Hormônio de crescimento: quando é indicado usar e os dilemas dos pais na decisão pelo tratamento

De uso diário e prolongado, a terapia hormonal é indicada para diversas doenças, saiba quais são elas e ouça relatos de famílias cujos filhos usam diariamente o remédio

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Baixa estatura: quando é preciso usar hormônio de crescimento
Tratamento de reposição hormonal é de uso diário e prolongado, podendo, a depender do caso, ser obtido pelo SUS

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Criança que cresce bem é por definição uma criança saudável. E saber que o filho está crescendo dentro do esperado é motivo de alegria e tranquilidade para os pais. Porém, se a criança “estaciona” e não segue a média padrão de altura – é a mais baixa da turma ou não perde as roupas com o passar do tempo, por exemplo – é comum os pais ficarem apreensivos.

Ser baixo, no entanto, não necessariamente é sinal de que há algo errado com a saúde. O fator genético tem um peso significativo no crescimento: cerca de 80% da estatura é determinada pelo tamanho dos pais, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Se o pai, a mãe ou ambos têm uma altura abaixo da média, os filhos tendem a seguir o mesmo padrão. Mas pode acontecer da mãe ou do pai ser baixo porque teve algum problema no crescimento durante a infância – e, logo, o filho não necessariamente será baixo. 

São muitas as variáveis que interferem na altura da criança. Entre elas, restrições no crescimento durante a gravidez, doenças crônicas e raras, uso de medicamentos, sono, prática de exercícios e saúde emocional.

Nos casos em que há deficiência na produção do hormônio de crescimento – conhecido pela sigla “GH”, growth hormone”, em inglês – é indicado tratamento com remédio para reposição hormonal. O GH é produzido pela hipófise, glândula pequena como um grão de feijão, localizada na parte inferior do cérebro, e indispensável para que a criança atinja a estatura adulta normal.

Além da deficiência na produção desse hormônio, há outras situações em que médicos também costumam indicar terapia com o GH para que a criança atinja a estatura final dentro da média para sua faixa etária.

Doenças não hormonais tratadas com hormônio

“Grande parte dos problemas de baixa estatura se deve a questões não hormonais. A deficiência de hormônio de crescimento ocorre, em média, em uma para cada 10 mil crianças, mas existem varias situações onde não há deficiência e o hormônio é indicado”, afirma Durval Damiani, chefe da endocrinologia pediátrica do Instituto da Criança e do Adolescente do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FM-USP). Ele diz que há mais de 100 doenças que podem interferir na altura da criança. “São diferentes condições clínicas que devem ser muito bem analisadas para chegar a um diagnóstico preciso e tratamento adequado”, ressalta o especialista.

A baixa estatura idiopática é um dos problemas mais comuns relacionados à dificuldade de crescimento – dados indicam que essa condição representa 80% dos casos de baixa estatura. “É um diagnóstico que não tem causa específica, feito por exclusão, depois que já realizamos uma investigamos aprofundada e foram descartadas doenças como as endócrinas, nutricionais ou cromossômicas”, esclarece a endocrinologista pediátrica Camila Clemente Luz, da clínica Prontobaby, no Rio de Janeiro.

A síndrome de Turner, doença rara causada por alterações nos cromossomos sexuais femininos, que provoca problemas como baixa estatura e atraso na puberdade, também pode ser tratada com reposição hormonal. “Crianças que nascem muito pequenas e não recuperam seu crescimento nos dois primeiros anos de vida, condição conhecida como PIG (pequeno para a idade gestacional) costumam receber indicação de hormônios. Mesmo não tendo deficiência, é recomendado essa terapia”, relata o chefe da endocrinologia pediátrica do Instituto da Criança e do Adolescente da USP.

Outra indicação de hormônio diz respeito ao uso de corticoide no tratamento de doenças crônicas. As altas doses e o tempo prolongado desse medicamento podem ter como efeito colateral o atraso no crescimento. Crianças com insuficiência renal crônica e, ainda, algumas situações relacionadas à doença óssea também costumam ser tratadas com terapia de hormônios.

