entender os jovens e serve como um guia para orientá-los no desenvolvimento de competências socioemocionais importantes para o futuro

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Ilustração mostra mãos contornando várias engrenagens circulares
As soft skills favorecem o sucesso dos jovens na vida adulta
Buscador de educadores parentais
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Se as tecnologias e a inteligência artificial ganham cada vez mais espaço no nosso dia a dia, também tem crescido a importância das habilidades humanas e comportamentais, que não entram na automação de processos e dificilmente serão copiadas por robôs. 

Conhecidas como soft skills, essas competências são cruciais nas relações interpessoais e desenvolvê-las tem um impacto significativo em diferentes áreas da vida, da comunicação eficaz à capacidade de resolver problemas e desenvolver o pensamento crítico. Não à toa, essas competências têm sido muito demandadas no ambiente corporativo.

Segundo estudo da consultoria de recursos humanos Michael Page, 91% dos profissionais são contratados pelo currículo e por suas experiências, mas demitidos por problemas comportamentais. Já uma pesquisa da IBM (Institute for Business Value) apontou que 120 milhões de trabalhadores, nas dez maiores economias mundiais, precisarão de recapacitação profissional nos próximos anos. Lhes faltam habilidades como tomada de decisão, presença, autoestima, escuta e autorresponsabilidade, entre muitas outras que vão além da competência técnica. 

Para os jovens que em breve farão parte do mercado de trabalho, as soft skills desempenham uma função primordial ao promover o desenvolvimento integral e ampliar as possibilidades de que tenham uma vida bem-sucedida e equilibrada no futuro. 

“As habilidades humanas, também conhecidas como habilidades sociais, são um tesouro valioso. Seu cultivo traz consigo uma infinidade de vantagens tanto na fase adulta quanto na adolescência, pois essas competências em constante evolução exercem um impacto profundo em diversos âmbitos da vida”, afirma a coach e mentora organizacional Lucedile Antunes.

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Ela conta que ao observar essa lacuna no universo das empresas e a falta de livros sobre o tema resolveu idealizar uma série para falar das soft skills a diferentes públicos, dos profissionais atuais às crianças. O quarto volume da sequência, “Soft Skills Teens” é voltado a educadores, pais e adolescentes, e reúne mais de 30 especialistas, em 13 capítulos, que revelam habilidades socioemocionais importantes para que os jovens se desenvolvam e estejam preparados para seguir uma carreira. Lançado no fim de setembro, o livro já entrou na lista dos mais vendidos da revista Veja e da PublishNews, e além de uma carta aos adolescentes traz também cartas aos pais, escritas por quatro jovens que toparam colaborar com a publicação.

“O livro tem como objetivo fornecer conhecimentos, estratégias e conselhos práticos essenciais para cultivar e desenvolver essas habilidades fundamentais”, declara a neuropsicopedagoga e educadora parental Beatriz Montenegro, que assina a coordenação editorial do livro com Lucedile. Abaixo, confira a entrevista com as especialistas.

1. O que são as soft skills e como elas podem ajudar os adolescentes?

Lucedile Antunes: As soft skills são as habilidades humanas e comportamentais. Segundo pesquisa mundial da Michael Page, 91% das pessoas são contratadas pelo currículo, porém são demitidas por questões comportamentais, ou seja, ausência de soft skills. Essas habilidades não são ensinadas na faculdade, mas são exigidas no mundo corporativo. Independentemente da formação, os jovens vão precisar desenvolver soft skills como a capacidade de se comunicar bem, de liderar, ter empatia, ser resiliente, adaptável, se reinventar e por aí vai. É um tema bem atual. Os pais de hoje não tiveram a oportunidade de desenvolver essas habilidades na infância. Então, no livro, explicamos o que são as soft skills e damos dicas práticas de como eles podem ajudar os filhos a desenvolvê-las. A série soft skills tem cinco volumes: “Soft Skills: competências essenciais para os novos tempos”; “Soft Skills: habilidades do futuro para o profissional do agora”; “Soft Skills Kids: como desenvolver habilidades humanas nas crianças para se tornarem adultos bem-sucedidos”, “Soft Skills Teens: como compreender essa nova geração e desenvolver as habilidades necessárias para o futuro”; e em breve vamos lançar o “Balance Skills: competências essenciais para buscar o equilíbrio integral alinhado”.

2. Dentre todas as soft skills, podemos destacar algumas como mais importantes para os adolescentes?

Lucedile Antunes: Há três habilidades que são muito importantes para os adolescentes. A primeira delas é a escuta, a capacidade de escutar o outro, sejam os pais, os amigos ou os professores. Eu sinto que o adolescente tende a ter uma visão fechada sobre sua forma de pensar, e a escuta deles, às vezes, é muito limitada. Eles não ampliam essa escuta. A segunda habilidade que acho muito importante os adolescentes desenvolverem é a presença, que com esse mundo tecnológico e acelerado, eu sinto que eles não estão 100% presentes naquele ambiente. Eles estão ali, mas estão ausentes. E a terceira soft skill mais necessária aos adolescentes é a empatia. Eles têm de aprender a não ter esse pensamento julgador, nem o hábito de julgar o amigo, mas sim, tentar entender a dor que ele sente e por que agiu daquela forma. O mesmo vale para o professor ou os pais, ao praticar a empatia e se colocar no lugar do outro, o adolescente poderá compreender o que leva as pessoas a se portarem de determinada forma. Eu sinto que essas habilidades fazem muita falta.

