A maternidade sem milagres que não aparece nas redes sociais

"De tempos em tempos aparece uma moda no mundo virtual e a gente tenta se enquadrar. Me lembro das amigas todas lendo "O milagre do amanhã"", diz a escritora Sheila Trindade

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A maternidade sem milagres que não aparece nas redes sociais; mulher segura celular e há ícones que simbolizam curtidas e seguidores de redes sociais
Nas redes sociais, todas as mães parecem perfeitas – mas não são

Funciona como em um parque de diversões. Sabe aquela atração cheia de espelhos esquisitos que distorcem nossa imagem? Passamos em frente a um, que bela visão! Noutro já não nos achamos tão belas assim. Observamos a barriga, o pescoço esticado. E nos sentimos como em uma caricatura, que só é engraçada para quem vê de longe. Porém, a imagem real e projetada, cheia de defeitos, ninguém acha graça. E não importa o quanto isso nos magoe e nos faça mal: dia após dia, entramos nessa “sala de espelhos” e nos comparamos com as outras mulheres. É assim que eu vejo a a maternidade nas redes sociais: a comparação com as outras mães é inevitável.

De tempos em tempos aparece uma moda no mundo virtual e a gente tenta se enquadrar. Me lembro das amigas todas lendo “O milagre do amanhã”, do escritor americano Hal Elrod. Best-seller que já vendeu mais de um milhão de exemplares no Brasil, o livro se propõe a revelar “o segredo que irá transformar a sua vida antes das 8 horas”. Para tanto, tinha que acordar cedo, ler, meditar, escrever um livro, faxinar a casa e só aí dava 7 horas da manhã. Nem me atrevi a pôr em prática o tal segredo. Eu não quero transformar minha vida, eu só quero dormir 8h diárias!

Mas a comparação é inevitável, então a gente se enquadra:

– Já leu O Milagre do Amanhã, Sheila? – perguntam as amigas.

– Já sim! Maravilhoso! Transformou minha vida! – eu respondo.

Nas redes sociais é tudo visto através de uma lente cor de rosa. Lá ninguém surta com a criança jogada no chão do shopping gritando com voz de “o exorcista”. Nessas horas, eu não sei se me sento ao lado e choro, se chamo a cuidadora de bebês “Super Nanny”, os irmãos Winchester ou se compro mesmo o livro “O milagre do Amanhã” para a criança e digo algo como “Toma filho, vai transformar sua vida”.

Dia desses, ouvi de uma psicóloga que a primeira coisa que precisamos entender sobre maternidade e redes sociais é que mães mentem! Mentem quando dizem que dão conta de tudo, quando de forma arrogante dão a fórmula da maternidade perfeita, sem levar em conta que a maioria das pessoas não possui estrutura financeira ou rede de apoio. Mães mentem porque não querem ser aquela imagem projetada no espelho distorcido. Querem ser a visão boa, o padrão a ser seguido.

E a mãe que não se enquadra nesse perfil perfeito, acredita que todas as crianças são comportadas, menos a dela; pensa que todas as crianças sentam à mesa para comer legumes, menos na sua casa, em que o único ser bem alimentado é o cachorro que come do chão.

Mas não existe fórmula mágica. Aquela mãe perfeita do Instagram, apesar do que possa parecer, não é muito melhor do que você. A verdade é que sempre estamos um pouco surtadas, algumas só conseguem disfarçar melhor que as outras. E algumas, claro, leram “O milagre do Amanhã” (contém ironia).


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Sheila Trindade é escritora e fundadora do Blog Uai Mãe. Mãe de quatro filhos, um monte de histórias para contar cheias de aventuras, dúvidas e receios. De forma autêntica e com bastante humor, quer provar que a maternidade pode ser divertida quando a gente se permite rir dos próprios erros.

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