Conta corrente em banco para a criança movimentar. Isso faz sentido?

Mais rapidez para a abertura de contas e marketing voltado a crianças atraem – mas é recomendado que os pequenos tenham contas em bancos?

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Duas mãos seguram um cifrão amarelo em ilustração à matéria sobre crianças com conta em banco.
"Se você der uma conta para uma criança que nunca teve contato com o dinheiro, ela não vai entender o que é", afirma o consultor Carlos Eduardo Freitas Costa

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Os bancos digitais vêm ganhando espaço no mercado brasileiro e recentemente passaram a focar também em crianças e adolescentes, lançando contas para menores de 18 anos. Este ano, aulas de educação financeira se tornaram obrigatórias para os ensinos infantil, fundamental e médio, o que favorece a procura por esse serviço.

Além da facilidade da abertura das contas digitais, que pode ser realizada pelo celular, contas como a nextjoy, do Next, o banco digital do Bradesco, fizeram uma parceria com a Disney para atrair as crianças, permitindo personalizar o serviço com temas como Mickey, Frozen, Princesas, personagens da Marvel ou Star Wars. 

A conta voltada ao público infantojuvenil foi lançada no fim de agosto e, em três dias, o banco recebeu 60 mil solicitações para a sua abertura, segundo reportagem da Folha de São Paulo. A nextjoy é atrelada à conta do responsável e oferece vídeos e quadrinhos sobre finanças com os personagens da Disney. Ela ainda permite que o responsável crie tarefas e realize uma transferência quando elas forem concluídas pelas crianças. 

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Em julho, o banco Inter havia lançado a conta kids, tendo 16,5 mil contas abertas no primeiro mês. Tanto a conta do Next quanto a do Inter se tornam contas convencionais quando o cliente completa 18 anos. Nubank e Neon não abrem contas para menores de idade. Bancos como Bradesco, Itaú, Caixa, Banco do Brasil e Santander já ofereciam contas do tipo, mas era preciso ir até às instituições para a abertura. As contas voltadas a crianças e adolescentes têm basicamente as mesmas funções das outras contas, exceto pela concessão de crédito, que não pode ser realizada a menores de idade. 

Contas digitais familiarizam as crianças com o universo dos bancos

O consultor e educador financeiro Carlos Eduardo Freitas Costa, autor da coleção de livros “Meu Dinheirinho”, fala que as crianças que têm contas digitais já conseguem aprender algo que efetivamente vão utilizar na idade adulta, que é o relacionamento com os bancos. “Nós percebemos na população brasileira uma falta de conhecimento do sistema bancário, o que um banco faz, como funciona. Tendo uma conta, uma criança já consegue enxergar isso. E são bacanas essas contas porque elas já caminham na direção do que a gente vê que é a tendência do setor bancário: os meios digitais”, explica. 

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No entanto, o educador financeiro também alerta que ter uma conta no banco é somente uma das etapas da educação financeira que deve fazer parte da vida das crianças. “Não se pode ficar tranquilo, pensar ‘meu filho já tem uma conta bancária, então eu já estou garantido na educação financeira’. Não. A conta é só uma ferramenta para que eu possa trabalhar com o meu filho a importância de uma boa relação com o dinheiro”, afirma. 

Se os pais pensam em abrir uma conta em um banco digital para as crianças, outro cuidado que eles devem ter é em relação à idade e à maturidade dos pequenos. “Se a criança ainda não tem alguma autonomia com a questão de dinheiro, por exemplo, se ela não ganha semanada, não ganha mesada, se ela não tem o dinheiro dela para pagar alguma coisa e receber troco, eu acho que ela ainda não está capacitada a operar uma conta”, diz Carlos Eduardo. 

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“A conta no banco seria uma segunda etapa, para uma criança que já tem uma autonomia, uma noção de orçamento. Se você der uma conta para uma criança que nunca teve contato com o dinheiro, ela não vai entender o que é”, acrescenta.

Para Carlos Eduardo, a educação financeira se dá na base de quatro pilares: ganhar, gastar, poupar e doar. E a conta no banco permite trabalhar essas noções com as crianças. “Permite que a criança pague suas despesas, perceba que o dinheiro que foi depositado não dá para tudo que ela quer e que a gente precisa fazer escolhas”, declara ele. “Permite também trabalhar a questão do poupar, deixar de fazer algo no presente para fazer no futuro”, diz ele. 

E o poupar está relacionado também ao investir, que o especialista diz ser uma ponte que vai te levar do presente para o futuro, buscando rendimento. “É interessante que as crianças comecem a conhecer sobre isso. Mas é importante também destacar que, se o filho for começar a investir, os pais devem garantir conhecimento para que a criança entenda tudo aquilo, seja através deles ou através de outra fonte”, defende. “E, obviamente, seja dinheiro de mesada ou em conta corrente, os pais que vão determinar como pode ser gasto, de acordo com os valores da família, pois há aquilo que é permitido em casa e aquilo que não é permitido pela família. É muito importante que os pais tenham esse controle também”, conclui. 

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Jornalista formada pela Unesp. Foi trainee do jornal O Estado de S. Paulo e colaboradora em jornalismo da TV Unesp. Na faculdade, atuou como repórter e editora de internacional no site Webjornal Unesp e como repórter do Jornal Comunitário Voz do Nicéia. Também fez parte da Jornal Jr., empresa júnior de comunicação, e teve experiências como redatora e como assessora de comunicação e imprensa.

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