Em defesa da infância, devemos voltar para a escola

"Não defendo que todos sejam obrigados a voltar para a escola, mas sim que todos tenham a opção de voltar e que essa decisão seja tomada com responsabilidade", diz Talita Rizzini

Em defesa da infância, devemos voltar para a escola, diz a pediatra Talita Rizzini; imagem mostra duas garotas negras correndo felizes, uma de vestido vermelho e a outra de vestido branco com estampas vermelhas

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Ano eleitoral em meio a uma pandemia. A cada dia, somos bombardeados com notícias que parecem não ter mais claro o limite entre realidade e ficção. Uma rápida passada de olhos e vemos o número de casos e de óbitos devido à Covid-19 aumentando e, à mesma proporção, aumentando o descaso da sociedade quanto às regras de distanciamento social, uso de máscara e higiene frequente das mãos.

Bares, restaurantes, praias, parques e outros ambientes em que possa haver aglomeração já estão autorizados a funcionar e não faltam registros de como a população pode ser relapsa e negligente quanto ao seu cuidado pessoal e cuidado com os seus. Mas a Escola… infelizmente, a Escola continua fechada.

“Não é seguro”, muitos dizem, contrariando a tendência mundial de reabertura segura, com implementação de protocolos de higiene e vigilância constante. Enquanto isso, crianças frequentam praias, parquinhos e condomínios lotados.

“Meus filhos só vão voltar para a escola quando houver a vacina”, enganam-se outros, acreditando na falácia de que a vacina estará disponível em larga escala até o fim deste ano. Não estará. E talvez não esteja nos próximos anos – no plural. Porque por mais que exista um esforço global para o desenvolvimento de vacinas eficazes e seguras, a variável que determina essas características é o tempo. E esse ainda não conseguimos adiantar.

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Vivemos num país em que a desigualdade social é uma das piores do mundo. Estamos entre as dez maiores economias – ou pelo menos estávamos antes da pandemia – mas somos o sétimo país mais desigual. E se eu digo tudo isso, pintando um cenário quase apocalíptico, é para dizer que estou como pediatra, como mãe e como cidadã, em defesa da infância.

E se eu digo tudo isso, pintando um cenário quase apocalíptico, é para dizer que estou como pediatra, como mãe e como cidadã, em defesa da infância.

Em defesa da criança em situação de vulnerabilidade econômica, que acaba sendo vítima inocente dos revezes financeiros do país e não pode voltar para a escola e contar com o fornecimento de merenda, de cuidados e de acolhimento. Essa criança está perdendo um período sensível de aprendizagem, permanecendo em casa, sem estruturas para continuar cumprindo a grade curricular.

Em defesa da criança saudável, para as quais os pais não conseguem suprir as necessidades de atenção e afeto, porque também estão preocupados em trabalhar, quer seja de suas casas ou não. Da criança saudável que sente tristeza, solidão, que passa o dia em frente à TV/ao tablete, que vem apresentando distúrbios de humor, de apetite e de sono.

Em defesa da criança com deficiência ou qualquer outro agravo de desenvolvimento, que está perdendo a oportunidade de socialização e inclusão, além de terem suas terapias lentificadas quando não paralisadas – o que por si só já gera um prejuízo significativo no ganho de novas habilidades.

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Repito: em defesa da infância.

Já prevê a Constituição no seu artigo 227: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

E o que temos oferecido são escolas de portas fechadas, enquanto bares estão abertos, mostrando a quem quiser ver que a “absoluta prioridade” no cuidado com as crianças não está em vigor.

Nosso Estatuto da Infância e da Adolescência (ECA) completou 30 anos em 2020, mas nosso Estado e nossa sociedade ainda não parecem ter amadurecido e internalizado o fato de que investir na infância é investir no futuro.

Não defendo que todos sejam obrigados a voltar para a escola, mas sim que todos tenham a opção de voltar e que essa decisão seja tomada com responsabilidade e com toda individualização que a situação merece.

Não defendo que todos sejam obrigados a voltar para a escola, mas sim que todos tenham a opção de voltar e que essa decisão seja tomada com responsabilidade e com toda individualização que a situação merece. Mas não podemos aceitar que o processo de reabertura não leve em conta as consequências que o isolamento social tem imposto aos indivíduos que correspondem a um quinto da população.

Com o processo eleitoral mantido neste ano, teremos uma excelente oportunidade de modificar o rumo das decisões de nossa sociedade. O voto consciente pode mudar a realidade de muitas crianças. É a melhor forma de mostrarmos como cidadãos o que queremos para a nossa sociedade. E sempre tenho esperança de um futuro melhor. Pelas crianças e para as crianças.

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*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Eu concordo plenamente com Talita. Eu tenho mais medo das consequências do isolamento social sobre as crianças e adolescentes, inclusive minha filha. É preciso assegurar a volta à escola às famílias que assim desejam. O que podemos fazer?

    • Olá, Elaine, tudo bem? Obrigada por compartilhar sua opinião conosco. Comentários, críticas e sugestões são sempre bem-vindos! Abs, Verônica.

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