Introvertidos X extrovertidos: desafios durante a pandemia

Especialistas trazem dicas para aprender a lidar com as características de personalidade das crianças; na pandemia, tanto os introvertidos quanto os extrovertidos sofreram com ansiedade

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Crianças introvertidas vs extrovertidas: desafios na pandemia; uma criança lendo enquanto outra criança está brincando no colo da mãe

Leia em 8 minutos

A introversão e a extroversão são tipos de personalidades difundidas pelo famoso psicólogo e psiquiatra suíço Carl Jung. Ambas são maneiras diferentes, nem melhores nem piores, de se desenvolver no mundo. Segundo seus estudos, não existem personalidades puras, isto é, qualquer pessoa, seja criança ou adulto, é, em algum nível, introvertida e extrovertida. Porém, sempre haverá uma personalidade que predomina sobre a outra. Miriam Hallake, psicóloga escolar e terapeuta familiar, aponta que muitas vezes pode ser difícil categorizar e definir a personalidade das crianças, pois agem de forma diferente dependendo da situação e da faixa etária, mas é possível identificar algumas características gerais. 

As crianças introvertidas geralmente apresentam maior interesse pelos processos internos e pelo seu mundo particular. “São crianças que gostam mais de fazer atividades sozinhas, que às vezes têm movimentos corporais mais contidos e que gostam de atividades mais introspectivas, como leitura ou brincar sozinha”, explica Claudia Ferreira, neuropsicóloga e psicóloga do Colégio Pensi, do Rio de Janeiro. Não quer dizer que os introvertidos não sejam sociáveis ou que sejam muito tímidos, apenas significa que eles precisam de uma dose de tempo sozinhos para reabastecer as energias.

Diferente da criança introvertida, a extrovertida se interessa e é estimulada pelo que acontece em seu exterior. Ela extrai energia da interação com os outros. Muito tempo sozinhos pode deixá-la para baixo, precisando de uma companhia para se recuperar. “Essas crianças têm uma movimentação corporal mais solta, falam mais, se comunicam com mais facilidade, às vezes têm mais iniciativa e as brincadeiras são de certa forma mais agitadas”, aponta Claudia Ferreira.

Os filhos também podem refletir a sociabilidade dos pais, no entanto, isso não é uma regra. “De alguma forma, as crianças copiam o que elas vivenciam, elas têm os pais como um modelo, mas não existe algo que possa afirmar que se os pais são extrovertidos a criança necessariamente também vai ser ou tem uma tendência maior a ser extrovertida”, relata a psicóloga.


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Ansiedade no isolamento social

A pandemia afetou cada pessoa de uma forma diferente, porém a ansiedade é algo comum tanto entre crianças introvertidas quanto extrovertidas. A falta de interação e a incerteza com a pandemia causou uma sensação desagradável para os pequenos. Flavia Pimenta, profissional de marketing, conta que esse sentimento afetou não apenas o seu filho de 8 anos, que sempre foi mais extrovertido, como também vários de seus colegas de sala. Segundo Claudia Ferreira, a pandemia pode gerar ansiedade para todos, porque o formato de vida com o qual eram acostumados foi transformado radicalmente e nem sempre é fácil reencontrar aquela referência do seu funcionamento anterior. “A ansiedade diante do desconhecido é muito natural, o que passa a ser um problema é a maneira com que você se relaciona com ela e a proporção que ela ganha”, afirma a psicóloga. 

Para que a ansiedade não interfira na vida da criança de forma negativa, a especialista recomenda que os pais conversem com os filhos, para que eles entendam que o sentimento é temporário e que a pandemia vai passar. “O importante é olhar para o que a gente pode fazer e não focar no que não pode mudar”, diz. Outra ideia é oferecer atividades, para que os filhos não fiquem apenas diante daquilo que está limitando e restringindo.

