Quanto maior o engajamento dos pais, menor o risco da criança ter problemas com tecnologias

O psicólogo Cristiano Nabuco explica como o tempo descontrolado na internet pode gerar graves prejuízos à saúde das crianças. Ele também dá sugestões de como combater esse mal. "Os pais precisam criar consciência", diz

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Psicólogo Cristiano Nabuco, durante palestra no 2o Congresso Internacional de Educaçã Parental
Psicólogo Cristiano Nabuco durante apresentação "Tecnologias de mais, tecnologias de menos"/ Foto: Dani Ortiz

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Em estado de choque. Essa talvez seja a melhor forma de definir como estava a plateia ao fim da palestra “Tecnologias de mais, tecnologias de menos”, do psicólogo Cristiano Nabuco, no segundo dia do 2o Congresso Internacional de Educação Parental. A quantidade de informações e dados apresentados sobre os estragos à saúde mental das crianças que usam em excesso a internet são de deixar qualquer mãe e pai angustiados. Ainda mais em época de pandemia, quando ocorreu um aumento significativo no tempo de telas dos pequenos.

“Mais tecnologia necessariamente não está nos auxiliando, estamos sendo controlados a consumir e fazer o que não desejamos na web”, afirmou Nabuco, que coordena um grupo de atendimento de pacientes de dependentes em tecnologia, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo.

Ferramentas como os “likes” das redes sociais podem ativar áreas do cérebro responsáveis pela sensação de prazer e funcionam como motivadores de novos posts e mais tempo de navegação, destacou o psicólogo. Ele citou um estudo que mostra como o Facebook é tóxico, em especial, para meninas – aquelas que passam mais de 3 horas por dia na rede, aumentam em 75% a chance de condutas auto-lesivas. Por discordar das condutas e políticas de engajamento da plataforma, Nabuco diz que cancelou o seu perfil nessa rede.

“Eu recentemente cancelei minha conta do Facebook. Não vou ficar alimentando isso. Você passa a viver num mundo onde a aparência é mais importante. Na Grécia antiga, importava seu grau de conhecimento. Na idade média, não importava o que você era, mas o que você tinha. E hoje? Não importa o que você pensa, ou o que você é, mas o que você aparenta. E as redes sociais sabem disso.  É uma busca contínua por notoriedade”, lamentou Nabuco.

Para ele, é perigoso o fato de nos acostumarmos a esse “mundo paralelo, onde tudo dá certo. Tem frustração? Vem a dopamina… ou seja, lá eu sou alguém”, disse ele, referindo-se ao neurotransmissor que quando liberado provoca experiencias prazerosas e está relacionado às emoções e processos cognitivos.

O especialista faz um alerta para a tendência dos jovens quererem ficar igual aos filtros e lembra das consequências emocionais que o vício da internet pode trazer.

“A internet melhora a nossa imagem; modula o nosso humor; diminui a sensação de isolamento, porque dá senso de pertencimento; e compensa os momentos chatos com estímulos constantes ao cérebro”, pontua Cristiano Nabuco.

Nabuco mostra dados sobre número de horas que as crianças passam na internet e o equivalente em tempo de estudo | Foto: Divulgação

Menos QI, menos leitura e mais acesso às redes sociais

Nabuco citou uma pesquisa da revista americana “Sleep”, feita com crianças de até oito anos, que revelou que 50% desse público acorda pelo menos uma vez à noite para olhar as redes sociais.

Sobre o excesso de tempo nas telas, relatou que uma criança de 2 anos, que usa a internet diariamente por 50 minutos, equivale a 600 horas/ano, a mesma carga horária de um ano de ano escola infantil .

Já crianças de 2 a 8 anos que usam a internet por cerca de 3 horas diárias, ao chegar aos 8 anos, terão passado o equivalente na web ao tempo de seis ou sete ano de estudos.

“As crianças de hoje fazem parte da geração digital, estão expostas à tecnologia desde o nascimento. Elas digitam rápido, acessam várias plataformas ao mesmo tempo e dificilmente se desconectam. O que é muito grave, se lembrarmos que até os 25 anos, o jovem não tem controle da impulsividade, ele é muito mais propenso a fazer coisas que não gostaria”, disse Nabuco.

Para o psicólogo, a habilidade de uma criança em manusear um tablet não deve ser valorizada. “Uma mãe veio me contar orgulhosa da filha que já demonstrava domínio com o dispositivo, mas isso não é em hipótese alguma sinal de inteligência, deve sim ser visto como algo extremamente preocupante”, ressaltou o especialista.

Ele alardeou que a esfera intelectual está se modificando – há estudos que mostram que o QI desta geração é inferior ao de gerações anteriores – os jovens hoje já não leem mais. “Segundo um estudo, apenas 16% de 40 mil pessoas entrevistadas disseram ler palavra por palavra, o restante apenas escaneava o texto. Isso devido aos hábitos adquiridos com a leitura em telas, no chamado modelo “F” de leitura rápida”, disse Nabuco, referindo-se à prática de ler duas faixas horizontais seguidas por um movimento vertical.

O que os pais podem fazer para combater o uso excessivo de tecnologias

“Os pais precisam criar consciência, despertar a atenção das crianças quanto à forma, à função e o uso da internet. É importante lembrar dos efeitos deletérios e garantir períodos de distanciamento dos aparelhos eletrônicos”, afirmou Nabuco.

Ele também destacou a necessidade dos pais exercerem o controle de tempo do uso de telas pelas crianças. E lembrou de uma frase dita por uma professora americana do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Sherry Turkle, que afirmou que “a tecnologia entra na vida das pessoas quando as relações humanas não ocupam seu devido lugar”.

“Ninguém é contra o uso, mas a favor de uma utilização inteligente da tecnologia”, destacou o psicólogo. Para ele, não se trata de supervisionar as crianças, mas sim de praticar o engajamento parental.

“Da mesma maneira que filho chega em casa e diz que vai dormir na casa de um amigo ou vai sair, e você pergunta quem é o amigo, de onde ele o conhece, ao usar as plataformas, os pais precisam sentar ao lado da criança e conversar com ela, orientá-la de forma a que desenvolva uma consciência crítica, porque só nesse momento em que eles preenchem essa lacuna, é que o filho não vai buscar na tecnologia aquilo que ele não acha em casa. Quanto mais parentalidade, menor é o risco do filho se engajar num uso problemático ou até descontrolado da internet”, concluiu Nabuco.


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