Crianças sensíveis se adaptam bem às restrições da pandemia

Ser sensível é frequentemente visto como uma fraqueza em nossa cultura, que valoriza características mais assertivas. Mas as crianças sensíveis têm muitas habilidades

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Crianças sensíveis se adaptam bem às restrições da pandemia; na imagem, garota sentada em brinquedo sob a grama apoia queixo sobre o braço e olha para a frente
Há três grupos de crianças sensíveis, as altamente sensíveis, chamadas de orquídeas, as “dentes-de-leão”, que são resistentes, e as tulipas, um meio termo entre os dois níveis de sensibilidade

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Há crianças que não se sentem bem em festas e reuniões familiares. Que têm dificuldades para se ajustar à agitação da sala de aula. E que choram por motivos aparentemente sem sentido. Como ao ouvir um grito de um pássaro ou uma pessoa cantando desafinada ou, ainda, por usar roupas ásperas. Mas não são choros sem sentido, mas sim situações que despertam a sensibilidade de certas crianças.

Ser sensível é frequentemente visto como uma fraqueza em nossa cultura, que valoriza pessoas mais assertivas. Mas tamanha sensibilidade tem seus benefícios: se adaptar melhor às restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus, por exemplo. Tracy Cooper, pesquisador da Baker University, em Baldwin City, no Kansas (EUA), diz que em geral, em situações como a que estamos vivendo, as crianças sensíveis “podem ser incrivelmente resilientes, adaptáveis ​​e capazes de digerir as circunstâncias melhor do que alguns adultos”.

Isso porque a pandemia ofereceu uma pausa bem-vinda às crianças sensíveis que não raro sentem-se sobrecarregadas na escola e em outras atividades em grupo. Assim elas estão tendo espaço “para explorar, criar, ler e pensar por conta própria”, diz o pesquisador americano que se identifica como sendo uma pessoa altamente sensível. Ele faz a ressalva, contudo, de que também há crianças que se dão melhor com a rotina e a frequência à escola, porque “a estrutura previsível ajuda a aliviar suas ansiedades sobre o que esperar”.

Há quem confunda a criança sensível com outras condições, como fobia social, transtorno do espectro autismo ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. A sensibilidade às vezes também é confundida com ser tímido. De fato, a maioria das crianças altamente sensíveis é introvertida, mas cerca de 30% delas são extrovertidas, ainda que tenham facilidade à superestimulação em situações sociais.

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No geral, as crianças sensíveis têm muitas habilidades: elas são boas observadoras, criativas, capazes de intuir o humor e até de sentir a dor dos outros, explica reportagem sobre o assunto do jornal The New York Times. E por conta desse olhar atento, as pessoas tendem a confiar nas crianças sensíveis com facilidade. Quando adultas, essas crianças costumam seguir carreiras relacionadas a ajuda, como assistência médica e aconselhamento, onde seus dons naturais são bem utilizados.

1 em cada 5 crianças é altamente sensível

Em média, uma em cada cinco crianças é altamente sensível, de acordo com a psicóloga pesquisadora Elaine Aron, cujo livro de 1996 “The Highly Sensitive Person” popularizou o termo. Aron desenvolveu um teste de 23 perguntas, que costuma ser usado para ajudar a determinar se uma criança é ou não altamente sensível.

Michael Pluess, professor de psicologia do desenvolvimento na Queen Mary University of London, descobriu que as experiências de vida, especialmente aquelas no início da vida, têm um grande impacto sobre as crianças sensíveis.

“Descobrimos que cerca de 50 por cento das diferenças de sensibilidade entre as pessoas são devidas a fatores genéticos, a outra metade, devido ao ambiente, incluindo o ambiente pré-natal”, disse o Dr. Pluess ao jornal americano.

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Crianças mais sensíveis são comparadas a orquídeas; há também os dentes-de-leão e as tulipas

Segundo Pluess, há três grupos de pessoas sensíveis, cada uma com personalidades diferentes, pontos fortes e fracos que não podem ser considerados nem melhores nem piores uns que os outros. As altamente sensíveis, que ele chama de “orquídeas”, que são lindas flores que precisam de ambientes muito particulares para prosperar; as “dentes-de-leão”, que são resistentes e podem crescer virtualmente em qualquer lugar; e um grupo do meio, o maior, das “tulipas”, que ficam em algum lugar entre os dois extremos da escala de sensibilidade.

Ele acrescentou: “É importante comunicar de forma consistente à criança que sua sensibilidade não é um problema, e sim uma força para que ela possa desenvolver um senso saudável do que pode fazer bem”.

Em um estudo de 2015 com meninas adolescentes na Grã-Bretanha, o professor londrino descobriu que aquelas que eram altamente sensíveis provaram ser mais responsivas à terapia para depressão do que aquelas que eram menos sensíveis.

Por outro lado, pessoas altamente sensíveis também são mais facilmente traumatizadas por experiências dolorosas quando crianças e, às vezes, pela simples falta de compreensão dos adultos. O pesquisador da Baker University diz que os cérebros dessas pessoas têm características únicas. Estudos de imagens cerebrais mostraram que essas pessoas “têm níveis mais altos de atividade nos neurônios-espelho, o que tem a ver com empatia e socialização, e há mais conectividade em diferentes segmentos do cérebro, o que informa a criatividade”, explica Cooper.

A Dra. Judith Orloff, uma psiquiatra clínica da Universidade da Califórnia, Los Angeles, orienta os pais a jamais dizer aos filhos que sejam firmes ou fortes. “Diga a seus filhos sensíveis que é provável que eles estejam captando as emoções de outra pessoa. Ensine-os a respirar fundo algumas vezes, visualizar uma cena relaxante, se acalmar ”, aconselha. Ela diz que às vezes, é preciso remover crianças sensíveis de situações que as angustiam. “Ajude-as a aceitar suas belas habilidades e a não serem superestimuladas, em vez de suprimir suas características com antidepressivos ou ansiolíticos”.

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