Miriam Hallake concorda que este é um bom caminho para ajudar a superar a ansiedade. “É melhor evitar só a televisão e outros recursos tecnológicos que em geral deixam as crianças mais passivas. A tendência é que a criança acabe ficando mais ansiosa, porque ela não está expressando tudo aquilo que ela necessita, através do movimento, da criatividade, da brincadeira, da fantasia e da imaginação”, aponta. Os planejamentos pedagógicos da escola buscam introduzir essas possibilidades para que a criança possa extravasar toda a sua energia. “A criança que está muito em casa, às vezes está bloqueada em todo esse potencial que ela precisa exteriorizar”, afirma.

É possível que a ansiedade tenha sido resultado dos sentimentos à flor da pele durante a pandemia. As crianças são muito sensitivas e às vezes não apresentam maturidade emocional para lidar com todos os sentimentos. Dessa forma, em situações de desconforto, sua personalidade pode se tornar mais exacerbada. Assim, crianças introvertidas podem se tornar ainda mais quietas e as extrovertidas podem se tornar ainda mais agitadas, buscando encontrar alguma forma de se sentir confortável em meio ao isolamento social.


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Exacerbação da personalidade durante a pandemia

Foto de Christofer Gonçalves, 6 anos/ Foto: arquivo pessoal

“Durante a pandemia, qualquer uma das nossas características mais fortes ficaram exacerbadas”, diz Claudia Ferreira. Com o isolamento social, houve muito menos possibilidade de buscar realizações que poderiam interferir ou trazer mudanças para a personalidade. “Além disso, houve uma menor relação com o outro e uma menor referência ou interferência do funcionamento do outro em nós. Aquilo que já existia em cada um de nós, por a gente conviver mais com nós mesmos, tende a ter aumentado de alguma forma”, explica.

Segundo Keyla Almeida, principal responsável por acompanhar os estudos do seu primo de 6 anos, o menino sempre foi muito extrovertido, mas essa característica se tornou muito mais exacerbada durante a pandemia. “Ele ficou bem mais elétrico, porque não estava saindo muito de casa e sua rotina foi totalmente transformada”, relata. Suas aulas são transmitidas pela televisão e não há nenhum contato direto com os colegas ou professores, um formato de aula que foi muito criticado pelos pais no grupo do WhatsApp. A falta de interação gerou uma grande frustração para o menino. Keyla conta que ele costumava fazer mais bagunça e agir de forma ainda mais agitada para chamar atenção das pessoas da casa.

A exacerbação das personalidades durante a pandemia pode ter impactos negativos para a criança. Esse comportamento pode ser prejudicial em relação às amizades e à concentração e participação das aulas online.

O introvertido no online

Um grande desafio que as crianças mais introvertidas precisaram enfrentar durante a pandemia foi manter as amizades. O isolamento social dificultou que elas conseguissem continuar com as conversas e brincadeiras que eram feitas, principalmente, no ambiente escolar. Renata Yuri, administradora de empresa, conta que, apesar do seu filho de 12 anos ter conseguido manter algumas amizades de forma online, acabou perdendo o contato com muitos amigos que só se viam presencialmente.

Em relação ao ensino remoto, Renata Yuri relata que o filho era bem mais participativo nas aulas presenciais do que nas online. Realmente o digital não é um ambiente muito convidativo. Muitas vezes, as crianças podem não se sentir incentivadas ou se sentir envergonhadas de abrir a câmera e o microfone para participar. Isso pode interferir na forma como os pequenos aprendem os conteúdos, pois podem deixar de tirar suas dúvidas.


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Contendo a extroversão

Foto de Alexandre Berti, 8 anos/ Foto: Arquivo pessoal

Como a criança extrovertida requer uma maior interação social, não foi nada fácil se acostumar com o isolamento. Sem o contato com os professores e colegas de sala, as crianças podem não ser motivadas a prestar atenção nas aulas e se distrair facilmente. Segundo Flávia Pimenta, para seu filho, as aulas online foram desafiadoras. “O processo de adaptação foi bem difícil e demorado, nas aulas presenciais a dinâmica era totalmente diferente. No ano de 2020, ele estava fazendo o segundo ano e tinha só uma hora por dia de aula, com muitas lições de casa”, diz. 

