Depressão perinatal: o adoecimento psíquico da concepção ao pós-parto

Segundo especialistas, medos, dificuldades e incertezas na pandemia fizeram ainda mais mulheres sofrerem, mas há tratamento para essa vulnerabilidade psíquica

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Depressão pós-parto - agora chamado perinatal, visto que se inicia durante a concepção do bebê - traz medos, dificuldades e incertezas; mulher grávida deitada na cama segura lencinho com a mão perto do nariz
A psiquiatra Vera Tess diz que é possível saber, já durante a gravidez, se a mulher terá depressão pós-parto

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No período de pré concepção, concepção, gestação, parto e pós-parto a mulher aumenta o risco de adoecimento psíquico em até setenta vezes, afirma a psicóloga perinatal, puerperal e familiar Daniela Bittar. Essa visão mais completa do turbilhão de emoções da mulher ao longo do período tem feito com que especialistas revisem o termo depressão pós-parto e o substituam para depressão perinatal. “É preciso observar a gestação como um todo. A mulher que tem depressão pós-parto, provavelmente já estava deprimida durante a gestação”, esclarece a psicóloga.

“A partir do momento que começamos a investigar este período e os médicos passaram a fazer perguntas básicas no pré-natal ao longo da gestação, começamos a observar que este também é um período suscetível a doenças mentais. Por isso é preciso olhar tanto para a gestação quanto para o período puerpério e um ano de pós-parto. Desta forma surgiu o termo depressão perinatal. Inclusive já existe essa subárea na psiquiatria. É possível prever já durante a gravidez que a mulher terá a depressão pós-parto”, explica a psiquiatra Vera Tess, coordenadora do ambulatório de psiquiatria de gestantes e puérperas do Hospital das Clínicas em São Paulo.

De acordo com Daniela Bittar, a disfunção hormonal presente neste ciclo da concepção ao pós-parto faz com que a mulher tenha o maior índice de vulnerabilidade psíquica. “É preciso distinguir o baby blues da depressão pós-parto. O baby blues é uma característica natural da função fisiológica do parto, decorrente da queda hormonal brusca que ocorre na hora do nascimento. Ele atinge cerca de 80% das mulheres e pode durar até três semanas, no máximo. É muito natural a mulher ter o baby blues, mas tem começo, meio e fim. Se passar disso, o quadro passa a ser de depressão pós-parto”, explica a psicóloga.

Uma tristeza estranha, um turbilhão de emoções que chegam sem avisar, sentimento de angústia e impotência: todos esses podem ser alguns sinais da depressão. A intensidade e a duração desses sentimentos podem ser sintomas da depressão pós-parto. Segundo pesquisa divulgada pela Fiocruz, a doença psíquica atinge uma a cada quatro mulheres no Brasil. 

A psiquiatra Vera Tess afirma que não existem estudos confiáveis sobre aumento do número de grávidas com depressão perinatal na pandemia, mas é perceptível que o medo, as incertezas e as dificuldades financeiras levaram ao  aumento do número de pacientes.

A decisão de tomar remédios

A engenheira Pamela Giacomeli, 37, conta que quando sua filha nasceu precisou tomar remédios. “Tive uma gestação muito saudável, mas tenho histórico de depressão na família. Fiquei muito ansiosa e não consegui relaxar. Pensei que eu estava passando pelo baby blues, mas depois deste período eu fiquei cada vez mais nervosa e ansiosa, chorava muito e ficava muito triste. Quando minha filha fez três meses eu percebi que havia algo estranho. Por isso, marquei um psiquiatra, tomei medicamentos, comecei a fazer psicoterapia. Continuo tratando até hoje”, relata Pamela.

A psicóloga Daniela Bittar explica que a depressão pós-parto ou depressão perinatal não é apenas uma fase difícil que a mulher tem a obrigação de dar conta, e sim uma disfunção bioquímica. Uma mulher que está há meses com o emocional fora de controle, sem condições de cuidar da própria saúde, alimentação, vida pessoal e profissional deve procurar ajuda. ” 

O papel da família e dos amigos também é essencial. Eles precisam perceber quando a mulher está dando indícios de que não está bem, se sentindo constantemente angustiada e sem condições de cuidar do filho sozinha. “A depressão pós-parto não necessariamente passa, às vezes dura anos e pode levar a mulher a outras doenças psíquicas”, acrescenta a psicóloga.

A jornalista Christiane Finger, 40, conta como foi essencial a ajuda dos amigos e familiares. Ela percebeu sintomas estranhos logo após o nascimento da sua segunda filha. “Senti muita ansiedade e pensamentos negativos. Como a minha filha era mais agitada, pensei que fosse só um cansaço. Porém, um dia passei muito mal e a madrinha dela me levou para o hospital. A partir daí comecei a usar medicação e fazer acompanhamento psicoterápico.”

