Educador parental: quem é esse profissional e qual a sua importância para as famílias e a sociedade

Nos bastidores do 2o Congresso Internacional de Educação Parental, 15 especialistas falam sobre como esse educador pode ajudar os pais na difícil missão de educar os filhos

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Se antes a criação dos filhos era feita de forma intuitiva, hoje já é possível contar com a ajuda do educador parental nessa desafiadora tarefa de educar as crianças. O papel desse profissional é fundamental para orientar os pais a construir um vínculo saudável e duradouro com os filhos e manter a família conectada. Não à toa, o educador parental vem ganhando cada vez mais espaço na sociedade. É o que mostra o 2o Congresso Internacional de Educação Parental, que reuniu 27 especialistas no assunto, entre psicólogos, psiquiatras, pedagogos e outros profissionais, para falar sob diversos aspectos da parentalidade. Nos bastidores do evento, a Canguru News, uma das realizadoras do congresso, entrevistou 15 palestrantes para que explicassem a relação da educação parental com as famílias, escolas e educadores. A seguir, reunimos em vídeo e texto os principipais trechos dessas entrevistas. Confira.

Estudar para ser pai e mãe

Isa Minatel | Foto: Divulgação

“É preciso estudar para ser pai e mãe. Se a gente nasceu humano, quanto mais a gente entender do ser humano, mais fácil vai ser essa relação. (A educação parental) é algo que me traz muita esperança, acho que a gente ainda está numa bolha, se a gente olhar a pirâmide de mães e pais no nosso país, a gente sabe que quem está consciente do que significa a educação parental é um topozinho pequeno dessa pirâmide, mas à medida que essas pessoas vão se conscientizando, se sensibilizando com esse assunto e disseminando informações, a gente vai mudando o mundo, ou, pelo menos, mudando o nosso mundo, nossa família, nossa prática, o mundo de quem está perto da gente, e isso faz muito diferença.” Isa Minatel, psicopedagoga e escritora.

Ajudar na conexão das famílias

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Iara Mastine | Foto: Dani Ortiz

“Muitos pais acabam falando ‘Por que estudar para ser pai, se na minha época não tinha isso?’ Naquela época havia outras vertentes que acabavam contribuindo para a educação parental, por exemplo, a gente aprendia a ser paciente porque esperava um programa de TV um dia depois do outro, frequentava filas, não tinha compras pela internet, não tinha parâmetro muito rápido, do tudo para o agora. A gente vivia aprendendo pelo estilo de vida alguns valores que hoje estão sendo deixados para trás. Hoje os pais estão em busca dessas orientações, dessa educação parental, para conseguir encaixar os próprios valores, olharem para dentro deles e conseguir orientarem sua familias de uma maneira mais respeitosa, eficaz e eficiente, porque a gente tem esse desafio, há famílias conectadas e famílias desconectadas, e a educação parental esta crescendo”. Iara Mastine, psicóloga infantil e neuropsicóloga.

Relação positiva com os estudos

A neurociência como aliada da educação: Roberta e Taís Bento ensinam a driblar as dificuldades no processo de aprendizagem
Roberta e Taís Bento ensinam a driblar as dificuldades no processo de aprendizagem /Foto: Dani Ortiz

“A gente vê a educaçao parental com algo essencial no mundo de hoje, pra facilitar a vida dos pais e permitir que os filhos cheguem e atinjam seu potencial máximo, ainda mais no dias de hoje, em que a gente pensa que aquela vila que é essencial para que os filhos sejam criados, não existe mais. Não tem como olhar para trás e ver como os avós fizeram quando eles eram crianças. Precisa mesmo de um educador parental pra conseguir ajudar essa família a orientar o filho, educar esse filho a ter um bom relacionamento de parceria com a escola, para que o filho atinja seu potencial máximo”, destaca Thaís Bento, educadora e fundadora do SOS Educação, em parceria com a mãe, Roberta Bento.

A mãe, Roberta Bento, complementa: “E para tirar das famílias, principalmente, das mães, o peso da culpa, de achar que nada dá certo, que acaba gerando um círculo vicioso em que a família toda vai ficando num clima mais pesado e isso torna a relação dos filhos com os estudos ainda mais difícil. Quando a gente consegue colocar a figura de uma pessoa nessa relação família-escola com uma visão mais ampla, mas ajudando os pais a ajustarem de acordo com contexto em que eles vivem, o que é possivel fazer para tornar mais leve a relação da família e a relação da criança com os estudos, todo mundo sai ganhando com isso. (…) Se a criança desde pequena tem uma relação positiva com os estudos, todos nós ganhamos com isso.” Roberta Bento, educadora, especialista na relação família-escola e uma das fundadoras do SOS Educação.

