‘Setembro amarelo’ reforça importância de conscientizar pais sobre suicídio

Falar sobre isso ajuda a identificar na criança ou no adolescente os sintomas iniciais de uma depressão – e, assim tratá-la desde o começo

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Depressão nas crianças: como identificar para evitar chegar ao suicídio; na imagem, garota negra está sentada no chão com costas no sofá e cabeça sob os joelhos dobrados
A depressão nas crianças se destaca pelas seguintes emoções: tristeza, desesperança, culpa e medo

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Setembro é conhecido como “Setembro Amarelo”, o mês de prevenção ao suicídio. Prevenir um suicídio é algo amplo. Podemos prevenir não deixando que a depressão nas crianças chegue, conhecendo em quais situações é mais provável que ela aconteça, e aprendendo a identificar logo no início e tratar da maneira mais adequada.

Todos os anos, profissionais da saúde mental se empenham em abordar esse assunto tão delicado e tão real. Este ano a preocupação com esse tema é ainda maior. Nós estamos vivendo uma situação de estresse há 6 meses. Estar em uma pandemia é mais complexo que viver algo que nunca vivemos, é viver isso por um longo tempo.

Sempre que estamos em uma situação de ameaça ou perigo, é como se o cérebro ligasse nosso modo sobrevivência e nos preparássemos para lutar ou fugir. Esse modo de luta e fuga vem acompanhado de várias mudanças no nosso organismo, como liberação de adrenalina, cortisol e noradrenalina. Esses hormônios são essenciais para enfrentar a ameaça. Pupilas dilatadas, aumento dos batimentos cardíacos, tensão muscular, alteração da nossa circulação sanguínea priorizando braços e pernas (lutar ou fugir, né?), alterações no sono, (já que precisamos estar mais alertas). Tudo isso mostra a perfeição do corpo humano, mas pense que esse sistema está ligado, em nós e em nossos filhos, desde Março.

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Além disso, estamos privados de encontrar as pessoas que amamos, nossa vida social está limitada, muitos diminuíram a atividade física, ou se a mantiveram, não a estão praticando em grupo em um lugar prazeroso. Além disso, a alimentação também pode ter piorado, não estamos tomando sol, nosso lazer está diferente e aumentamos nosso tempo de tela. Isso significa que nosso ambiente provavelmente não está favorável ao bem estar.

Se você olhar bem para esse contexto, temos duas emoções predominantes: medo e tristeza. O medo está conectado à sensação de ameaça e à tristeza, pelas perdas que vêm com o isolamento. O que muitas pessoas não sabem é que sentir medo/ansiedade por muito tempo também é um caminho que pode levar à depressão. E que a tristeza que se prolonga vira desesperança – a emoção básica de alguém deprimido.

Falo muito com meus pacientes: Ninguém se mata de um dia para o outro. Tudo começa de um jeito muito mais sutil, vai crescendo, crescendo, até que viver não valha mais a pena. Mas será que precisamos realmente falar sobre esse assunto? Será que falar sobre isso não vai despertar no outro algo que ele nem pensava? Não!! Falar sobre isso salva vidas! Falar sobre isso ajuda as pessoas a identificarem sintomas iniciais e é muito mais fácil tratar logo no início uma depressão nas crianças, ou seja, uma depressão leve, que uma depressão grave. Então, vamos lá. A seguir, explico quais aspectos podem indicar sintomas de depressão nas crianças.

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Como identificar sinais de depressão nas crianças

Imagine que todos nós, adultos e crianças, temos uma tríade no nosso funcionamento humano: Emoções + Pensamento + Comportamentos. Aconteça o que acontecer na nossa vida esses três aspectos estarão sempre conectados. Sempre que tiver uma emoção, terá um pensamento e um comportamento. Sempre que tiver um pensamento, tem um comportamento e uma emoção que vem junto e assim vai.

A depressão se destaca pelas seguintes emoções: tristeza, desesperança, culpa e medo. A semântica dos pensamentos será algo ligado a algo que tinha e se perdeu, geralmente voltado ao passado e sem esperança de um futuro melhor que o presente. É comum pensar: Não tenho saída. Não há nada que eu possa fazer para mudar isso. Não tenho forças para mudar. A vida não tem cor, graça. Se eu pudesse eu sumiria. Se eu sumir, ninguém vai sentir falta. Era melhor eu nem ter nascido.

Comportamentos que geralmente acontecem são de evitação e esquiva. A pessoa tem preguiça de conversar com os outros, se isola, não responde mensagens. Alguém liga, ela não atende, fala que vai retornar depois e não retorna. Evita cuidados básicos. Pula uma refeição, não troca de roupa, fica dias sem lavar o cabelo. Procrastina, passa mais tempo em telas para se desconectar do que está sentindo. Pode haver alteração de apetite e sono para mais ou para menos. E é muito comum ter que se esforçar para fazer algo que antes fazia sem esforço.

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Insegurança e dependência também podem indicar depressão nas crianças

Com as crianças, acontece do mesmo jeito. Elas também têm essa tríade, embora algumas vezes não consigam expressar o que estão pensando. Mas se os pais sabem o que estão procurando vão descobrir a “cheiro”, o tema do pensamento dos filhos. Na criança também é comum, além das emoções que já falei, ter uma irritabilidade boa parte do tempo. Elas podem ficar mais inseguras e dependentes e ter medos que antes não tinham. Algumas podem ficar apáticas, mas em outras pode parecer apenas que estão sem vontade de fazer as coisas.

O mais importante é lembrar da conexão entre os três itens. Não observe ou avalie apenas as emoções ou apenas os comportamentos. Olhar o todo vai ajudar a perceber se existe algum sinal de que algo está errado.

Uma outra coisa importante, estamos vivendo uma geração “cada um no seu quarto”. Enquanto a mãe está no escritório trabalhando, o mais velho está na aula online no quarto dele, o caçula, no outro quarto, e o marido na sala. Para perceber emoções, pensamentos e comportamentos dos nossos filhos, precisamos estar realmente perto, precisamos conviver, interagir e isso é muito mais que simplesmente estar todo mundo em casa.

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*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.

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Patrícia Nolêto de Campos, é mãe da Clara, 4 anos. Psicóloga, palestrante, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, trabalha há mais de 19 anos com psicologia clínica com atendimento a adultos crianças, adolescentes e pais. Desenvolveu workshop de Treinamento de pais e Treinamento de Educadores e ferramentas terapêuticas que facilitam a regulação emocional das crianças. Saiba mais em http://www.patnoleto.com.br

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