O que sobrou das mães após a quarentena?

A escritora Sheila Trindade conta do mau humor, do cansaço, das manias e esquisitices que adquiriu nos últimos tempos: "Danço sem motivo algum, voltei a ouvir Sandy e Júnior e passei a jogar Pokémon Go"

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Dia desses, ao buscar meus filhos na escola, encontro Luiza aos pulos comemorando o fim da quarentena. As máscaras finalmente tinham deixado de ser obrigatórias nas escolas e demais locais fechados. Pouco mais à frente, pegamos o João, ainda usando a sua, se negando a desapegar, até porque, ele passou metade da vida usando. Desde os dois anos, quando a loucura pandêmica começou, ensinamos hábitos de convívio e de higiene que, pensando bem, deveríamos manter para sempre.

Agora querer assim, como um band-aid, arrancar de supetão a máscara como se ela fosse a vilã? Poxa vida! Dá até para entender seu apego. Eu mesma, às vezes esqueço que estou sem e faço caretas debochadas. Talvez tenha ganhado o título de louca que há anos cobiço. Finalmente…

No caminho de casa comecei a enumerar as manias e esquisitices recém adquiridas com a pandemia e não foram poucas. A primeira, logo no início, quando a tv era nossa janela para o mundo, assim sem mais nem menos, a tv mudou o idioma. O controle remoto perdido no buraco negro do fundo do sofá, validou minha preguiça de resolver o problema e ela continua em inglês até hoje. Olhando pelo lado bom, Samuel fechou a última prova de inglês, gosto de pensar que a TV o motivou.

Lá em 2020 eu não colocava uma gota de álcool na boca. Naquela surto do povo em fazer pão e novas receitas para matar o tempo e assim tornar este cenário pré-apocalíptico algo menos monótono, comprei uma lata de cerveja para temperar a carne, experimentei um gole e percebi que “engoliria” melhor a rotina acompanhada de uma boa cerveja gelada. Agora sonho em sentar num barzinho com as amigas que fiz pela internet, que conseguem conciliar maternidade com cerveja gelada. Se não fosse meu déficit social, nada impediria.

Nos últimos dois anos, talvez o que tenha mais regredido em mim foram exatamente as habilidades sociais. Se antes eu evitava o convívio e conversas infundadas do cotidiano, hoje temendo um novo cenário de quarentena, destemperou tudo. Sou uma antissocial que, com medo de um novo confinamento, tenta com muito custo puxar conversa, participar dos eventos e fazer novas amizades. É bem esquisito porque a pessoa me conhece achando que sou bem legal e divertida, o que é uma mentira.

Sou uma jovem com o mau humor e coluna de uma senhora de 87 anos. Sinto o cansaço acumulado de três reencarnações. E a loucura ainda mais aguçada. Danço sem motivo algum, voltei a ouvir Sandy e Júnior e passei a jogar Pokémon Go. E o que deveria ser uma diversão saudável entre mãe-filho, virou algo sério quando evoluí meu Dratini e meu filho ficou com inveja da minha “pokedex”, uma mini enciclopédia eletrônica de pokémons.

Eu não sei o que sobrou de você, mas de mim, muito pouco. Aprendi que ficar em casa nem sempre é legal, principalmente quando se é obrigada. Aprendi a otimizar meu tempo transformando reuniões em e-mails, e-mails em mensagens no WhatsApp e certos contatos bloqueados em prol do pouco que restou de sanidade mental. Nunca mais consegui fazer almoço na hora certa, desaprendi a como cumprimentar as pessoas com contato físico e agradeço diariamente a existência dos professores dos meus filhos.


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Sheila Trindade é escritora e fundadora do Blog Uai Mãe. Mãe de quatro filhos, um monte de histórias para contar cheias de aventuras, dúvidas e receios. De forma autêntica e com bastante humor, quer provar que a maternidade pode ser divertida quando a gente se permite rir dos próprios erros.

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