“O crescimento é influenciado por qualquer questão de saúde. Desde uma asma grave à falta de alimentação equilibrada ou condições que prejudiquem a nutrição, como doença celíaca, que impede a absorção de alguns nutrientes, podem fazer com que a criança não cresça bem”, afirma Durval Damiani.

Como é feita a terapia hormonal

A reposição do hormônio de crescimento pode ser iniciada a partir dos 3 ou 4 anos de idade e segue no geral até o fechamento (calcificação) da cartilagem óssea, por volta dos 18 anos, mas cabe ao médico avaliar caso a caso, de acordo às especificidades de cada criança. O tratamento consiste em doses diárias do estimulante, aplicadas à noite, antes de dormir, na coxa, nádegas, braço ou abdome, com uma agulha que se assemelha àquela usada no tratamento de diabetes. Em determinadas situações, o remédio pode ser conseguido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Para tanto, é preciso primeiro buscar atendimento em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e ser encaminhado ao tratamento com especialista. Nas farmácias, o tratamento pode sair por cerca de R$ 60 por dia ou R$ 2 mil mensais para uma criança de 30 kg, a depender da dose utilizada.

Iniciar o tratamento: uma decisão difícil para os pais

Miguel, 6 anos, usa o remédio que recebe pelo SUS desde os 3 anos de idade. Após consultas com endocrinologistas pediátricos, exames hematológicos, hormonais e de imagem, ele teve constatado uma deficiência na produção do hormônio de crescimento e indicada a reposição hormonal.

“O começo do tratamento foi uma fase bem difícil para ele e para nós, pois sabíamos que ele teria que tomar injeções diárias por longos anos. Cheguei a pensar em adiar o inicio, mas ele já estava muito atrasado em seu desenvolvimento. A decisão foi tomada por mim e pelo pai dele e com grande ajuda da minha irmã, que é enfermeira. Felizmente, o tratamento está sendo tranquilo. Ele já se acostumou e sabe da importância da medicação e até nos cobra quando esquecemos”, relata a mãe, Nanci do Carmo, que vive com o filho e marido em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. 

Nanci diz que na época em que Miguel iniciou o tratamento ele tinha 85 cm de altura e hoje, aos 6 anos e oito meses, está com 112 cm, obtendo um ganho de 27 cm em pouco menos de quatro anos de tratamento. A previsão é que siga com a medicação até por volta dos 16 anos. “Se ele não tomasse o remédio, não apresentaria o ganho normal esperado. A ideia nao é crescer acima da média, mas sim acompanhar o normal para a idade”, esclarece a mãe.

‘Ficávamos com pena por ele ter que tomar as picadas diárias’, diz mãe

Caio, 11 anos, também usa remédios de hormônio de crescimento há seis anos. Após uma ressonância no cérebro foi confirmado o diagnóstico de neurohipófise ectópica. “Falta a haste que leva o hormônio de crescimento para o organismo. No caso dele a necessidade de reposição do hormônio era inquestionável”, afirma a mãe, Paula, de São Paulo, que prefere não divulgar seu sobrenome.

Embora tenha nascido prematuro, Paula diz que o filho cresceu dentro do esperado para sua idade nos primeiros anos de vida, até que, por volta dos 4 anos, o ritmo de crescimento diminuiu. “Comecei a ficar aflita porque via a diferença de altura dele para os amiguinhos aumentando”, conta.

Desde os cinco anos e meio, quando iniciou o tratamento, Caio já cresceu 50 cm. Ele faz acompanhamento semestral com uma endocrinologista e, assim como Miguel, recebe o hormônio pelo SUS. “Ficávamos com pena por ele ter que tomar as picadas diárias. Mas ele se adaptou bem rápido e nós também – ao ver a resposta ao tratamento, com um crescimento acelerado, a tristeza passou completamente”, comemora a mãe.

Riscos associados ao uso do hormônio de crescimento

Existem controvérsias quanto ao uso do hormônio de crescimento devido aos efeitos ainda pouco conhecidos da terapia a longo prazo. Maior risco de doenças cardíacas, diabetes e mesmo câncer já foram associadas ao uso do GH. O consórcio europeu SAGhE (Segurança e Adequação de tratamento GH na Europa), que envolve oito países, analisa o aumento de mortalidade devido à incidência de câncer na vida adulta. O uso indevido desse estimulante para fins estéticos e melhor desempenho esportivo – o que é contraindicado –, contribui para a má reputação do medicamento.

Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, no geral, quando usado sob orientação médica o tratamento com GH é bem tolerado e tem pouco ou quase nenhum efeito colateral. Podem ocorrer, mas são raras, reações locais da aplicação, diz a entidade em página informativa sobre o assunto em seu site.

“A maior preocupação quanto ao uso desse hormônio é de desenvolvimento de um tumor no futuro, mas até o momento não se tem indicativo de que o uso aumenta esse risco. Estudos que apontaram essa possibilidade foram depois rediscutidos e mostraram-se pouco confiáveis”, aponta a endocrinologista Camila Luz.

“O hormônio de crescimento é uma das medicações mais seguras que a gente tem. Sempre brinco que é mais perigoso tomar Novalgina do que hormônio de crescimento. Estudos que apontam riscos, no geral, se referem àquelas exceções e não à grande maioria dos usuários”, afirma Durval Damiani.

O peso dos padrões da sociedade

Segundo reportagem recente do jornal americano “The New York Times”, publicada no “Estadão“, especialistas calculam que 60% a 80% das crianças com baixa estatura não têm uma deficiência do hormônio do crescimento ou outros problemas de saúde que limitem o seu crescimento. Ainda assim, alguns pais buscam uma solução médica, mesmo sabendo não haver nenhuma anormalidade com o filho, por receio de que ele sofra algum estigma. Pessoas de altura abaixo da média – hoje em torno de 1,75 cm para os homens e 1,62 para as mulheres, no Brasil – infelizmente ainda são vistas como fora do padrão socialmente mais valorizado, principalmente, os homens.

“Muitos pais procuram atendimento preocupados com a estatura que o filho terá. Não exatamente porque o jovem está baixo, mas porque não quer ficar baixo”, relata o hebiatra Felipe Fortes, do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (Nesa), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Ele diz que a maioria das questões de baixa estatura são constitucionais, ou seja, estão relacionadas à genética da família e não há como mudá-las. “Então, na consulta, discuto muito com os adolescentes uma visão mais ampliada de saúde, refletindo quais planos de vida seriam atrapalhados por uma estatura mais baixa – nenhum, obviamente. Ou seja, eles poderão seguir a vida com toda sua potência sem nenhum problema, independentemente de suas alturas. Os adolescentes e famílias se aliviam muito quando se dão conta disso”, pontua o médico, que diz aproveitar a oportunidade para estimular nos jovens a criação de hábitos saudáveis em relação à alimentação e ao sono. “Hábitos estes que influenciarão não só na saúde como um todo, mas também na estatura final”, destaca Felipe.

“A baixa estatura nunca nos preocupou”

Luana Alves e o filho Joaquim, 8 anos

Luana Alves, diz que o filho, Joaquim, 8 anos, é baixo para a sua idade, mas que isso nunca a preocupou. “O pai e eu temos 1,65. Ou seja, difícil termos filhos muito altos. Ele é o mais baixo da turma desde sempre. Nasceu pequeno e seguiu assim. Nunca fizemos nenhum acompanhamento além das consultas normais à pediatra”, conta.

A mãe diz que busca ensinar ao filho sobre diferenças e que as pessoas não têm de ser todas iguais. “Sempre sinalizamos que ele é mais baixo que os outros mesmo e isso pode ser normal, está tudo certo. As pessoas são diferentes e é preciso aprender a acolher e incluir sempre”, diz Luana. Ela explica que uma tia sua tem nanismo e lhe serve de exemplo. “Minha tia, a jornalista Lelei Teixeira, que recentemente lançou o livro ‘Fomos ser gauche na vida’, em que fala sobre sua vida e da irmã, Marlene, é uma referência de vida pra mim. Pela mulher que é. Talvez isso seja o motivo pelo qual jamais pensei em fazer qualquer coisa para modificar a estatura do meu filho”, comenta.


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