Dialogar com as famílias

O casal Peu Fonseca e Lua Barros, que é educadora parental
Peu Fonseca e Lua Barros durante 2º Congresso de Educação Parental/ Foto: Dani Ortiz

“Eu adoro pensar na possibilidade da ampliação do diálogo sobre aquilo que a gente acredita que a gente sabe, então nessa perspectiva, a gente pensar sobre o que é a educação parental, me parece algo urgente, importante, porque uma vida cheia de certezas ou com a repetição daquilo que a gente achava que era e como a gente achava que era, talvez seja uma vida de muitos conflitos, eu entendo que o educador parental é alguém que dialoga com as famílias e expande a possibilidade da família de se relacionar com aquela criança e de como aquela criança se relaciona com o mundo, e tem uma cadeia muito interessante, muito rica.” Lua Barros, educadora parental e co-fundadora da Rede Amparo.

“Eu vejo na educação parental uma chance, primeiro, de subverter a lógica de como a gente entendeu a educação desde a revolução industrial pra cá. Se a gente pensar num ambiente educacional, as escolas são muito parecidas com prisões e manicômios. Acho que subverter essa logica do que é esse processo de educação é um dos primeiros pilares, que é o entendimento de espaço de troca onde, numa relação familiar, numa relação onde há cuidado possível, a gente entende que todo mundo ocupa o lugar de aprendiz. E o segundo pilar, no parental, é perceber a força que tem, não quando traz na coisa da raiz, do anglicismo da expressão, parenting, mas quando vem para o nosso bom português, pensa na perspectiva dos pares que são núcleos da relações familiares, independentemente da conformação que tenha – mãe/mãe, pai/pai, mãe/pai, pai/mãe/mãe, mãe/pai/pai – mas desses pares que se assemelham, se aliam e buscam transformações profundas no núcleo familiar entendendo que isso vai ter impacto na sociedade, isso para mim é a grande pista da educação parental.” Peu Fonseca, co-fundador da Rede Amparo.

Formar para a função mais importante da vida: a paternidade

O psiquiatra Wimer Bottura falou sobre o período da adolescência
O médico Wimer Bottura falou sobre a importância das relações familiares / Foto: Divulgação

“A gente é treinado para ser jornalista, enfermeiro, barbeiro, médico, engenheiro, mas nunca fomos treinado para a função mais importante da vida que é a paternidade. O que é mais importante na vida de quem tem filhos? São os filhos. (…) Por que o curso de educação parental é fundamental? Por que estamos fazendo a coisa mais importante da mudança da historia. A sociedade já inventou o fogo, o ferro, a bússola, o navio, tudo para melhorar, mas melhorou muito pouco. Agora quando se descobre a função da paternidade, estamos descobrindo o que vai mudar o mundo para o resto da história nossa. Nos últimos 30 anos, começou a se descobrir o mais importante que é o “como” da paternidade, como dialogar.” Wimer Bottura Júnior, médico psiquiatra e psicoterapeuta.

Relação escola-família

Bete Rodrigues
Bete Rodrigues | Foto: Divulgação

“Os pais assumiram que precisam de ajuda em relação à criação dos filhos. Ficou nítido tanto para os pais, que puderam entrar na sala de aula dos filhos, quanto para os professores, que entraram nas casas dos alunos, que essa relação entre escola e família é fundamental e ela só vai existir bem quando pais também assumirem a sua função parental, porque infelizmente, muitas vezes, pais e mães de tão ocupados acabam não participando tanto do crescimento, da educação de seus filhos e acho que a pandemia trouxe consciência da alegria e da dor, da importância de seu papel, do quanto nós somos exemplos para nosso filhos, o quanto no dia a dia temos oportunidade de desenvolver uma maior conexão.” Bete Rodrigues, consultora educacional, co-tradutora de sete livros sobre disciplina positiva e uma das principais referências no assunto no país.

Investir na criança e em quem cuida dela

As psicólogas Maria Beatriz Linhares e Elisa Altafim em palestra sobre programas de parentalidade
Maria Beatriz (de pé) e Elisa Altafim (sentada à direita) falam da importância dos programas de parentalidade para garantir o desenvolvimento pleno das crianças | Foto: Divulgação

“A educação parental é fundamental não só nos dias de hoje, desde sempre. Quando falamos em criança, especialmente crianças de primeira infância, 0 a 6 anos, temos que ter o alicerce desse micro sistema: família. E dentro da família a questão da função parental, parentalidade, é essencial para um desenvolvimento adaptativo, saudável (…) “Pais que têm função da parentalidade precisam ser apoiados. Esse é um papel essencial para que possam impactar em diferentes gerações. Quando a gente faz um investimento na função parental, na interação com essa criança, nas práticas educativas com essa criança, estamos fazendo um efeito multiplicador do ponto de vista da proteção no desenvolvimento de uma coletividade. Esse é o investimento mais sustentavel que podemos fazer. Investir na criança e naquele que cuida da criança.” Maria Beatriz Linhares, psicóloga, professora e pesquisadora do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da USP/Ribeirão Preto.

