O “palavrão” escapou e meu filho escutou: e agora?

Especialistas explicam como as crianças reagem aos palavrões e trazem dicas para os adultos

Pais podem falar palavrão?; homem gritando e apontando para frente
Freepik/Reprodução

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Seja vendo um noticiário, conversando no telefone ou assistindo uma partida de futebol, às vezes não tem como evitar: os pais deixam escapar um ou outro palavrão. As crianças acabam ouvindo e, mesmo que não compreendam o significado, podem reproduzir as expressões. Por isso, é melhor que os pais conversem sobre esse assunto. “Nós vivemos num mundo em que, no geral, falamos palavrão. Não adianta ignorar e dizer que não existe, sendo que as crianças escutam diariamente”, aponta Matheus Ienaga, psicólogo escolar. Mas afinal, tem problema os pais falarem palavrão na frente dos filhos pequenos? 

Segundo o especialista, os filhos se espelham nos pais e, por esse motivo, é preciso compreender que todas as suas ações podem influenciar o comportamento das crianças. Para Renata Borja, psicóloga especializada em terapia cognitivo comportamental, os pequenos constroem seus aprendizados a partir do que observam ao seu redor. “A criança pode reproduzir o que as pessoas estão dizendo. Ela faz isso como uma forma de aprender a lidar com o mundo. Isso vai acontecer também com o palavrão, mesmo que ela não saiba o significado”, explica.

De acordo com a psicóloga, os pequenos não têm a capacidade de entender as interpretações abstratas. Como os palavrões são formas figurativas de expressão, a criança não vai entender o que significam exatamente. No entanto, para Adriana Gardel, pedagoga e psicopedagoga, os filhos podem interpretar o modo como os adultos falam o palavrão: “Eles não sabem o significado, mas entendem que é uma palavra que os adultos falam com uma outra entonação, que algumas vezes é  engraçado e outras expressa algo ruim”.

Matheus Ienaga completa que os alunos do primeiro ano da escola em que trabalha, que têm por volta de 6 anos, já são capazes de identificar quais palavras são consideradas “palavrões”. 


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O que fazer se a criança também começar a falar palavrão?

Por imitação, identificação, curiosidade, pela vontade de falar como os adultos ou para chamar atenção, as crianças podem adicionar os palavrões ao seu vocabulário. “Os pais têm que corrigir e mostrar que isso não é legal, que as crianças não devem falar. É preciso ensinar elas a lidarem com as emoções de forma mais assertiva”, aponta Renata Borja. Caso as crianças sintam raiva, ansiedade ou medo, os pais precisam oferecer outras estratégias para resolver o problema. “As emoções são importantes, mas elas podem utilizar comportamentos melhores para expressá-las e ter as suas necessidades satisfeitas”, explica.

A psicóloga também destaca que se os pais decidirem proibir que o filho fale palavrão, eles precisam ser um bom exemplo. “Se os adultos continuarem falando e a criança não puder, ela vai se sentir injustiçada, porque estão cobrando dela algo que eles mesmos fazem”, afirma. É importante que os pais se segurem para não falar palavrão na frente das crianças, assim, elas também aprendem a controlar seus comportamentos. “Nós temos uma ideia de que os nossos comportamentos diante às nossas emoções são automatizados. Mas não são, a gente vai construindo a forma como lidamos com os sentimentos”, completa.

Adriana Gardel ressalta que os pais não devem castigar e brigar com os filhos quando eles falarem um palavrão. A melhor forma de resolver é estabelecer uma boa comunicação. “Se a criança for pequena, pode explicar que às vezes algumas pessoas usam uma forma de falar que não pode ser usada em qualquer lugar, porque essas palavras podem deixar o outro triste, envergonhado, com raiva e que nem todas as pessoas se sentem confortáveis ao ouvi-las”, relata. Com crianças maiores e pré-adolescentes, a pedagoga apontou que é interessante combinar as situações em que os palavrões são aceitáveis: “No jogo de futebol, por exemplo, vale palavrão, mas quando estiver bravo com alguém, é possível usar outros termos para demonstrar o que está sentindo”.


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Dicas para os pais melhorarem a comunicação

Mesmo sem a intenção de ofender, os pais podem ter o hábito de falar palavrão. Para ajudá-los a não usar essas expressões na frente dos filhos, os especialistas têm algumas recomendações para ter uma comunicação mais assertiva com os pequenos. Confira:

  1. Perceber em que situações falam palavrão: Segundo Renata Borja, os pais devem entender quando costumam falar palavrões constantemente. “É preciso se perguntar se são situações que geram raiva ou surpresa, por exemplo, e o que provoca essas emoções. Se os pais aprenderem a identificar isso, eles vão conseguir antecipar o palavrão e assumir um comportamento mais adequado. Assim, a criança também vai aprender a fazer isso”, afirma a psicóloga. 
  2. Reconhecer o erro: Para que os filhos entendam que os palavrões não devem ser repetidos, os pais não devem ter medo de aceitar que erraram e conversar com as crianças. “Para alguns adultos o palavrão já faz parte do vocabulário e eles nem se dão conta do que estão falando, onde e com quem. É importante explicar que nem sempre os pais usam as melhores palavras”, diz Adriana Gardel.
  3. Pedir desculpas: Especialmente caso os pais falem um palavrão em alguma discussão ou dirigindo-se às crianças, é preciso que eles se acalmem e peçam perdão pelo comportamento. “Os pais podem pedir desculpas para a pessoa que ele ofendeu na frente da criança. Dessa forma, ela aprende que essa ação implica na necessidade de se reparar”, aponta Renata Borja.
  4. Substituir os palavrões por outras expressões: Matheus Ienaga sugere que os adultos procurem usar palavras que expressam seus sentimentos, como “que raiva” ou “que feliz”, assim conseguem fugir do palavrão. “Os pais podem trazer algum outro termo no lugar do palavrão, como uma fruta ou um bicho. É um mecanismo bacana que pode fazer com que a família entre num jogo lúdico de brincadeiras”, indica o psicólogo. Adriana Gardel também concorda que esta abordagem pode surtir bons resultados, os pais conseguem criar uma linguagem própria com os filhos e estreitar ainda mais a conexão. 

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