Dia da Avó: afinal, os conselhos que elas dão são mito ou verdade?

Pediatras comentam hábitos comuns recomendados pelas avós

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Conselhos de vó: o que é mito ou verdade no que elas falam; avó abraça neta que apoia braços sobre mesa
Passados de geração em geração, muitos dos conselhos que as avós dão são verdade; que tal dar mais atenção a eles?

Leia em 5 minutos

Vestir agasalho para não gripar, tomar leite morno antes de dormir, comer canja de galinha para ficar forte… Quem nunca ouviu conselhos de vó como esses? Elas não são especialistas em saúde, mas, no geral, sabem do que estão falando. Há quem ache que recomendações desse tipo, passadas de geração em geração, são apenas excesso de cuidados aos quais não devemos dar muita importância. Será mesmo? Abaixo, os pediatras Renata Aniceto, Felícia Szeles e Flávio Melo esclarecem alguns dos principais conselhos que as vovós costumam dar. Saiba o que é mito ou verdade sobre essas dicas.

1. Quem sai se sem agasalho em dias frios pode gripar

Verdade. O frio pode causar reações que deixam o sistema respiratório mais vulnerável a ações de vírus e bactérias causadores de doenças respiratórias como gripes e resfriados. “Quando nos expomos ao ar frio, normalmente acontecem duas coisas: o nariz escorre, para aumentar a umidificação, e entope, para evitar um excessivo resfriamento das vias aéreas”, explica o pediatra Flávio Melo, em post sobre o assunto em sua rede social. Essa é uma reação natural do corpo na tentativa de manter a temperatura regulada e assim garantir o melhor funcionamento do sistema respiratório. A pediatra Renata Aniceto, membro do departamento científico de Pediatria Ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria, ressalta que o risco de adoecer é maior para as crianças menores. “Crianças abaixo dos quatro anos, que ainda estão com a imunidade em formação, podem sofrer com a ação de um vírus ou germe oportunista, que pode gerar um processo infeccioso”, afirma Renata, que também faz parte da Liga da Cozinha Afetiva,.

Em especial, crianças que já apresentam as vias aéreas “sensíveis”, como os portadores de rinite ou asma, ou imaturas, como os bebês, podem ter uma reação exacerbada ao frio, desencadendo uma rinite aguda ou até mesmo uma crise de asma. Isso pode ocorrer a partir de pequenas mudanças de temperatura, entre 2 e 3 graus, e se a queda é maior, em torno de 5 graus, as chances da criança contrair uma infecção é maior ainda. Principalmente, quando em ambientes fechados, com ar-condicionados recirculando o ar ou extremamente secos. Ainda, brincar ou fazer atividade física sem roupas adequadas também pode contribuir para processos infecciosos. Portanto, tomar cuidado com o ar frio e as variações bruscas de temperatura não é exagero da vovó, não! “Apesar do ar frio não causar diretamente as gripes e os resfriados, ele pode ser facilitador de problemas respiratórios”, destaca Flávio.

2. Ficar descalço no chão frio pode entupir o nariz

Verdade. E o motivo é o mesmo acima explicado. Ficar descalço em um piso frio leva a um esfriamento das extremidades do corpo, inclusive, do nariz, prejudicando a capacidade de aquecimento do ar inspirado. Com isso, é mais fácil entupir o nariz e ter uma congestão nasal. “O corpo quente em contato com o chão frio gera um choque térmico, que leva à produção de secreção no nariz da criança e a deixa mais exposta a ação de vírus e bactérias”, ressalta Renata. O pediatra Flávio ressalta, portanto, que usar meias para aquecer o corpo ou fazer escalda-pés “não é bruxaria, nem simpatia, é ciência”.

