Assim como somos pais imperfeitos, temos filhos imperfeitos

"Aproximei-me e contei-lhe uma história. Uma história de uma mãe que no dia anterior feriu os sentimentos dos filhos e sentiu culpa", relata Adriana Drulla

Assim como somos pais imperfeitos, temos filhos imperfeitos; mãe segura filho no colo enquanto outro garoto abraça o irmão e a mãe
Adriana diz que para ajudar os filhos de verdade, precisamos nos conectar com os sentimentos deles, descendo "lá no fundo do poço também"

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Por mais que eu consiga, na maioria das vezes, não despejar meu estresse sobre quem não tem a ver com isso, erros são inevitáveis. E em uma sexta feira à noite, cometi um erro desses. Eu já estava bem estressada, era a semana da entrega da minha dissertação. E daí, as crianças fizeram algo que acionou um gatilho em mim. Eu não me lembro o que era, mas fiquei brava e falei um monte. Depois me senti mal. Os olhinhos entristecidos, os andares cabisbaixos, me encheram de culpa e tristeza. Pedi desculpas, assumi que fui injusta, reparei a conexão. Mas fui dormir com esse desconforto, uma tristeza que às vezes vem junto com a constatação de que nem sempre escolho racionalmente as minhas falas e atitudes. Claro que é possível progredir sempre quando o assunto é autorregulação, e neste sentido eu já progredi muito, mas a impulsividade da natureza humana naturalmente escapa aqui ou ali.

Então eu tirei o sábado para relaxar, e lia um livro enquanto meus filhos brincavam juntos na beira da piscina. E foi quando ouvi um berro seguido do choro da minha filha mais velha que entrou correndo para casa. Olhei para a cena e percebi que meu filho, de 4 anos, estava ainda na beira da piscina, braços cruzados, olhando para baixo, imóvel e com uma expressão de quem fez algo errado. Suspeitei que ele tinha machucado a irmã.

A razão chega atrasada

O sistema de alarme é o primeiro a interpretar situações desse tipo. É assim, a informação sonora do berro e visual da cena percorre dois caminhos no seu cérebro, um rápido e outro devagar. O caminho mais rápido aciona respostas fisiológicas e emocionais quase que imediatas e certamente automáticas. Antes que você seja capaz de ponderar sobre a situação, seu coração já está acelerado e você já está se movendo em direção à piscina para resolver a situação. Você ainda não sabe exatamente o que aconteceu, mas o sistema de alarme do seu cérebro já acionou o botão do pânico. Ou seja, para o seu cérebro isso já é uma emergência, você só não sabe ainda o porquê.

Descobrir o porquê é tarefa do segundo caminho. A nossa interpretação sobre eventos envolve outras áreas do cérebro, é um caminho mais longo e complexo e por isso demanda mais tempo. Ou seja, até que você entenda o que aconteceu, o sistema de alarme já foi acionado e você já está reagindo à situação. E muitas vezes de uma forma pouco produtiva. Um segundo problema é que o sistema de alarme já está acionado enquanto você tenta entender o que aconteceu, ou seja, ele interfere na forma que você interpreta os fatos. Quando estamos em estado de alarme nosso cérebro supervaloriza sinais que confirmam o perigo, ele exagera as nossas interpretações, nos deixa incapaz de ver sob uma perspectiva mais ampla, e nos motiva a encontrar o inimigo.

Então, no sábado, o meu sistema de alarme me pôs a caminhar em direção à piscina enquanto dizia que o inimigo era o meu filho. “Ele não pode sair impune, sem ao menos uma lição de moral”. “Ele precisa entender que não pode agredir as pessoas só porque está frustrado”. As ações dos filhos têm o poder de ultrapassá-los e atingir o nosso ego. A sociedade não ajuda, não falam muito bem sobre a reputação das mães cujos filhos crescem injustos e reativos.


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Desligando o botão do pânico

Meu sistema de alarme nunca foi bom conselheiro quando a pauta é relacionamentos. Mesmo quando ele acerta a respeito das pessoas, ele motiva reações exageradas e impulsivas, o famoso tiro no pé. Ao longo de várias décadas de vida, venho aprendendo a desligá-lo antes de agir. Não funciona sempre, por exemplo na noite anterior meu sistema já sobrecarregado se defendeu atacando as crianças com um falatório sem fim. Mas tenho evoluído com a prática. No sábado, eu cheguei na beira da piscina, e em vez de atacar meu filho em defesa da minha filha, eu sentei e respirei. A respiração acalma a fisiologia e comunica para o cérebro que não há perigo. Às vezes também coloco as mãos sobre o peito num gesto de apoio e suporte. Muitos estudos comprovam que o toque é um recurso que acalma a nossa fisiologia e nos ajuda a sentir seguros. A fisiologia da calma e segurança é primordial para que consigamos pensar com todos os nossos botões. E é só a partir daí que conseguimos ser nossa melhor versão.

Normalmente dá certo, mas às vezes não. O sistema de alarme é impregnado de emoções, urgência e intensidade. Regular esse sistema requer energia, que nos falta quando estamos cansados ou sobrecarregados. E quanto mais novo é o ser humano, mais desafiadora é a tarefa. Por isso, para o meu filho, controlar a vontade de agredir a irmã é infinitamente mais difícil do que a mesma tarefa seria para um adulto. A autorregulação depende, por exemplo, de circuitos neurais que só estão completamente desenvolvidos em torno dos 24 anos. Além disso, ela é resultado de treino e experiência. É preciso errar e acertar. A criança precisa de um adulto que a ajude construir repertório. E este adulto precisa entender que a autorregulação é um aprendizado.

