Desenhando um mundo sem machismo

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Cris Guerra e FranciscoPouco depois de descobrir que eu estava grávida de um menino, me vi diante de uma loja de roupas para crianças e resolvi comprar a primeira peça para o Francisco. Era um macacãozinho de malha com o desenho do carneiro de O Pequeno Príncipe. O cor-de-rosa era bem mais lindo que o azul. Rapidamente pedi para embrulhar e levei pra casa um exemplar daquele tom, na ilusão de que bastaria a vontade para criar um menino despido de preconceitos. Dias depois, conversando com uma amiga que já era mãe, achei por bem trocar pelo macacãozinho azul.

Educar sem machismo parece simples, já que é fácil sonhar com um mundo em que os direitos masculinos não se sobreponham aos femininos. Mas quando me pego arrumando o quarto do meu filho, sem paciência para esperar que ele mesmo o faça, percebo que o trabalho tem de se iniciar em mim. Preciso me educar primeiro — e não sei por onde começar.

Cresci num lar tipicamente machista, realidade ilustrada à perfeição nos almoços de domingo, em que cabia à mamãe cozinhar. Ao fim da refeição, os homens permaneciam à mesa enquanto as mulheres se levantavam para cuidar da louça. Quinta filha, chegando depois de uma dupla de homens e outra dupla de mulheres, eu me rebelava, claro. Sem efeito, já que era mais fácil ser combatida pelos seis juntos e acabar me resignando na solidão.

Curiosamente, hoje me vejo em uma casa em que homens e mulheres são igualmente representados — eu de um lado, Francisco de outro, os dois tateando no escuro em busca de um modelo de família. De nada adianta o que penso e prego: serão as minhas atitudes o seu mapa. E me pego caminhando trôpega, tendo sob os pés uma estrada que não é de pedras, tampouco de asfalto. É areia fofa, que exige de mim músculos fortes e resistentes.

Se nós mesmas nos flagramos em atitudes machistas, como criar filhos para relações mais generosas em ambas as direções, que não sejam regidas pelos preconceitos? (E que linda a proximidade entre as palavras gênero e generosidade.) É para uma sociedade ainda em construção que educamos nossos filhos — ou, para ser mais exata, é para construir esse novo tempo que os formamos. Está aí a oportunidade: crianças são campos férteis, estão abertas a novos pensamentos e formas de convivência. Será preciso voltar para elas algumas interrogações, antes das certezas. Para falar alto é preciso falar grosso? Um mundo contra as mulheres seria mesmo a favor dos homens? Usar a força física contra o outro é superioridade? Não seria a delicadeza uma espécie de força?

“Dessine-moi un mouton” (“Desenha-me um carneiro”), teria dito o pequeno príncipe ao aviador. Vamos precisar desenhar juntos, nós e nossos filhos, um mundo que ainda não existe. Talvez começando pela caixa com buracos para depois descortinar o carneiro. Fofo, lindo e extremamente frágil. Mas de verdade.

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