O que só os avós podem ensinar às crianças

Mesmo sendo dois extremos da família, avós e netos têm a oportunidade de compartilhar saberes e ensinamentos que perduram por toda a vida

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Avós e netos têm a oportunidade de compartilhar saberes e ensinamentos que perduram por toda a vida.
Regina Casé e o neto Brás: "não sou o tipo de avó que deseduca, sou firme mas brinco muito com ele" | Foto: Reprodução Instagram @reginacase

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A participação dos avós no dia a dia das famílias tem configurações diversas. Alguns, ajudam a levar e buscar as crianças na escola, outros, cuidam dos pequenos enquanto os pais trabalham. Há também os que se reúnem nos fins de semana para colocar o papo em dia com os filhos e matar a saudade dos netos. Mas fossem quais fossem os combinados, eles tiveram, na maior parte dos casos, de ser interrompidos por causa das medidas de isolamento social impostas pelo novo coronavírus. E se há algo de positivo nessa mudança, é poder perceber o quão importante os avós são para os netos – e vice-versa.

“É uma relação rodeada de emoção e afeto e mesmo sendo dois extremos da família, avós e netos têm a oportunidade de compartilhar saberes e ensinamentos que perduram por toda a vida”, afirma a psicóloga Adriana Mikaelian dos Santos, do CAIS – Centro de Atenção Integral à Saúde do Grupo São Cristóvão, em São Paulo. 

Adriana Ferreira, psicopedagoga e orientadora educacional do colégio Mopi, no Rio de Janeiro, lembra que os avós são uma referência importante e trazem relação de ascendência para as crianças, assim como nas comunidades indígenas, em que os mais velhos têm um papel especial para todo o grupo. “Os avós trazem também ensinamentos para a família ligados às habilidades socioemocionais, como compreensão, paciência e resiliência. Eles têm mais disponibilidade de escutar e entender seus netos”, diz a psicopedagoga. E no contexto de pandemia, há um espelhamento nessa transferência de conhecimento. Avós são o grande alicerce emocional, um lugar de acolhimento, diz ela.

‘Ser avó é a cereja do bolo da vida’, diz o cantor Sidney Magal

Promovido ao posto de avó em dezembro do ano passado, quando nasceu sua primeira neta, Madalena, o cantor Sidney Magal se derrete de elogios pela pequena. Na época em que ela nasceu, ele escreveu em suas redes sociais: “Ser pai de três é uma maravilha, mas ser avô é a cereja do bolo da vida, como li por aqui outro dia. Confesso que Madalena está me deixando daquele jeito que todo mundo que já é vovô/vovó bem sabe”. 

O cantor criou até a hashtag #mechamaqueeuvovo, numa referência a uma de suas músicas mais famosas “Meu Chama que eu vou”. Juntos na quarentena, Sidney postou recentemente uma foto dando de comer à netinha e comentou: “Café da manhã com o vovô, não tem preço!! Dos privilégios da quarentena. Com criançada então, é uma alegria só”.

De fato, poder fazer o isolamento social junto à família é um privilégio que pode favorecer a relação entre avós e netos. “Esse convívio intenso é maravilhoso, permite uma relação mais íntima que talvez até não existisse antes da pandemia”, explica a psicóloga Aline Saramago Sahione, membro da Doctoralia, no Rio de Janeiro.

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O cantor e compositor Zeca Pagodinho também tem aproveitado a quarentena para curtir o neto Noah, de 10 anos. No seu perfil oficial no Instagram, uma foto mostra Zeca e Noah “ouvindo muito samba no vinil e fitas K7”, diz a legenda do post.

Hoje, os dispositivos para ouvir música são mais modernos e para manejá-los, muitas vezes, os avós contam com a ajuda dos netos. “A gente vê crianças ensinando os adultos a mexer no celular ou num brinquedo que tem um pouco mais de estímulos e isso é muito bom, pois pode ajudar os avós em aspectos como memória e a atenção”, comenta a psicóloga Adriana.

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Não tem abraço, mas dá para matar a saudade por videochamada

E para aqueles que não estão juntos dos netos, o jeito é investir no contato virtual. “Interações, brincadeiras e jogos por videochamadas podem ser um bom meio de manter e renovar os vínculos, mesmo que não substituam o contato físico”, diz o psicanalista Ronaldo Coelho, de São Paulo.

