‘Amo errar; ontem, dei o remédio errado para a minha filha. Sou essa mãe’, afirma Lua Barros

Durante o 2º Congresso Internacional de Educação Parental, Lua e o marido, Peu Fonseca, falaram sobre a importância dos erros e transformações no processo de criação dos filhos. O papel do educador parental e a necessidade de se discutir temas como gênero, política e machismo na relação do casal também fizeram parte da conversa

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O casal Peu Fonseca e Lua Barros, que é educadora parental
Peu Fonseca e Lua Barros durante 2º Congresso de Educação Parental/ Foto: Dani Ortiz

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“Eu amo errar, ontem por exemplo, eu dei o remédio errado para a minha filha, eu sou essa mãe, parto desse princípio, não sou responsável por tudo, nem por minha casa, nem por minha vida. Errar é parte desse processo, de inspirar, porque se você faz tudo certo, o tempo todo, parece que é de plástico, não se molda, não se arranha, não se mistura”, declarou a educadora parental Lua Barros. Ela e o marido, Peu Fonseca, que é escritor, fotógrafo e co-fundador da Rede Amparo, participaram da palestra de abertura do 2o Congresso Internacional de Educação Parental, logo depois do casal Marcos Piangers e Ana Cardoso.

Para Lua, a referência ao aprendizado contínuo, que prevê erros e acertos, é fundamental na criação dos filhos. Não ter as respostas para tudo também faz parte desse processo e ter essa consciência pode ser maravilhoso: “É libertador quando mães e pais dizem aos filhos que não sabem algo e que são eles, os filhos, que sabem o que cabe na vida deles”, disse a educadora parental.

Peu lembrou que a famíia perfeita não existe, a não ser nos comerciais de TV, hoje transpostos para as redes sociais. “Antigamente, a gente falava ‘família Margarina’, hoje tem a ‘família Instagram’, mas como faz para se apoderar das verdades difíceis e dolorosas que acontecem na rotina da gente?”, perguntou o palestrante. Para ele, na convivência entre o casal e em família, todo mundo tem algo para ensinar e aprender, crianças e adultos, e isso vale também para a educação parental. “Não há possbilidade de um educador entrar na vida de alguém para dialogar sem se doar, a gente, como educador, também é parte dessa vida”, declarou.

Peu citou o conhecido ditado africano: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, que destaca a importância da rede de apoio na criação de um filho, para dizer que é preciso desconstruí-lo, inverter o sentido da frase. “Só consigo pensar que a vila precisa das crianças, são elas a grande engrenagem que sustentam a sociedade, que geram desconforto, nos fazem mudar e nos permitem aprender”, complementou Lua.

Para ela, falar sobre educação parental exige abordar a relação entre o casal e a sobrecarga da mulher na família. “Esse é um ponto difícil, delicado, porque fomos socializados de maneira a crer que a mãe é responsável sozinha pela criação dos filhos, mas a gente só vai poder dialogar sobre transformações nas relações familiares quando a gente se associar ao pensamento que precisa combater e falar sobre patriarcado, opressões e gêneros. Não dá para separar uma coisa da outra”, pontuou a palestrante.

Ela ressaltou a importância do educador parental estar bem informado, ler livros como os da Disciplina Positiva, que fornece ferramentas para melhorar a relação com a criança. “Mas precisa também conversar sobre gênero, política, machismo, patriarcado e masculinidade tóxica. Quem achar esses temas chatos, desagradáveis, polarizados, então tira o crachá, desiste, vai fazer bolo. A mudança dá um trabalho danado e vai exigir da gente transformações diárias. É preciso convidar o casal a pensar sua própria relação e, a partir desse núcleo, como organizar as crianças, que, como dissemos, são a grande engrenagem que dá suporte à sociedade. É muito bonito pensar sobre isso, eu não fico cansada diante dessa perspectiva, fico animada”, declarou Lua.


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