Os efeitos negativos da pandemia

Segundo os especialistas, a pandemia tem sido de fato um agravante para as grávidas e puérperas. “Os resultados da pandemia ainda serão vistos no futuro, pois as mulheres estão engravidando em um momento de muito medo e incertezas. Nós, profissionais da saúde, estamos notando que as mulheres estão ainda mais impotentes na gestação, o que aumenta a possibilidade de haver uma depressão perinatal”, alerta a psicóloga Daniela Bittar.

A estudante Brenda Limeira, 28, sentiu as emoções à flor da pele logo após o nascimento do seu segundo filho em julho do ano passado. “A pandemia me deixou muito preocupada e insegura. Moro no interior do Pernambuco e passei toda a gestação em isolamento social. Tinha medo de ficar sozinha, chorava muito e não conseguia explicar o que eu estava sentindo. As pessoas achavam que era frescura. Foi quando me informei melhor sobre o assunto, nas redes sociais, e procurei a ajuda de um especialista”, conta.

A professora de música Ana Carolina Félix, 34, engravidou do segundo filho em julho do ano passado. Com um bebê de apenas três meses, ela ainda convive hoje com a depressão. “Com certeza a pandemia contribuiu muito para piorar o meu estado emocional. Eu não podia receber visitas e tinha dificuldade para fazer o pré-natal. No pós-parto eu tinha medo de levar o meu bebê ao médico e contaminá-lo com o vírus”, relata a professora. 

A psicóloga Daniela Bittar diz que a depressão perinatal ainda é negligenciada, inclusive por obstetras e pediatras. “Temos duas vezes mais depressão perinatal do que diabetes gestacional no Brasil. No entanto, os especialistas não se preocupam com a depressão.” 

Teste para avaliar a depressão

Existe um teste simples para prevenir a depressão perinatal que revela se a mulher tem predisposição à depressão ou se ela está deprimida. “Esse teste poderia fazer com que muitas mulheres tivessem tratamento adequado durante a gestação caso elas tenham propensão a ter a doença”, lamenta Daniela. O teste poderia ser feito no SUS, diz a psicóloga. Ele mostra a predisposição para a depressão. É um teste de múltipla escolha, simples. Segundo ela, lamentavelmente os médicos não falam sobre o teste e não o aplicam.

A psiquiatra Vera Tess também defende a aplicação do teste. “O maior fator de risco para a depressão pós-parto é não estar bem na gestação. Todo pré-natal deveria incluir perguntas sobre a saúde mental da gestante, o que não acontece normalmente”, explica a psiquiatra

Quanto mais cedo a mulher for diagnosticada, mais eficaz será o tratamento. Além disso, a depressão pós-parto pode ter consequências graves no futuro. “Os filhos de uma mãe que não trata a depressão perinatal muito provavelmente terão sintomas. As mães podem ter dificuldades de estabelecer vínculos com os bebês e isso pode ter consequências graves para o resto da vida.”, lamenta Daniela Bittar.

Diagnósticos tardios e tratamentos na gestação

A doula Ana Luiza Morais, 40, tem quatro filhos e hoje entende que teve uma depressão não diagnosticada desde o primeiro filho de onze anos. “Depois do meu quarto filho eu busquei tratamento com especialistas. Eu cheguei a sentir dores físicas, passei mal e fui levada ao hospital. Quando cheguei lá os médicos constataram que era uma crise de ansiedade. O meu filho estava com seis meses de idade. Talvez se eu tivesse tratado a depressão desde a primeira gravidez não teria deixado o quadro se agravar tanto.”

Sobre o tratamento, a psiquiatra Vera Tess assegura que os quadros mais graves de depressão têm total indicação para o uso de medicação. “É claro que é um quadro delicado por estarmos lidando com no mínimo duas vidas, mas essa ideia de que as medicações são ruins e prejudiciais à mãe e ao bebê é ultrapassada. A regra até cerca de dez anos atrás era suspender a medicação das gestantes. Porém, atualmente isso é uma má conduta. Existem muitos medicamentos que podem ser administrados durante a gravidez, durante o período puerpério e pós-parto.”

“Existem medicamentos muito seguros. Temos que derrubar o mito de que uma lactante não pode ser medicada. Não é verdade. Existem muitos medicamentos que podem ser tomados tranquilamente. Não se tira e nem se interrompe medicamento psiquiátrico na gestação”, afirma Daniela Bittar. Segundo a psicóloga, não tem como tratar uma depressão perinatal sem medicamentos, em baixas dosagens, geralmente. A medicação deve ser acompanhada também de tratamento psicoterapêutico.

Administradora e jornalista com experiência em TV e mídias sociais. Na faculdade foi monitora do laboratório de TV e atuou como repórter na Oficina da Mídia. É apaixonada por crianças e pelo universo infantil, além de ser tia do casal de sobrinhos Pedro e Maria.

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