Caso os avós queiram se fazer ainda mais presentes, eles podem enviar para a casa dos netos um mimo ou lembrancinha – e os pais podem registrar o momento em que o presente chega para depois mostrar aos avós, sugere o psicanalista. A inversa também é válida. Os netos (ou mesmo os filhos) também podem mandar um “chamego” para a casa dos vovôs.

Coelho ressalta, porém, que as crianças, por terem nascido na era da interação por telas, tendem a se adaptar mais rápido a esse tipo de relação virtual. “É importante que os avós saibam disso, pois muitas vezes eles projetam nos netos a angústia que sentem por estarem privados do contato físico”, diz o psicanalista.

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Mimar os netos é uma forma de criar vínculo com eles

A expressão “estragar os netos” se tornou comum para dizer que os avós permitem tudo aquilo que os pais proíbem. A psicóloga Aline diz ser importante que haja um diálogo e que a vontade dos responsáveis pela criança seja respeitada, em relação aos horários, alimentação e mesmo compra de presentes. O que não quer dizer que concessões não possam ser feitas.

Para Coelho, a ideia de poder mimar os netos sem a preocupação de ser a pessoa que frustra, cria um vínculo único com as crianças. “Quando pais, eles tinham que frustrar muito seus filhos, colocar limites. Já como avós, eles podem se permitir mais. E para os netos, a experiência de receber esse amor neste formato é uma marca importantíssima para a construção de sua autoestima”, declara o psicanalista.

A psicóloga Adriana explica que é bom que o neto saiba que na casa dos avós pode brincar um pouco mais ou comer algo que não tem em casa. “Não se trata de burlar regras, mas de oportunizar às crianças um ambiente diferente, que vai contribuir para a construção das memórias afetivas dos pequenos”, diz ela.

‘Não sou do tipo de avó que deseduca’, diz Regina Casé

Hoje em dia, há muitos avós que apoiam os filhos na educação dos pequenos. Como a atriz Regina Casé, que já afirmou não ser contra a educação que sua filha Benedita dá ao neto Brás, de 3 anos. “Não sou do tipo de avó que deseduca, que dá doces escondidos, sou firme e brinco muito com ele. A gente tem uma caverna feita de cobertores, brinco que ali só tem os bichos que saem de noite, como morcegos, corujas e cobras e ele fala que vai colocar a zebra na caverna”, disse Regina à Revista Quem. 

Aline ressalta que são vários os benefícios dessa relação com muitas brincadeiras. “Os avós apresentam outros estímulos, outras formas de carinho e ensinam pela ludicidade, que é muito importante para o desenvolvimento das crianças”, diz ela. Inclusive, quando os pais são muito ocupados, por causa do trabalho e ou outros motivos, e têm menos disponibilidade, os avós entram para preencher esse espaço de estímulos que favorecem o crescimento saudável dos netos.

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Filho Neto de peixe, peixinho é

E quando os netos demonstram interesses e habilidades semelhantes às dos avós, como não sentir orgulho deles? Gilberto Gil que o diga. A neta Flor, de 11 anos, filha da culinarista e apresentadora de TV, Bela Gil demonstra um grande talento para a música. Ela já apareceu cantando com o avô uma música de Britney Spears. Em outro vídeo, eles entoam a letra de um clássico italiano “Volare”, em homenagem ao povo daquele país, um dos mais afetados pela pandemia.

“Essa coisa dos filhos crescerem e assumirem suas vidas, desafoga o campo das responsabilidades, passa o bastão. Os netos, então, nem se fala. Acho que é o único aspecto que poderia concordar com o fato de uma nova juventude na velhice: os netos são imperativamente juvenis. O acompanhamento em relação à perda da inocência é uma coisa que nos envolve, estimula. Costumo dizer que filho se educa a vida inteira. Neto, então…”, disse Gil em uma postagem em família na sua conta oficial do Instagram.

Para além de educar (ou não) os netos, no geral, a convivência entre avós e netos é muito rica e de extrema importância para as duas partes. “Os netos são a certeza de continuidade para os avós”, conclui o psicanalista Ronaldo Coelho.

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