Criança adora fazer birra. Será?

Os pais precisam saber que choros e comportamentos agressivos podem ter outras motivações que não a birra, diz a psicóloga Patrícia Nolêto

Toda criança adora fazer birra, mas será que é birra mesmo?; imagem mostra menina com o cabelo preso dos dois lados de camiseta rosa clara num cenário rosa choc

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Uma das coisas que mais escuto no consultório quando atendo pais é um pedido de socorro em relação às birras dos filhos. Geralmente são pais aflitos que acreditam que fazer birra é algo que só acontece na casa deles. A primeira coisa que faço é normalizar. Acreditem, é esperado que crianças saudáveis façam birras todos os dias.

Muitas vezes os pais associam as birras a falta de respeito, enfrentamento aos pais, falta de limites, provocação. Porém, no geral, a birra não está associada a isso, e sim a uma necessidade de desenvolvimento de autonomia. Entre 2 e 5, anos de idade, temos um “bum” na autonomia da criança. Se você olha para seu filho e sofre pensando que ele já é um menininho, não é mais um bebê, é nessa fase que ele está (rsrsr).

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Nessa idade a criança passa a ter mais voz, mais capacidade de escolhas, mais segurança em executar, mais habilidade motora, mais capacidade verbal, maior diferenciação entre o mundo e ela mesma e um fortalecimento da sua identidade própria. Lembrando que uma parte importante da personalidade é construída até os 6 primeiros anos de vida. É nesse período que acontece o desfralde, a criança aprende a comer sozinha, trocar a própria roupa, expressar verbalmente e de forma clara seus desejos, andar de bicicleta, escrever o nome, reconhecer algumas letras e aprende a contar. É também quando ocorre uma ampliação significativa de seu vocabulário, ela desenvolve o raciocínio lógico e tem um salto no desenvolvimento da linguagem. E tudo isso acontece cercado por emoções!

Esse é um outro aspecto importante que os pais precisam saber sobre as birras: nem sempre é birra! Isso mesmo, geralmente, quando as crianças choram, batem o pé, tem comportamentos agressivos, falam com raiva, emburram, os pais categorizam tudo como birra. Mas pode ser apenas uma inundação emocional.

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A inundação emocional é muita parecida com uma birra (costumo explicar que é como se existissem dois tipos de birra). A criança chora, grita, joga coisas no chão, às vezes ameaça bater, morder, diz que não nos ama mais, às vezes, nos xinga e também sente
raiva.

Como saber quando é birra e quando é inundação emocional? Na birra, a criança consegue parar, ela escolhe ter aqueles comportamentos. Sabe quando a gente ignora e a criança para de chorar, ou quando a gente sai de perto, ela levanta, vai atrás da gente e quando nos acha começa a chorar de novo? Isso é birra!

Na inundação emocional a criança não tem esse controle. Ela está se afogando nas emoções, não consegue parar o choro, entra num loop e não consegue sair. Nessas situações distrair não funciona, nem ignorar, nem se afastar. A criança está inundada por uma enxurrada de emoções, ela está alagada, se afogando e a única coisa que ela precisa nesse momento é de resgate.

Então nesse momento, nós pais, só temos uma escolha: mergulhar na água e trazer nossos filhos de volta. O resgate acontece com empatia, compaixão, abraço, afeto, colo, com uma mão estendida oferecendo ajuda. Treine o seu olhar, aprenda a reconhecer inundações emocionais do seu filho. Você vai perceber como será mais fácil manejar não só as emoções dele, mas as suas também quando a inundação aparecer.

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Patricia Nolêto
Patrícia Nolêto de Campos, é mãe da Clara, 4 anos. Psicóloga, palestrante, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, trabalha há mais de 19 anos com psicologia clínica com atendimento a adultos crianças, adolescentes e pais. Desenvolveu workshop de Treinamento de pais e Treinamento de Educadores e ferramentas terapêuticas que facilitam a regulação emocional das crianças. Saiba mais em http://www.patnoleto.com.br

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