Impor limites ‘goela’ abaixo pode prejudicar a capacidade da criança regular a si mesma

Pais que estão em controle estabelecem limites claros, mas permitem que a criança se expresse com relação a eles

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Impor limites 'goela' abaixo pode prejudicar a capacidade da criança se autorregular; ilustração mostra menina na dúvida e dois balões, um com alimentos saudáveis e outro com guloseimas

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O mundo é cheio de propostas tentadoras. Quando você começa a trabalhar, alguém te chama para tomar um café. Quando você começa a dieta, recebe um convite para jantar. Autorregulação é o processo em que as pessoas buscam exercer controle sobre seus impulsos, desejos, emoções e pensamentos. É a autorregulação que te faz adiar o prazer de assistir um bom filme para concluir um trabalho. É a autorregulação que nos leva a buscar a calma em vez de expressar o descontentamento durante um surto de fúria.

O americano Roy Baumeister é um dos pesquisadores mais influentes em psicologia e autoridade mundial no tema da autorregulação. Ele sugere que “a maioria, senão todos os principais problemas que afligem os indivíduos de todas as idades em nossa sociedade, incluindo problemas de saúde e problemas mentais, podem ser atribuídos de alguma forma a uma incapacidade de se autorregular”. Quando as crianças atingem a adolescência sem desenvolver a autorregulação, elas se tornam mais sujeitas a agressividade, abuso de substâncias como álcool e drogas, comportamento sexual de alto risco e pior performance acadêmica.

A capacidade de autorregulação se desenvolve principalmente na infância.

A capacidade de autorregulação se desenvolve principalmente na infância. À primeira vista pode parecer paradoxal, mas forçar obediência impondo condutas goela abaixo, pode prejudicar a capacidade da criança regular a si mesma. Isso acontece porque a autorregulação se desenvolve quando a criança escolhe não se comportar da maneira que ela gostaria, mas de formas que fazem parte do combinado com os pais, porque ela entendeu a necessidade de seguir tais condutas. A palavra escolha é chave aqui. Pais que usam do autoritarismo não deixam escolha para a criança. Ela se vê obrigada a engolir a frustração e se conformar aos desejos dos pais. O resultado é que filhos de pais controladores podem se tornar opositores, retribuindo a hostilidade dos pais, ou aprendem a submeter-se ao desejo do outro para serem aceitos. A criança que hoje se submete ao desejo dos pais para ganhar amor, amanhã se submeterá as exigências dos amigos, dos parceiros, etc. De fato, pesquisas mostram que filhos de pais controladores podem se tornar adolescentes mais vulneráveis à manipulação pelo grupo de amigos, e quando adultos têm maiores chances de se envolverem em um relacionamento abusivo.

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Existe uma grande diferença entre estar em controle e ser controlador. Pais que estão em controle estabelecem limites claros, mas permitem que a criança se expresse com relação a estes limites. Quando os pais escutam os filhos e explicam a razão do limite, os filhos sentem que os pais se importam. A partir daí, os filhos internalizam os limites, quer dizer, eles incorporam esses limites, adotando esses limites como seus. Eles seguem os limites não porque são impostos, mas porque eles acreditam que sejam importantes.

Além de escutar e conversar com a criança, é fundamental dar autonomia para que ela descubra estratégias para transitar com conforto dentro destes limites. Por exemplo, a criança pequena não pode tomar decisões que afetem limites como a hora de dormir ou a qualidade de sua alimentação. Mas ela pode escolher entre duas ou três alternativas de lanche saudáveis e qual história quer ler na hora de dormir. A criança que se sente conectada com os pais e que tem autonomia aprende a desenvolver estratégias próprias para funcionar dentro dos limites que os pais estabelecem – isto é autorregulação na prática.

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Ter acesso aos doces exigiu que conversássemos sobre as razões de não comê-los a qualquer tempo.

Quando a minha filha tinha 3 anos e meio, transferi para ela a responsabilidade de guardar os doces que ela ganhava nas festinhas. A regra em casa era que doces eram para fins de semana. Decoramos uma caixa de papelão com tintas e fitas, e ela decidiu que a caixa de doces ficaria dentro do armário dela. Quando ela tinha vontade de comer doces nos dias de semana, eu validava a vontade que ela sentia,  afinal doces são mesmo gostosos. Ter acesso aos doces exigiu que conversássemos sobre as razões de não comê-los a qualquer tempo. Aos poucos, a regra se tornou parte do repertório interno da Chiara, ela sabia sobre a importância de ter uma alimentação saudável, eu não precisava mais dizer. Ela negava doces dias de semana mesmo que eu não estivesse por perto. Ter acesso aos doces também exigiu que ela aprendesse estratégias para lidar com a vontade que às vezes surgia, e claro que eu ajudava na construção desse repertório. Ela descobriu que as frutas eram bons substitutos, aprendeu que deixar a caixa no cantinho do armário era melhor do que deixar à vista, e que encher a caixa de doces era muito gostoso também.

É claro que a Chiara poderia se esconder no quarto e comer a caixa inteira. Isso nunca aconteceu. Porque ela tinha a minha confiança, e orgulho desta responsabilidade. Porque as nossas conversas ensinaram para ela a importância de não comer doces a qualquer tempo. Porque ela descobriu estratégias que a ajudavam a não comer os doces, mesmo com vontade. Isto é autorregulação.

As crianças não nascem sabendo autorregular-se, então não adianta exigir que a criança aprenda esta habilidade sozinha. É preciso criar circunstâncias para o desenvolvimento da autorregulação. E para desenvolver esta habilidade, crianças precisam de carinho, compreensão, diálogo, apoio e confiança.

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Adriana Drulla é mestre em Psicologia Positiva pela University of Pennsylvania (Estados Unidos), facilitadora do programa americano Mindful Self-Compassion para o desenvolvimento da autocompaixão, pós-graduanda em Terapia Focada na Compaixão pela University of Derby (Inglaterra). Autora do artigo científico Intergenerational Transmission of Self-Compassion, que trata da relação entre autocompaixão e parentalidade, escrito com Karen Bluth, pesquisadora e autoridade mundial nos temas autocompaixão e adolescência. Mãe da Chiara, 9 anos, e do Matteo, 4 anos.

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