Vacinação contra o coronavírus: adolescentes entram na fila, mas vez das crianças deve demorar

Adolescentes de 12 a 17 anos começam dia 18 de agosto a receber doses em São Paulo; no Brasil, só a Pfizer e o Butantan solicitaram aprovação da Anvisa para vacinar menores de 18 anos

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Vacinação contra coronavírus em crianças: perspectivas para o Brasil; médico com luvas azuis preparando vacina;
A imunização das crianças é crucial para atingir uma alta cobertura vacinal da população, ressaltam especialistas

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Felizmente, a vacinação contra o coronavírus vem avançando no Brasil e, em algumas cidades, os calendários vêm sendo antecipados. Agora, finalmente chegará a vez dos adolescentes, o que também abre perspectivas para a imunização mais célere das crianças. Em São Paulo, o governo estadual anunciou que a vacinação contra o coronavírus em adolescentes de 12 a 17 anos começou dia 18 no Estado, visto que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já aprovou o uso da vacina da Pfizer para essa faixa etária.

De acordo com o calendário anunciado pelo governo de São Paulo, de 18 a 29 de agosto serão vacinados apenas os jovens com comorbidades e deficiências, além de gestantes e puérperas. De 30 de agosto até 5 setembro, a vacinação será liberada para aqueles com idade entre 17 e 15 anos. Por fim, de 6 a 12 de setembro os jovens de 14 a 12 anos poderão ser imunizados.

Em agosto, os números têm sido surpreendentes: o estado de São Paulo registrou recorde de vacinação, aplicando 3,75 milhões de doses em uma semana, quantidade equivalente a população do Uruguai. Algo que contribuiu para a alta foi a chamada “Virada da Vacina”, que visava vacinar jovens a partir de 18 anos. O evento contou com uma enorme adesão, com filas de mais de 2 horas de espera para tomar a vacina, resultando em 924 mil doses aplicadas nos 645 municípios apenas no fim de semana. A capital paulista já se encontra com 99% dos adultos vacinados.

Infelizmente, nem todos os Estados estão conseguindo acompanhar este ritmo. Em Belo Horizonte, a vacinação de jovens com mais de 18 anos está prevista somente para o início de setembro. Já no Rio de Janeiro, as vacinas estarão disponíveis para esse grupo na sexta-feira (20). Com isso, é provável que os adolescentes comecem a ser imunizados no fim do mês. No entanto, a vacinação da população pediátrica ainda não é uma realidade. Mas a boa notícia é que os estudos estão progredindo.


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Testes em crianças começam, mas caminho é longo

No Brasil, até o momento, somente a Pfizer e o Instituto Butantan solicitaram aprovação para uso de suas vacinas em menores de 18 anos, segundo a Anvisa. A Pfizer já foi aprovada para maiores de 12 anos, mas o pedido do Instituto Butantan para a aplicação da Coronavac na faixa de 3 a 17 anos, que entrou no dia 30 de julho, foi rejeitado pela Anvisa e o laboratório ainda terá que fornecer mais dados para análise da agência reguladora. Em relação aos estudos, o laboratório Janssen solicitou autorização para condução de estudo com menores de 18 no Brasil e já recebeu a permissão da Agência. “O andamento do estudo é de responsabilidade do laboratório e os resultados são apresentados para a Agência no momento em que o laboratório tiver dados que considere suficientes para solicitar a aprovação em bula para este público específico”, declarou a Anvisa em entrevista por e-mail para a Canguru News.

Já no exterior, alguns países avançaram mais nos testes de vacinas para a população pediátrica. A BioNTech, farmacêutica da Pfizer, declarou que será realizado um estudo com um total de 4.500 crianças de seis meses a 11 anos nos Estados Unidos, Finlândia, Polônia e Espanha. Posteriormente, a Pfizer ainda considera avaliar a vacina para crianças com menos de seis meses. Na China, a Coronavac foi aprovada para crianças a partir de 3 anos, tornando-se o primeiro país do mundo a aprovar uma vacina contra o coronavírus para essa faixa etária.

Porém, mesmo com os avanços, ainda há um longo caminho até que crianças de todas as idades recebam a vacina contra o coronavírus, já que elas estão entre as últimas que passarão pelos testes. Isso está relacionado aos riscos e à reação do organismo, que pode variar de acordo com a faixa etária, segundo Maria Vitoria Seidl, pediatra e membro da Assessoria Clínica de Bio-Manguinhos/Fiocruz (Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos), unidade responsável pela produção da vacina AstraZeneca. “Quando uma nova medicação ou vacina é desenvolvida, o processo de testar essa substância em um ensaio clínico não é isento de riscos”, diz a médica. Por isso, todo estudo de novas substâncias passa por 4 fases diferentes, para avaliar a sua segurança e a eficácia. Os testes de vacinas no geral iniciam-se a partir dos adultos saudáveis, depois seguem para os adolescentes até chegar nos lactantes. 

