Ler em telas e em livros: o que é melhor para a criança?

Especialistas dizem que, para trabalhos escolares, crianças aprendem melhor se lerem mais devagar

Diferença entre ler em livros e em telas/Pilha de livros e tablet
Aplicativos de leitura podem desviar a atenção das crianças do conteúdo principal

Leia em 4 minutos

Com o contexto pandêmico da atualidade, as crianças utilizam as telas para tudo, inclusive para a sua educação. Porém, o formato no qual elas lêem pode interferir na forma como absorvem a informação. “Existem dois componentes: o meio físico e a mentalidade que trazemos para a leitura nesse meio — e todo resto segue daí”, diz Naomi Baron, professora aposentada de Linguística na American University e autora do livro How We Read Now: Strategic Choices for Print, Screen and Audio (Como Lemos Agora: Escolhas Estratégicas para Impressão, Tela e Áudio), em reportagem do jornal The New York Times.

As tecnologias são muito utilizadas para propósitos sociais e para entretenimento. Por isso, tanto crianças quanto adultos ficam acostumados a absorver conteúdos online que, em geral, são feitos para serem lidos de forma rápida e casual, sem muito esforço. As pessoas tendem a utilizar essa mesma abordagem de leitura rápida para textos digitais mais difíceis e que devem ser analisados com maior cuidado. Como consequência, o conteúdo não é absorvido da melhor forma por não receber o tipo certo de atenção, explica a matéria do jornal americano.


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Como lidar com crianças pequenas que estão começando a ler?

Para crianças menores, a professora Baron disse que é mais recomendado ler livros impressos. Segundo ela, o impresso estimula a chamada “leitura dialógica”, em que pais e crianças interagem com a linguagem do livro, fazendo perguntas e respostas. Além disso, os aplicativos e e-books podem ter muitas distrações que desviam do conteúdo principal e tornam mais difícil para as crianças coletarem o conteúdo. Entretanto, para crianças de até 5 anos, a professora Baron disse que existem novos aplicativos com componentes que encorajam “leitura dialógica” e podem ajudar os pequenos a entenderem a história.

Segundo a Dra. Tiffany Munzer,  pediatra de desenvolvimento comportamental no Hospital Infantil C.S. Mott de Michigan, qualquer momento que os pais conseguem realizar uma leitura em família é ótimo para a criança. Porém, a Dra. Munzer foi a autora principal de um estudo de 2019 que descobriu que pais e filhos conversam menos sobre a história quando utilizam livros eletrônicos comparados com os impressos. 

A Dra. Jenny Radesky, pediatra que trabalhou com Munzer no Hospital Infantil C.S. Mott, disse que aplicativos feitos para ensinar a leitura nos primeiros anos escolares utilizam a “gamificação para manter as crianças engajadas”, ou seja, aplicam mecânicas de jogos na literatura. A Dra. Jenny afirmou que, apesar desses aplicativos conseguirem ensinar habilidades essenciais, eles não substituem a experiência do livro impresso. Radesky também ressaltou que um problema da atualidade é que tudo é preciso ser lido de forma fácil e rápida: “Coisas que fazem você pensar, fazem você desacelerar e processar profundamente, não vendem e não conseguem mais cliques”.


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E crianças na idade escolar?

“Quando crianças entram em espaços digitais, elas têm acesso a um número infinito de plataformas e websites, além dos e-books que elas deveriam estar lendo”, relata Dra. Radesky. Com a educação à distância, é comum que as crianças se distraiam e abram outras abas para se divertir. “Estou preocupada que durante o ensino remoto, as crianças tenham aprendido a se orientar em relação aos dispositivos eletrônicos com uma atenção muito superficial”, conta.

A Dra. Radesky apontou que seria importante que as crianças desenvolvessem o que ela chamou de “metacognição”. A partir dos 8 ou 10 anos, elas começam a desenvolver a capacidade de entender como se concentram em uma tarefa e como se distraem. Elas devem se perguntar “Como meu cérebro se sente? O que isso faz com a minha capacidade de atenção?”. “Crianças reconhecem quando a sala fica agitada; nós queremos que elas reconheçam quando entram em um espaço digital agitado”, explicou.

“O impresso, o digital, o áudio, o vídeo, todos têm suas utilidades, mas precisamos conscientizar as crianças que nem todas as mídias são ideais para todos propósitos“, apontou a professora Baron. A criançada pode experimentar ler em livros físicos e eletrônicos e falar sobre o que elas sentiram e qual modelo preferem.


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Para uma boa leitura, é importante desacelerar

Em experimentos sobre leitura, a professora Baron descobriu que estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental e universitários têm uma incompatibilidade entre como eles sentem que aprendem e como realmente atuam. Alunos que acham que leem melhor em uma tela, ainda se sairiam melhor nos experimentos se utilizassem livros impressos. Além disso, a professora apontou que universitários que imprimem os artigos para estudar apresentam um maior desempenho e notas melhores. Também existem pesquisas que sugerem que alunos de universidades que usaram livros, revistas ou jornais autênticos para escrever redações produziram textos mais sofisticados do que aqueles que receberam versões impressas.

Com textos complexos em qualquer formato, desacelerar ajuda. A professora Baron disse que os pais podem servir de exemplo se lerem livros tranquilamente em casa. Existem estudos que sugerem que a compreensão de leitura em telas é melhor quando o texto é dividido em páginas do que quando os leitores precisam rolar continuamente pelo texto, pois eles tendem a pegar apenas algumas informações rapidamente.

Ninguém vai tirar o digital da vida das crianças, ou do seu aprendizado. Entretanto, quanto mais exploramos as possibilidades da leitura online, melhor será para elas. Existem muitos bons motivos para ler em telas, mas é uma experiência diferente do que ler livros impressos. “Existe uma fisicalidade”, disse a professora Baron. “Muitos jovens falam sobre o cheiro dos livros e se referem à leitura impressa como a leitura ‘real’”.


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