3. Canja de galinha fortalece o sistema de defesa do corpo

Verdade. Aquela canja de galinha extra forte, cheia de ingredientes saudáveis como legumes, folhas verdes e grãos, pode ajudar a combater gripes e resfriados. “Eu respeito muito as avós e sinto informar, para os que reviram os olhos quando sentem o cheiro da canja perfumando a casa, que elas estão cobertas de razão”, destaca Flávio. Ele cita um estudo, de 2000, publicado na revista “CHEST”, maior periódico de doenças pulmonares do mundo, que demonstrou que a ingestão de uma canja de galinha caprichada, com hortaliças variadas, causava uma diminuição significativa da quimioatração dos neutrófilos, portanto diminuindo/balanceando a resposta inflamatória, o que ajudava a diminuir os sintomas. Já pesquisadores da Universidade de Moscou posteriormente, descobriram que o elemento que seria responsável pela modulação dessa resposta inflamatória frente aos vírus da Influenza (gripe), seriam os peptídeos e isopeptídeos da carnosina, presentes na carne do frango. “Claro que não estou dizendo para ninguém deixar de se prevenir com os imunizantes, porém, caso a criança ou um adulto tenha os sintomas de gripe, além de não deixar de ir ao médico, se isolar, testar e de se medicar com o que ele prescreveu, brilhe os olhos quando sua avó lhe oferecer aquela canja de galinha, feita com tanto amor e sapiência”, recomenda o médico.

4. Tomar leite morno ajuda a criança pegar no sono

Mito. É mais a sensação de aconchego do que o fato de melhorar o sono ou fazer dormir melhor. “Leite morno é uma espécie de ‘comfort food’, comida que conforta e traz a sensação de algo gostoso, como um chá ou sopa quente morna para alguém que está doente”, destaca a pediatra Renata.

5. Faca fria no galo da testa evita que ele cresça

Verdade. “De fato, não é a faca que faz isso, mas o fato de ser um objeto frio associado com uma pressão no local, que faz com que as veias se contraiam, diminuindo a passagem de sangue para o local”, explica a pediatra Felícia Szeles. Claro que em vez da faca é aconselhado usar uma compressa gelada, com bolsa térmica, por exemplo, sobre a região machucada. 

6. Comer manga e tomar leite junto faz mal à saúde

Mito. Esse conselho tem a ver com a história do país, tendo surgido na época da escravidão. “Como a manga era uma fruta abundante nas fazendas e o leite era um alimento mais raro e caro, os senhores de engenho espalhavam para os escravos que misturar os dois alimentos fazia mal, apenas com esse objetivo deles não consumirem o leite. Porém, essa mistura é bem rica em nutrientes e só é contra-indicada para quem tem alergia a algum dos alimentos”, explica a pediatra Felícia Szeles.

7. Bacia com água ajuda a umidificar o quarto em dias secos

Verdade. Assim como colocar uma toalha úmida no ambiente também ajuda. “Quando o tempo está muito seco, em períodos de baixa umidade, a água do balde vai evaporar e assim umidificar o ar”, esclarece Renata Aniceto. Felícia diz que quem tem umidificador de ar, uma sugestão é deixar a bacia ao longo do dia e apenas ligar o aparelho na hora da criança dormir. “E ao usar o umidificador, é importante prestar atenção às orientações de higiene do aparelho para se evitar alguma proliferação de fungo local”, completa Felícia.

8. Banho de piscina após a refeição pode provocar um problema de saúde

Mito. Muita gente acha que é preciso esperar uma ou duas horas para entrar na piscina ou no mar após comer. “Na verdade, o fato de entrar na água não é prejudicial, porém não é recomendando fazer algo que demande muito esforço do corpo. “Atividades muito intensas após comer, como ficar pulando ou mergulhando, podem gerar um mal-estar, já que após as refeições, os vasos sanguíneos do sistema digestivo dilatam para absorver melhor os nutrientes ingeridos”, explica Felícia. 

9. Criança que é muito magra tem que comer mais

Mito. Antigamente, as crianças mais gordinhas eram vistas como saudáveis e as magras como aquelas que exigiam mais cuidados, daí porque era comum ouvir esses conselhos da vovó. Hoje, porém, essa percepção mudou. “Magreza não significa falta de saúde, às vezes, é herança genética, todo mundo da família é assim, e quem vai poder dizer se a criança é saudável ou não é o médico, que vai medir, pesar, colocar na curva de crescimento e avaliar. Diversas crianças comem super bem e são muito magras”, aponta a pediatra Renata. Uma criança dentro do peso ideal, segundo o índice de massa corporal (IMC), parâmetro usado para saber se o peso está de acordo coma a altura, pode ter problemas de saúde até mais graves que uma criança que está levemente acima do seu IMC. “Antes de fazer a criança comer uma quantidade maior de comida, é preciso seguir as orientações do pediatra. Se a criança estiver com algum problema, só o médico poderá indicar qual o tipo de alimentação é melhor seguir. Como eu sempre digo: não é comer mais, mas comer melhor”, alerta Felícia.


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