3. Como respeitar o espaço e a autonomia dos adolescentes e, ao mesmo tempo, dar limites e orientá-los de acordo com os valores da família?

Beatriz Montenegro: A autonomia, a autenticidade dos nossos filhos, não fere a questão do limite, e nem o limite pode invadir essas áreas. Quando a gente pensa em limite, a gente pensa em proteção física e emocional do adolescente. Não é sobre colocar esse limite, é sobre como eu trago esse contorno para o adolescente, respeitando sua autonomia. Desenvolver essa habilidade, respeitar, dar espaço para a fala, dar uma escuta ativa para o adolescente não fere os seus limites, na verdade, faz com que essa relação seja tão harmônica a ponto de que você consiga trazer para o seu adolescente, a partir dos valores da família, quais são os limites importantes, sempre pensando nisso, que limite está relacionado à proteção.

4. Qual a diferença entre participação e controle dos pais, tema de um dos capítulos do livro?

Beatriz Montenegro: Quando nós somos pais participativos, somos pais que entendem o momento de estar junto do filho adolescente, como o momento de observar e até, às vezes, de se retirar e permitir que esse filho brilhe ou que esse filho caminhe, vá viver as suas experiências. O pai controlador tem medo, inclusive, do que ele ofereceu para esse filho. O medo do que ele vai encontrar, porque muitas vezes não construiu essa relação e tem receio do que esperar do adolescente. O controle vem desse lugar, de uma busca desses pais por segurança e proteção. Só que quando a gente exerce o papel de pais controladores a gente deixa de enxergar nossos filhos, deixa de participar e de entender quem eles são, e para de confiar. Eu sempre lembro que confiar é fiar com alguém. A gente precisa fiar com os nossos filhos, construir isso com eles. Os pais controladores acabam ficando no medo, que nem sempre é real, às vezes, faz parte de uma ilusão ou da história desse pai, às vezes, até de uma fantasia que esse pai tem e ele deixa de enxergar o seu filho. Ele acredita que está fazendo um bem para o filho, mas ele não está nem vendo aquele adolescente nas suas reais necessidades sociais. O pai participativo consegue enxergar a integridade desse adolescente.

5. Muito se fala da importância de escutar os filhos. Como pôr isso em prática com os adolescentes? E o que fazer se o que eles trazem é muito diferente do que os pais esperam deles?

Beatriz Montenegro: Essa pergunta é bárbara, porque a gente fala do que os pais esperam dos filhos, como a gente espera coisas das outras pessoas, e sempre que a gente espera algo de alguém, a gente normalmente está na nossa expectativa, não está na relação com a outra pessoa. Se eu conheço a outra pessoa, sei que ela tem limites, vontades, coisas que gosta e que não gosta, e sei um pouco mais do que esperar. Se eu fico na minha expectativa, eu crio um adolescente idealizado e dessa idealização eu vou tentar criar uma relação, e aí realmente não conecta, não vem a relação. Então, quando a gente fala de escuta, é escutar sem querer dar respostas. A gente não precisa dar resposta na hora. A gente não precisa saber que resposta dar. A gente pode ouvir. A gente pode dizer “olha, eu vou pensar sobre”, “eu vou ver isso depois”, “agora não sei o que falar”, “nossa, eu não concordo, mas vou pensar”. Esse é um assunto que realmente traz muitas discussões em lares com adolescentes. Porque os adolescentes estão numa fase de experimentação. Experimentam a vida, experimentam posições políticas, experimentam tomar partido de uma coisa ou de outra. E, às vezes, os pais acreditam que isso vai ser para o resto da vida. E travam grandes batalhas com esses adolescentes sem entender o que está por trás de algo que o filho defende, que ideia é essa ou por que será que ele se conectou a esse valor. Mas o pai pode tentar trazer para o filho qual é o seu valor. Esse é um processo realmente de construção.

6. A obra também fala sobre conexão, apego seguro e atitude de crescimento. Qual a relação entre esses termos?

Beatriz Montenegro: Essas três palavras se conectam na nossa relação com o adolescente. A relação de apego seguro é uma relação onde esse adolescente sabe que pode confiar em mim, que tem previsibilidade dessa relação, se sente protegido ‒ não tanto na proteção física, porque ele já não é tão pequeno, mas na proteção emocional ‒, sente que esse adulto não vai tirar sarro, não vai fazer chacota. É uma relação em que o adulto acolhe, tem escuta e é próximo do filho, em uma proximidade que não invade, que não impõe ser “do meu jeito”, mas tem uma proximidade emocional, mostra que “estou aqui com você”, “entendo a sua dor, eu também vivi isso”, “sei o que é sofrer por amor”, sofrer por uma prova, por não poder ir a algum lugar desejado ou ainda por não ter uma condição financeira para fazer tal coisa. São vários exemplos que envolvem a atmosfera da adolescência. Se os pais constroem com o adolescente essa relação de apego seguro, essa relação tem conexão. E aí esse adolescente se sente totalmente encorajado para ter atitudes de crescimento, para crescer, para trazer sua autenticidade, para colocar a sua missão no mundo, para trazer o seu melhor para esse mundo. Então eles vão se conectando e vão se completando.

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Verônica Fraidenraich
Editora da Canguru News, cobre educação há mais de dez anos e tem interesse especial pelas áreas de educação infantil e desenvolvimento na primeira infância. É mãe do Martim, 9 anos, sua paixão e fonte diária de inspiração e aprendizados.

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