Aulas de reforço: 4 dúvidas sobre o assunto

Mesmo estando na reta final de ano letivo, educadoras dizem ser válido retomar conteúdos agora; elas explicam quais fatores podem afetar o aprendizado, como conduzir o reforço e o que fazer no caso de crianças em fase de alfabetização

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Menina de cabelos crespos presos nas laterais faz tarefa no caderno
Retomar a rotina e a postura do estudante tem sido um desafio para crianças e escolas
Buscador de educadores parentais
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Diante da proximidade do fim do ano, muitos pais se perguntam se agora é hora de procurar aulas de reforço para ajudar as crianças que estão com notas baixas e não conseguiram avançar conforme o esperado.

“Embora o reforço deva ser feito desde o início do ano, eu acho que é muito válido trabalhar essa questão neste momento e resgatar conteúdos essenciais para que a criança possa se desenvolver nos anos seguintes”, afirma Adriana Cicca, orientadora pedagógica do Ensino Fundamental 1, do Colégio Presbiteriano Mackenzie, em São Paulo.

Ela diz que os pais devem ter um olhar atento sobre o filho para que, existindo uma dificuldade, busquem esse reforço em parceria com a escola e mesmo uma avaliação psicopedagógica que apoie a criança nas questões emocionais, de modo que ela consiga avançar no aprendizado.

Segundo Cicca, a escola poderá dizer o que é mais importante trabalhar com a criança nesse momento. “Temos cerca de 40 dias letivos pela frente e deve-se avaliar, dentro da série que a criança está cursando, o que priorizar agora não só para que ela passe de ano, mas para que consiga acompanhar de fato o conteúdo em sala de aula”. 

Para alunos em fase de alfabetização, pode ser preciso resgatar a questão da leitura, da interpretação de texto ou da escrita, ou pode ser algo relacionado à matemática, operações e  raciocínio lógico, exemplifica a especialista.

Ela lembra que após a pandemia tem sido um desafio tanto para as escolas, quanto para as famílias e crianças, retomar a rotina e a postura do estudante. “A gente sabe que o convívio, a troca com o adulto na escola e com os colegas, também auxiliam muito na maturidade e no aprendizado. Quando o aluno está bem consigo mesmo, ele consegue desenvolver os conteúdos e as habilidades necessários para cada série.”

Ângela Di Paolo, professora do curso de pedagogia do Instituto Singularidades e doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela USP, destaca que as aulas de reforço são indicadas quando a criança apresenta expectativas muito abaixo do esperado. “Digamos que ao final de um ciclo ela não desenvolveu todos os objetivos, todas as habilidades que eram esperadas para aquele ano. Isso é um sinal de alerta para saber que é importante encaminhar para um reforço”, relata Di Paolo.

Silvia Colello, professora de pós-graduação da Faculdade de Educação da USP (Universidade São Paulo), lembra que a defasagem na aprendizagem sempre existiu, mas se encontra mais grave agora. “Sempre tem crianças que não chegam ao que é estipulado e ao que a escola gostaria, mas neste momento a gente vive uma situação atípica e maior de não aprendizagem”, afirma. 

A professora ressalta que toda iniciativa de reforço deve se iniciar com uma sondagem por parte dos pais e da escola para compreender por que a criança não está aprendendo. “Ao ter uma escuta atenta para o que ela fala, temos melhores condições de reverter essa chave”, analisa Colello.

Ela dá como exemplo uma criança que diz não gostar de matemática porque a professora dá muitas contas que levam horas para serem feitas. “Talvez seja o caso do professor inventar um jogo com dados ou um campeonato de bolinhas de gude em que as a matemática esteja implicada. Ao dar sentido para o conteúdo, ao mostrar como ele pode fazer parte da vida da criança, ela tem uma razão para aprender”, destaca a professora.

Segundo dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica, o percentual de alunos do segundo ano do ensino fundamental que não sabem ler nem escrever mais que dobrou entre 2019 e 2022, passando de 15% para 34%. Os dados também mostraram queda no aprendizado em matemática: 22% das crianças não conseguem fazer operações básicas, como soma e subtração. No índice anterior, antes da pandemia, eram 16%.

