É preciso reabrir as escolas para aprender como elas podem funcionar na pandemia, diz diretor de Fundação Lemann

Além dos prós e contras que a volta às aulas têm levantado, outra questão tem pesado nesse debate: a chegada das eleições municipais e a preocupação dos candidatos em não perder votos

É preciso reabrir as escolas e aprender como elas funcionam, diz diretor de Fundação Lemann; imagem mostra garotinha de máscara regando plantas
Adiar a reabertura, pode agravar a evasão e o abandono escolar, diz Mizne

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A retomada de atividades em várias cidades do país, que já apresentam melhoras em relação aos casos de coronavírus, tem levantado discussões quanto ao momento certo de reabrir as escolas. Apesar dos seis meses de confinamento, grande parte das famílias diz não se sentir segura para a volta às aulas presenciais, devido aos riscos da contaminação e transmissão da covid-19. Especialistas porém, alertam para os possíveis prejuízos do isolamento nas crianças e nos adolescentes.

Além desses dois aspectos, recentemente, outra questão tem pesado nesse debate: a chegada das eleições municipais, que tem levado prefeitos a adiar a reabertura em razão de pesquisas que mostram o medo dos pais, analisa Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann, uma das principais organizações sem fins lucrativos voltadas à melhoria da educação no país. Em entrevista à Folha de São Paulo, ele diz que devemos aprender também na educação a conviver com o vírus, porque não haverá um cenário de risco zero, e fala sobre a necessidade de reabrir as escolas o quanto antes, diante de enormes prejuízos para a saúde mental e para o aprendizado. Abaixo, selecionamos alguns dos trechos da entrevista. Confira.

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A retomada das aulas presenciais

Mizne destaca três grandes aspectos: as questões sanitárias, o risco da aprendizagem ao ter dezenas de milhões de alunos no Brasil privados de aulas de qualidade; e a saúde mental dos alunos.

“Temos que olhar para esse conjunto de informações para tomar a decisão mais responsável. O que a gente tem visto fora do Brasil, que pode servir como estímulo, é que a imensa maioria dos países europeus que reabriu no final do primeiro semestre não teve aumento de contágio. Claro que esses países tomaram as medidas sanitárias necessárias, como testagem, cuidados com higiene, e a pandemia estava em outro estágio”, afirma. Ele lembra que agora será possível acompanhar o que acontecerá nos Estados Unidos e na Europa, que inicia agora o ano letivo com aulas presenciais com um número de casos maior do que havia em maior e junho.

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Volta às aulas: 2020 x 2021

“Parece difícil compreender por que o último setor para que iremos discutir protocolos de reabertura seja o setor educacional. Quando a gente já vê as cidades autorizando o funcionamento de restaurantes, bares, shoppings, todo tipo de comércio, me parece uma resposta excessivamente pautada na pressão de alguns grupos. Como nos demais setores, é preciso tempo para as escolas se prepararem. Em vez de ficar discutindo qual a data da reabertura, deveríamos estar preparando os protocolos”, diz Mizne, referindo-se a questões como o isolamento das turmas e controle da contaminação. Para ele, “a retomada deve se dar o quanto antes e temos que discutir de que forma, pois corremos o risco de retomar essa discussão apenas em 2021 e ficar sem aula no ano que vem também”. Porque, declara o especialista, do ponto de vista de imunização coletiva, não haverá grandes mudanças entre novembro deste ano e fevereiro do ano que vem. “Não teremos toda a população vacinada.”

O diretor-executivo avalia que é preciso reabrir as escolas para aprender como elas podem funcionar na pandemia e discutir como garantir o aprendizado das crianças neste contexto. Ele sugere que os diretores e diretoras das escolas falem com as famílias para explicar como será a volta, caso contrário, os pais (em sua maioria) seguirão contra a reabertura.

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O peso das eleições municipais na decisão de reabertura das escolas

Mizne diz esperar que as eleições municipais deste ano não interfiram na decisão de reabrir as escolas, o que deve ser feito com base em dados. Pesquisa Datafolha feita em julho mostrou que 89% dos pais de alunos de escolas públicas defendem a continuidade das atividades pedagógicas em casa com as aulas presenciais. Outros estudos recentes mostraram que muitos estudantes estão tristes, irritados e ansiosos com o isolamento social. “São dados que mostram que devemos discutir incansavelmente de que forma a retomada será feita. A educação tem que ser prioridade no país”, afirma o diretor da fundação.

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Riscos do adiamento

Caso as prefeituras adiem a reabertura das escolas mais que o necessário, do ponto de vista de contágio da covid-19, Mizne acredita que corremos o risco de a defasagem ficar tão grande que levaremos anos para recuperar o conteúdo pedagógico. “Uma das consequências que isso traz é a evasão escolar e o abandono escolar não é um evento pontual. Estamos falando de uma criança que será privada de trilhar seu caminho no futuro, de ter escolhas na vida e, no cenário atual, de pandemia, estamos falando de uma geração inteira que pode ser prejudicada.”

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Denis Mizne, 44 anos

É diretor-executivo da Fundação Lemann desde 2002. Advogado formado pela USP, com passagens pelas universidades Columbia, Yale e Harvard, nos EUA. Foi assessor especial e chefe de gabinete do Ministério da Justiça (1999-2000) e integrou o Conselho Nacional de Segurança Pública (Conasp), o Conselho Parlamentar de Cultura de Paz da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) e o Conselho Municipal de Direitos Humanos de São Paulo. Fundou e preside o conselho do Instituto Sou da Paz. É membro do conselho da Fundação Roberto Marinho e do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife).

Leia aqui a entrevista na íntegra.

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