Se o erro é inaceitável, admiti-lo não é uma opção

No sábado, eu respirei. Enquanto aguardava a calma e a razão, observava o meu filho em silêncio. Ele estava imóvel, cabisbaixo, encolhido no cantinho da piscina. Percebi que ele sofria com a culpa de ter machucado a irmã. Ele não queria me olhar, ele estava com vergonha. Vergonha é o que sentimos quando nos julgamos inadequados e inferiores e quando temos medo de que o outro nos veja desta forma também. E de certa forma é isso que fazemos quando reagimos ao mau comportamento da criança de forma julgadora, como se machucar a irmã fosse resultado de uma escolha racional. Quando condenamos a incapacidade da criança em regular os impulsos dela, como se fosse tarefa fácil, ela se sente inferior e inadequada. Contribuímos para ampliar esse sentimento de vergonha.

E isso é um problema porque a vergonha dificulta que a criança se responsabilize e aprenda com seus erros. Quando atacamos a criança por seus erros, comunicamos que eles são inaceitáveis. Então fica muito aversivo para a criança assumir o que fez, reparar suas atitudes e pedir desculpas. Vergonha é quando o erro diz algo tão ruim sobre você que você quer se esconder, sumir, responsabilizar ou agredir o outro, mentir se for preciso. Na vergonha, o foco da criança não é o outro, mas sim proteger a sua própria reputação.

Descendo no fundo do poço

Se você passar por uma crise conjugal para quem você vai ligar? Para um amigo que passou por isso no passado, ou para aquele outro que até hoje está em lua de mel? Para Brenée Brown, não conseguimos ajudar alguém que está no fundo do poço se insistirmos em ficar na superfície. Para ajudarmos de verdade, precisamos nos conectar com os sentimentos da pessoa, descendo lá no fundo do poço também. E foi isso que eu fiz naquele sábado. Olhando o meu filho em silêncio, enquanto respirava e esperava a calma, fui desligando meu sistema de alarme e entendendo o que tinha por trás daquela postura encolhida e cabisbaixa. Entendi que ele estava sofrendo da mesma dor que eu, quando na noite anterior, despejei sobre meus filhos o meu estresse. Ele estava sofrendo por não ter conseguido desligar o sistema de alarme, e por ter, impulsivamente, machucado uma pessoa que não merecia. Então, aproximei-me e contei-lhe uma história. Uma história de uma mãe que no dia anterior feriu os sentimentos dos filhos e sentiu culpa. Olhando nos seus olhos eu disse, “eu sei como é difícil estar no seu lugar agora”. Ele chorou muito e me abraçou diferente. Um abraço de gratidão e alívio por entender que o adjetivo ruim qualificava apenas a mordida que ele deu na irmã. Ele não era ruim, nem inferior. Ele errou porque é humano, a mãe dele erra também.

Transformando a vergonha em culpa

E foi aí que a vergonha se transformou em culpa. Culpa é quando nos sentimos mal por ter prejudicado ou machucado outra pessoa. A culpa não significa que somos ruins ou inferiores, apenas que cometemos um erro. Enquanto o foco na vergonha é a preservação da autoimagem, o foco na culpa é o sofrimento que causamos no outro. Refletimos sobre o que a irmã poderia estar sentindo, e como ele poderia ajudá-la a se sentir melhor. Ele anunciou que estava indo pedir desculpas e levar os pastéis favoritos dela que acabavam de sair do forno.

A culpa nos motiva a agir para reparar o dano ou a relação. Mas, mais do que isso, a culpa nos leva a escolher melhores comportamentos da próxima vez, comportamentos mais alinhados com as nossas expectativas e valores. Nesse sentido, ajudei explicando que para não fazer besteira, precisamos esperar as emoções difíceis passarem antes de agir. Contei que é uma tarefa difícil, mas que existem recursos que ajudam nesse sentido. Para mim, por exemplo, a respiração e o toque são bons recursos. Ele quis fazer a respiração algumas vezes. E em seguida me disse que sair de perto da irmã na hora da raiva poderia ser uma boa estratégia também.

Ele entrou para desculpar-se com a irmã. Depois soube que ele pediu para ver e cuidar do machucado. Naturalmente, o sistema de alarme ainda lhe dá rasteiras – ele só tem 5 anos. Mas meu filho nunca mais mordeu e em casa, é ele quem consegue reparar e assumir os erros mais prontamente.

Filhos imperfeitos precisam de mães imperfeitas

Ser mãe inclui ensiná-los a conviver com essa natureza humana que inevitavelmente irá decepcioná-los. Ser mãe é sobre ajudá-los a lidar com as decepções a respeito de si mesmos, com as partes de si que eles não escolhem. Ser mãe é sobre ensinar recursos para que os automatismos e a natureza impulsiva não lhes deem rasteiras tão graves. Ser mãe inclui ensiná-los a reparar seus erros sabendo que falhas não são prova de incompetência ou inferioridade, mas provas de que somos humanos. Naquela manhã de sábado, eu fui esta mãe porque consegui descer no fundo do poço junto com o meu filho. E eu só consegui fazer isso, porque eu estive lá também.


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Adriana Drulla é mestre em Psicologia Positiva pela University of Pennsylvania (Estados Unidos), facilitadora do programa americano Mindful Self-Compassion para o desenvolvimento da autocompaixão, pós-graduanda em Terapia Focada na Compaixão pela University of Derby (Inglaterra). Autora do artigo científico Intergenerational Transmission of Self-Compassion, que trata da relação entre autocompaixão e parentalidade, escrito com Karen Bluth, pesquisadora e autoridade mundial nos temas autocompaixão e adolescência. Mãe da Chiara, 9 anos, e do Matteo, 4 anos.