O que comemos e que comidas damos aos nossos filhos?

A divulgação de dados sobre produtos da Nestlé e um estudo do Idec servem de alerta sobre a importância da alimentação saudável para as crianças e adultos

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O que comemos e que comidas damos aos nossos filhos: presença de agrotóxicos em alimentos e riscos dos ultraprocessados despertam alerta; menina come hamburguer
Presença de agrotóxicos em alimentos e riscos dos ultraprocessados despertam alerta

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Duas notícias publicadas nesta semana deixaram mães e pais em estado de alerta. No mundo contemporâneo em que parecemos estar sempre com pressa e correndo, com excesso de trabalho e, para completar, em meio a uma pandemia que trouxe inúmeras dificuldades práticas, financeiras e emocionais para as famílias, precisamos prestar ainda mais atenção no que estamos comendo e no tipo de alimentação que damos aos nossos filhos. A primeira bomba veio com a notícia, publicada pelo jornal britânico Financial Times, de que a Nestlé, a maior empresa de alimentos do mundo, reconhece que mais de 60% de seus produtos não são saudáveis. E o pior: nunca serão saudáveis, por mais que a empresa faça renovações. De fato, muitos nutricionistas, médicos e chefs preocupados com a alimentação infantil já alertaram que é preciso deter o consumo de alimentos ultraprocessados. Como se não bastasse essa notícia ruim, uma talvez tão devastadora quanto foi a de que estamos ingerindo, sem perceber, um número assustador de agrotóxicos. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) divulgou uma análise de vários alimentos, como biscoitos, salgadinhos, pães, refrigerantes, e outros, e em boa parte deles foram detectados agrotóxicos.

A nutricionista materno-infantil Simone Ferraz, de São Paulo, afirma que o consumo de doces e alimentos ultraprocessados pelas crianças é enorme e contribui para a obesidade infantil, doença que só piorou na pandemia. Segundo a nutricionista, um dos maiores vilões da alimentação infantil hoje é o refrigerante, que ela chama de caloria vazia, por conter apenas água, açúcar e corante. “O refrigerante é como comida líquida, em vez da criança mastigar e assim demorar mais para ingerir o alimento ajudando a saciar a fome, ela bebe quantidades gigantescas dessa bebida açucarada”, diz Simone. Ela relata que os sucos do tipo néctar também têm muito açúcar, muitas vezes, em quantidades semelhantes aos refrigerantes. “As famílias acham que estão usando suco de caixinha, que é melhor que o refrigerante, mas isso é mero engano”, alerta Simone.

Ela destaca ainda os alimentos açucarados, guloseimas, chocolates, balas e confetes como outro grande risco para as crianças. Tratam-se de alimentos que até poderiam ser consumidos, se com moderação, numa festa de aniversário ou uma vez por semana, mas não é o que ocorre. “Muitas vezes, eles fazem parte do dia a dia da criança, o que é um grande problema que vejo hoje”, ressalta a nutricionista. Ela cita uma pesquisa da Associação Brasileira Nutrologia, de 2015, que mostrou que 30% das crianças entrevistadas afirmavam comer doce todos os dias. Um dos mais consumidos são as bolachas recheadas.

“Os alimentos ultraprocessados como as bolachas contribuem muito para o obesidade infantil porque têm uma quantidade muito grande de açúcares e gorduras ruins, e isso faz com que sejam muito mais calóricos e palatáveis, ou seja, o sabor é muito mais realçado e crianças tendem a comer quantidades maiores do que o indicado dentro da tabela nutricional”.


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Como mudar a alimentação

Para as famílias que desejam mudar sua alimentação e torná-la mais saudável, Simone orienta começar pela conscientização. “As famílias têm que aprender a ler os rótulos dos alimentos. Muitas vezes, o simples fato de trocar um produto industrializado super tradicional, com açúcar e corante, por outro industrializado com quantidade menor ou isento desses ingredientes, já ajuda”. Além disso, vale investir um tempo do final de semana para preparar e congelar refeições que serão consumidas durante a semana. “Os pais podem pensar em receitas que lembrem os alimentos que a criança gosta de comer, como o Danoninho, por exemplo, o Chandelle ou ainda o nuggets de frango, todos têm receitas caseiras que são mais saudáveis. Assim, aos poucos, dá para ir trocando os industrializados por outros alimentos menos piores, vamos dizer assim, que ajudem a família a se adaptar a uma nova alimentação”.

Os desafios de deixar de lado os ultraprocessados

A lista de vilões da alimentação infantil é semelhante aos consumidos também pelos adultos. Em uma enquete realizada em suas redes sociais, a apresentadora do GNT e chef de cozinha Rita Lobo, uma defensora da “comida de verdade” , perguntou: “Qual ultraprocessado você ainda consome?”. Para sua alegria, disse Rita, muitos seguidores contaram que já estão livres desses produtos. Mas, entre o público que respondeu, os ultraprocessados mais consumidos são: refrigerante, biscoito recheado, salsicha e pão de forma.