Felizmente, Flávia Pimenta afirma que hoje em dia, o filho já conseguiu se adaptar ao ensino remoto e consegue prestar atenção e participar mais das aulas, mas trabalhar a concentração foi custoso. Renata Yuri concorda que os muitos estímulos oferecidos em casa interferiram na atenção do filho: “No online, ele pode fazer várias coisas ao mesmo tempo e não se concentrar apenas na aula, como no presencial”. 

Para Keyla Almeida, também não foi nada fácil fazer com que o pequeno se concentrasse no ensino remoto. O menino tinha aulas de 25 minutos, mas só conseguia manter o foco por metade do tempo. “Todos os dias era um processo exaustivo para conseguir fazer ele sentar e concentrar no que estava passando. No final, estávamos os dois cansados e irritados pela situação”, diz. A única forma que Keyla Almeida encontrou para ajudar o pequeno foi realizar aulas rápidas recapitulando os conteúdos que ele deveria ter aprendido. Para ele, é uma dinâmica mais interessante e menos estressante.


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Como lidar com as diferentes personalidades das crianças

Assim como o próprio Jung diz, um tipo de personalidade não é melhor do que o outro e os pais precisam aprender a lidar com as características dos filhos, mesmo que sejam muito diferente das suas. As especialistas separaram algumas dicas para isso, confira!

1. Compreender e apoiar

Para Miriam Hallake, o mais importante é que os pais conversem com os filhos e entendam quais são as suas preferências. Eles não devem forçar que as crianças façam atividades que os deixem ansiosos ou desconfortáveis. É preciso acolher a criança e as suas características, sejam elas mais introvertidas ou extrovertidas. Segundo a psicóloga, é fundamental que a família seja muito parceira, os pais precisam apoiar e sempre manter um diálogo com os filhos. “Essa conexão faz com que a criança se sinta importante”, afirma.

2. Oferecer atividades diferentes

Os adultos devem respeitar quando as crianças escolherem atividades diferentes do que haviam imaginado. Algumas podem preferir brincar no parque, enquanto outras ficam em casa colocando a leitura em dia, ambas escolhas são válidas. Mas sempre é interessante proporcionar alguns momentos de interação em família, atividades que podem ser convidativas para a criança introvertida e extrovertida são aquelas que estimulam a criatividade, como desenhar. “Ter momentos em conjunto, como fazer desenhos, o próprio adulto junto com a criança, faz com que ela se sinta valorizada”, diz Miriam Hallake.

3. Cuidado com os extremos

“Tudo que é extremo tende a ser um problema e requer algum tipo de ajuste”, explica Claudia Ferreira. Se a criança está muito fechada, muito sozinha ou tende a estar mais isolada, os pais precisam primeiro acolher os sentimentos. Porém, também é importante incentivar a interação com o colega, seja buscando alguma informação com alguém, propondo atividades ou estimulando que na sala de aula tire suas dúvidas, indica Claudia Ferreira.

O mesmo serve para crianças muito agitadas, os pais precisam ajudar a conter a extroversão. Para isso, Miriam Hallake recomenda que os pais utilizem jogos de concentração. A psicóloga citou o jogo da memória, jogo dos sete erros e quebra-cabeças. Outro jogo recomendado para a concentração é “Eu fui à feira e comprei”, em que cada jogador fala uma comida e os outros precisam lembrar, repetir e adicionar uma nova. Outro jogo bem simples indicado pela especialista é bater palma toda vez que alguém falar um bicho que voa, por exemplo. “Isso vai ajudar que a criança desenvolva essa concentração de atenção mesmo estando em casa. Estes são alguns exemplos, mas a criatividade dos pais é ilimitada”, diz. 

Miriam Hallake acrescenta que caso os pais, tanto de crianças introvertidas quanto de extrovertidas, estejam tendo muitas dificuldades, eles devem entrar em contato com os professores que convivem com os pequenos diariamente. Segundo ela, eles terão boas dicas para auxiliá-los.


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