“A primeira infância é uma janela de oportunidades para o desenvolvimento da criança. E pais e cuidadores que exercem a função parental são o primeiro núcleo social da criança, então, quando a gente ajuda pais a cuidarem e educarem seus filhos, a gente está também fortalecendo o desenvolvimento da criança.” Elisa Altafim – psicóloga, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Mental da Faculdade de Medicina da USP/Ribeirão Preto.

Focar nas competências socioemocionais

Priscila Boy
Priscila Boy | Foto: Divulgação

“A educação parental tem pontos em comum com o currículo normativo na escola, chamado BNCC (Base Nacional Comum Curricular). O documento traz competências sociemocionais como algo que deva ser trabalhado com os alunos como um direito dele. É um direito do aluno ser visto como um ser humano integral. E a educação parental traz elementos dessas competências socioemocionais que podem ser potencializadas no trabalho em parceria com escolas, não somente junto aos alunos, mas também junto às famílias. Então há muitos pontos em comum entre aquilo que a escola deve desenvolver como normativa e aquilo que a educação parental pode proporcionar nesse currículo que é normativo. Priscila Boy, pedagoga, consultora educacional

Link entre o papel do professor e o papel dos pais

Iolene Lima dando palestra no 2º Congresso Internacional de Educação Parental
Para pedagoga Iolene Lima, a missão dos educadores ‘é acolher pessoas’ /Foto: Dani Ortiz

“Não tem como falar de educação sem falar de parentalidade. Educação e parentalidade estão associadas E eu, como pedagoga, não podia deixar de fazer o link entre o papel do professor atrelado às questões da parentalidade, misturando ai um pouco de neurociencia.Educação parental para toda a comunidade.” Iolene Lima – pedagoga e formadora de professores

Educação parental para toda a comunidade

Pró-Família: metodologia que promove a educação pelo afeto e suporte; Jessyca Nascimento dando palestra no 2º Congresso Internacional de Educação Parental
Jessyca Nascimento durante palestra no 2º Congresso Internacional de Educação Parental/ Foto: arquivo pessoal

“Nós acreditamos fortemente que educação parental é para todos. Não só para pais, propriamente ditos, mas para toda a comunidade, que de alguma forma impacta no processo educacional de uma criança. Temos muitas histórias de sucesso de famílias que se viam apartadas do processo de aprendizagem dessas crianças e por meio de um diálogo, de um trabalho de corresponsabilidade, mas também de orientação, de como agir em relação à educação das crianças, se tornaram fortemente apoiadores do trabalho do professores e gestores escolares.” Jessyca Nascimento – especialista em psicologia de aprendizagem, gerente executiva do Vitae Brasil

O engajamento dos pais

Psicólogo Cristiano Nabuco, durante palestra no 2o Congresso Internacional de Educaçã Parental
Psicólogo Cristiano Nabuco durante apresentação “Tecnologias de mais, tecnologias de menos”/ Foto: Dani Ortiz

“Existe uma autor que gosto muito dele, é um pediatra, Michael Rich, de Harvard, do laboratório de bem-estar digital. Ele dizia que, durante muitos anos, os orientadores afirmavam que em respeito ao uso de tecnologia os pais tinham que fazer um papel de supervisão parental, em inglês eles chamam isso de “pais helicópteros”. Hoje essa questão caiu, a ideia que se tem é que os pais têm que ter engajamento parental, então, da mesma maneira que o filho chega em casa e diz que vai dormir na casa de um amigo ou vai sair, você pergunta quem é, pra onde ele vai, de onde você o conhece, à medida que seu filho também vai usar plataformas, sente ao lado dele, converse com ele, desenvolva uma consciência crítica, porque só nesse momento em que você preenche essa lacuna, que seu filho não vai buscar na tecnologia aquilo que ele não acha em casa. Quanto mais parentalidade, menor o risco dos filhos se engajarem num uso problemático ou até descontrolado.” Cristiano Nabuco, psicólogo e coordenador do grupo dependenciadeinternet.com.br, do Hospital das Clínicas de São Paulo

O impacto nas famílias

Leiliane Rocha, psicóloga, fala sobre educação sexual
Leiliane Rocha, psicóloga, falou no 2º Congresso Internacional de Educação Parental sobre educação sexual e a necessidade de quebrar tabus / Crédito: Dani Ortiz

“O educador parental que estuda sobre a sexualidade humana, e principalmente a educação sexual infantil, ele é diferenciado e vai impactar muito mais as famílias. (…) As crianças estão sozinhas nas mãos de pornógrafos abusadores, que estão trabalhando em conjunto e unidos. Há uma união para destruir, mas não há uma união para construir e manter”, diz a psicóloga Leiliane Rocha, especialista em sexualidade humana.


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