Di Paolo recorda que se a criança não vai bem na escola, nem sempre é uma dificuldade no conteúdo, pode ser também falta de interesse ou dificuldade de se organizar no tempo e organizar as tarefas. 

“As aulas de reforço devem ir além de melhorar as notas. O objetivo maior tem que ser que a criança aprenda, e para isso é preciso acompanhar o processo, observar o contexto de cada aluno para conseguir garantir a ela os direitos de aprendizagem, isso é o mais importante”, destaca a professora do Instituto Singularidades. Abaixo, as especialistas esclarecem quatro dúvidas sobre as aulas de reforço.

Reforço na escola ou aula particular em casa?

Para Cicca, o professor particular pode complementar o trabalho de reforço feito na escola no contraturno. “Às vezes, os pais trabalham fora e não têm tempo para ajudar o filho nas tarefas, e o professor particular vai poder ajudar a organizar a rotina da criança, ajudá-la nas tarefas de lição de casa”. Segundo a orientadora pedagógica, o pai pode observar essa necessidade quando interage com o filho, seja nas brincadeiras ou quando senta para fazer as lições e percebe alguma dificuldade. “Ao participar da vida da criança, ao fazer uma brincadeira, ler uma história e ver que a criança não consegue acompanhar, esse é o momento de ele atuar,  com apoio da escola e buscando ajuda de um psicopedagogo ou professora particular, o que pode facilitar o aprendizado da criança, visto que ela acaba criando laços e consegue aprender mesmo faltando pouco tempo para o fim do ano letivo”.

O que pode afetar o aprendizado da criança?

Segundo Di Paolo, a nota faz parte do acompanhamento acadêmico do estudante, mas além do baixo rendimento é preciso observar todo o conjunto, o que inclui o comportamento, o interesse e a organização. “Ou seja, a atenção da criança, a capacidade de se organizar, de organizar seus materiais de estudo – o caderno, os livros e os materiais didáticos, por exemplo – e de reservar um tempo para fazer as atividades”, comenta a professora do Instituto Singularidades. Ela afirma que o desempenho acadêmico é mais amplo que a nota. “Não é uma questão de causa e efeito. A nota está baixa, logo, o efeito é encaminhar para as aulas de reforço, é preciso entender o contexto, a história, como que cada criança se comporta em relação a seus estudos e como a família consegue acompanhar isso”.

E se a criança não avançou na alfabetização?

Cicca explica que cada criança tem um processo, uma maturidade e respeitar o seu tempo é muito importante. Ela diz que se o adulto está ansioso, ele acaba passando isso para a criança. “Ele tem que passar segurança e confiança e de fato buscar um apoio para tentar entender, por exemplo, por que a criança não está lendo ainda. Pode ser uma questão de defasagem mas também pode haver alguma necessidade específica que precisa ser avaliada, talvez com apoio psicopedagógico, fonoaudiológico, que seja diferenciado para garantir que a criança consiga ser alfabetizada”, esclarece a orientadora pedagógica.

Di Paolo complementa que a criança tem um processo de desenvolvimento que é potencializado no contexto da escola, junto com os colegas, com o trabalho que está sendo feito ali. “Quando há um estímulo e um contexto significativo de aprendizagem, uma atividade desafiadora e que tem a ver com a criança, ela reage muito rapidamente, pois tem um grande potencial”, destaca Colello.

Como deve ser feito o trabalho nas aulas de reforço?

Colello pontua que não se trata de repetir o que já foi feito, porque já foi feito e a criança não aprendeu. As iniciativas de reforço devem se pautar em novas oportunidades de aprendizagem, porque a aprendizagem acontece por diferentes vias, algumas crianças aprendem mais escutando, outras, envolvidas em um trabalho, por exemplo. “Os seres humanos são diferentes e aprendem de maneiras diferentes. As iniciativas devem tentar entender qual é a lógica da não aprendizagem e, por que a criança não aprendeu”, avalia a professora da USP. “Pode ser que ela não tenha conseguido acompanhar as aulas online, mas pode ser também que não tenha vínculo positivo com a escola, não se sinta à vontade ou não tenha uma relação positiva com o conhecimento”, complementa.

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