“Atenção, ouça o que vou dizer: não é fácil, mesmo, excluir esses produtos da alimentação. Primeiro, porque são viciantes — feitos para você abrir o pacotinho e só parar de comer quando acabou! Mas tem outro problema, ainda pior: a maioria das pessoas não conhece a classificação dos alimentos por grau de processamento. Muita gente nem se dá conta de que está consumindo ultraprocessados“, escreveu Rita. Ela criou um desafio para quem deseja se ver livre dos ultraprocessados. Acompanhe aqui o Desafio 30 Dias Para Excluir os Ultraprocessados. Ainda, no site panelinha.com, é possível conhecer a classificação dos alimentos por grau de processamento.


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Para a chef Ariela Doctor, é preciso mudar nosso sistema alimentar

Para a professora e chef Ariela Doctors, a maneira como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos não é sustentável. “Portanto, faz-se necessário a transformação do nosso sistema alimentar. A saúde do sistema alimentar impacta a saúde e o bem estar da sociedade e do planeta, além de poder beneficiar a equidade social e promover a prosperidade da economia. Transformar nosso sistema alimentar é também uma forma de alcançar vários dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pelas Nações Unidas em setembro de 2015, quando os 193 países membros adotaram uma nova política global: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. O objetivo desta agenda é elevar o desenvolvimento do mundo e melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas”, disse Ariela, em um texto publicado no Papo de Mãe.

A alimentação saudável, relacionada com a sustentabilidade do planeta, tem sido preocupação constante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). “Como podemos garantir que todos possam comer melhor e com mais saúde, mantendo uma produção ambientalmente sustentável e resiliente ao clima? O futuro, não só da alimentação e da agricultura, mas do bem-estar e da sobrevivência de nossa espécie, está em grande parte em jogo na resposta que podemos dar a esta questão”, disse Julio Berdegué, representante regional da FAO. A FAO, juntamente com o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e o Programa Mundial de Alimentos (WFP) criaram uma aliança para discutir acordos na Cúpula de Sistemas Alimentares das Nações Unidas que possam ajudar, sobretudo, os países do Caribe e América Latina.


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O relatório da Nestlé

O jornal britânico disse ter tido acesso a uma apresentação que circulou entre altos executivos da marca de origem suíça, que afirma que apenas 37% dos alimentos e bebidas da Nestlé por receitas atingem uma classificação acima de 3,5 pelo sistema de estrelas de saúde da Austrália. A pontuação máxima nesse sistema é de 5 estrelas, sendo ele utilizado em pesquisas por grupos internacionais como a Fundação Acesso à Nutrição.

Segundo a empresa, a barreira de 3,5 é uma “definição reconhecida de saúde”. De todos os produtos na categoria alimentos e bebidas, cerca de 70% deles não alcançam essa barreira, disse a apresentação, juntamente com 96% das bebidas —excluindo o café puro— e 99% do portfólio de doces e sorvetes da empresa. Já 82% das águas e 60% dos laticínios chegam a esse patamar. Os dados excluem comida para bebês e para animais de estimação, café e a divisão de ciência da saúde, que faz alimentos para pessoas com condições médicas específicas. A apresentação diz que a empresa tem feito melhorias significativas em seus produtos, mas ainda carece de definições de saúde em um cenário em que a pressão regulatória e as demandas dos consumidores não param de crescer, informa o jornal britânico. Mark Schneider, atual executivo-chefe da Nestlé, admitiu que os consumidores querem uma dieta mais saudável, mas recusou alegações de que alimentos processados, incluindo os feitos pela Nestlé e outras empresas multinacionais, são ruins.

Entre os inúmeros produtos fabricados pela Nestlé, estão o achocolatado em pó Nescau, chocolates como o Chokito e Crunch, leite fermentado Chamyto, sorvetes como Prestígio ou Napolitano, cereais matinais como Crunch ou Cheerios, e preparados e congelados como Maggi. Saiba mais aqui.

A análise do Idec

Na mesma semana que circulou por todo o mundo a notícia sobre os alimentos da Nestlé, foi divulgado no Brasil uma análise feita pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) que mostra que boa parte dos alimentos ultraprocessados mais consumidos no país – muitos de forte apelo para o público infantil – apresentam resíduos de agrotóxicos. Segundo o estudo, refrigerantes, cereais matinais, salgadinhos e biscoitos de água, entre outros, contêm resíduos de 13 tipos de agrotóxicos. Em um simples biscoito água e sal, por exemplo, foram encontrados resíduos de até sete agrotóxicos. A lista de agrotóxicos inclui o glifosato, um polêmico herbicida considerado como “provavelmente carcinogênico ou capaz de causar câncer”, segundo o estudo. Já o glufosinato é um herbicida usado para eliminar plantas daninhas na lavoura e, segundo pesquisas, está relacionado à má formação embrionária e a problemas no sistema nervoso central em ratos. Acesse aqui o estudo.

Os agrotóxicos são muito usados em culturas como as de soja, milho e trigo, e têm suas quantidades determinadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o chamado limite residual máximo (LMR). As normas, porém, não contemplam alimentos industrializados.

Entre os 27 produtos analisadas a pedido do Idec, em 8 categorias, 16 apresentaram ao menos um resíduo de agrotóxico —59% do total. Nas categorias dos refrigerantes e dos néctares não houve nenhuma detecção.


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