“Crianças não são apenas adultos pequenos, elas têm um funcionamento fisiológico e um desenvolvimento diferentes. Então, elas podem apresentar reações adversas e riscos diferentes mesmo usando as mesmas substâncias que os adultos”, afirma a especialista. De acordo com Maria Vitoria Seidl, o momento dos estudos em crianças ainda chegará, pois são muito importantes para ajudar os pesquisadores a descobrir a melhor forma de tratar e proteger os pequenos. “Mas isso deve ser feito de forma muito cuidadosa, para trazer o mínimo de riscos e o máximo de benefícios para a criança. Por isso, os ensaios clínicos com crianças devem passar por avaliações éticas rigorosas e alcançar padrões específicos antes de serem liberados para recrutar participantes”, explica. 

Tânia Petraglia, médica pediatra e membro do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, concorda que não é possível apressar o processo, tudo precisa ser analisado com cautela. A médica também reforça que, para iniciar a imunização infantil, é necessário analisar dados científicos e epidemiológicos. “É preciso avaliar com muito cuidado se compensa vacinar uma população que não tem o risco aumentado de uma doença, mas têm o risco aumentado de reação vacinal”, diz. 

A aprovação da vacina Pfizer pela Anvisa para crianças acima de 12 anos é bastante significativa e pode-se esperar que outras vacinas contra o coronavírus também sejam aprovadas para crianças menores futuramente, segundo a médica. “É provável, à medida que novos ensaios clínicos comprovem eficácia e segurança de outras vacinas contra SARS-CoV-2 em populações infantis, que a Anvisa autorize a utilização em outras faixas etárias”, indica Maria Vitoria Seidl. 


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Por que crianças ainda não estão sendo vacinadas no Brasil?

Apesar da vacinação dos adolescentes ser um grande avanço, ainda faltam estudos para permitir o uso das vacinas em crianças. A população pediátrica apenas poderá receber as doses com a aprovação da Anvisa. “A pandemia é uma situação emergencial e inusitada, precisa vacinar primeiro quem é do grupo de risco”, aponta a médica Tânia Petraglia. Como as crianças, em sua maioria, não são a faixa etária com maior chance de óbitos, complicações, internações ou desfechos desfavoráveis, elas não foram prioridade para tomar a vacina contra o coronavírus.

Ano passado, o número de crianças por covid-19 equivale a cerca de 0,6%, neste ano, o número desce para aproximadamente 0,3%, segundo a especialista. É uma quantidade grande, sem dúvidas, mas, proporcionalmente, é um volume baixo. “Vacinar crianças e adolescentes é importante, mas tem a sua hora e tem que ser dentro do que as nossas vacinas permitem”, afirma.

Tânia Petraglia ressaltou que diversos municípios do Rio de Janeiro, por exemplo, apresentaram números abaixo do que é considerado satisfatório em relação à vacinação. “A população não está indo se vacinar, isso é importante frisar. Antes não tinha vacina, agora tem, mas não estão se vacinando. O povo precisa aderir à campanha de vacinação”, enfatiza.

“O que eu posso dizer é que a avaliação de crianças será a próxima etapa das pesquisas. Chegou a hora de estudar o papel da criança na doença e a necessidade de vacinação”, completa a médica.

A importância de vacinar crianças contra a covid-19

As vacinas aprovadas pela Anvisa passam por muitos testes e análises rigorosos para garantir a sua eficácia, por isso, quando o momento certo chegar, as especialistas reforçam que é fundamental que os pais levem os pequenos para serem vacinados. “As vacinas são seguras, os eventos adversos mais comuns são dores locais e reações sistêmicas leves, como qualquer outra vacina”, diz Tânia Petraglia.

Mesmo que as crianças geralmente apresentem sintomas leves, elas ainda podem transmitir o vírus para outras pessoas. Há também crianças que pertencem ao grupo de risco, apesar de ser mais raro, que podem desenvolver quadros graves. “A Síndrome Inflamatória Multissistêmica em crianças (MIS-C), por exemplo, é uma doença grave que está associada a infecção prévia pelo coronavírus”, explica a médica Maria Vitoria Seidl.

Além disso, a imunização das crianças é crucial para atingir uma alta cobertura vacinal da população. “Todos que estão sendo chamados precisam ser vacinados. Precisamos diminuir a circulação do vírus, o desenvolvimento de casos graves, a quantidade de óbitos e a possibilidade do surgimento de novas variantes”, conclui Tânia Petraglia.


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