Vacinação contra o coronavírus: já sabemos quando será a vez das crianças?

Após a vacinação dos adolescentes, prevista para ocorrer no segundo semestre, as crianças devem ser imunizadas

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Vacinação contra coronavírus em crianças: perspectivas para o Brasil; médico com luvas azuis preparando vacina;
A imunização das crianças é crucial para atingir uma alta cobertura vacinal da população, ressaltam especialistas

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A disseminação do coronavírus é uma questão muito preocupante. Felizmente, a vacinação contra o vírus vem avançando no Brasil e, em algumas cidades, os calendários vêm sendo antecipados. Em agosto, segundo informações das prefeituras de São Paulo e do Rio de Janeiro, devem ser imunizados os jovens adultos maiores de 18 anos. A etapa seguinte seria a vacinação dos adolescentes, que também parece estar próxima, visto que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já aprovou o uso da vacina da Pfizer contra o coronavírus em adolescentes de 12 a 15 anos.

No entanto, a vacinação da população pediátrica ainda não é uma realidade. Mas a boa notícia é que os estudos estão progredindo. A BioNTech, farmacêutica da Pfizer, declarou que será realizado um estudo com um total de 4.500 crianças de seis meses a 11 anos nos Estados Unidos, Finlândia, Polônia e Espanha. Posteriormente, a Pfizer ainda considera avaliar a vacina para crianças com menos de seis meses. No Brasil, o Instituto Butantan já solicitou os testes da vacina Coronavac em crianças maiores de 3 anos, assim como foi feito na China, e aguarda aprovação da Anvisa. Porém, mesmo com os avanços, ainda há um longo caminho até que crianças de todas as idades recebam a vacina contra o coronavírus.


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Testes em crianças

As crianças estão entre as últimas que passarão pelos testes das vacinas. Isso está relacionado aos riscos e à reação do organismo, que pode variar de acordo com a faixa etária, segundo Maria Vitoria Seidl, pediatra e membro da Assessoria Clínica de Bio-Manguinhos/Fiocruz (Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos), unidade responsável pela produção da vacina Astrazeneca. “Quando uma nova medicação ou vacina é desenvolvida, o processo de testar essa substância em um ensaio clínico não é isento de riscos”, diz a médica. Por isso, todo estudo de novas substâncias passa por 4 fases diferentes, para avaliar a sua segurança e a eficácia. Os testes de vacinas no geral iniciam-se a partir dos adultos saudáveis, depois seguem para os adolescentes até chegar nos lactantes. 

“Crianças não são apenas adultos pequenos, elas têm um funcionamento fisiológico e um desenvolvimento diferentes. Então, elas podem apresentar reações adversas e riscos diferentes mesmo usando as mesmas substâncias que os adultos”, afirma a especialista. De acordo com Maria Vitoria Seidl, o momento dos estudos em crianças ainda chegará, pois são muito importantes para ajudar os pesquisadores a descobrir a melhor forma de tratar e proteger os pequenos. “Mas isso deve ser feito de forma muito cuidadosa, para trazer o mínimo de riscos e o máximo de benefícios para a criança. Por isso, os ensaios clínicos com crianças devem passar por avaliações éticas rigorosas e alcançar padrões específicos antes de serem liberados para recrutar participantes”, explica. 

A dra. Tânia Petraglia, médica pediatra e membro do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria, concorda que não é possível apressar o processo, tudo precisa ser analisado com cautela. A médica também reforça que, para iniciar a imunização infantil, é necessário analisar dados científicos e epidemiológicos. “É preciso avaliar com muito cuidado se compensa vacinar uma população que não tem o risco aumentado de uma doença, mas têm o risco aumentado de reação vacinal”, diz. 

A aprovação da vacina Pfizer pela Anvisa para crianças acima de 12 anos é bastante significativa e pode-se esperar que outras vacinas contra o coronavírus também sejam aprovadas para crianças menores futuramente, segundo a médica. “É provável, à medida que novos ensaios clínicos comprovem eficácia e segurança de outras vacinas contra SARS-CoV-2 em populações infantis, que a Anvisa autorize a utilização em outras faixas etárias”, indica Maria Vitoria Seidl. 


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Por que crianças ainda não estão sendo vacinadas no Brasil?

“A pandemia é uma situação emergencial e inusitada, precisa vacinar primeiro quem é do grupo de risco”, aponta a médica Tânia Petraglia. Como as crianças, em sua maioria, não são a faixa etária com maior chance de óbitos, complicações, internações ou desfechos desfavoráveis, elas não foram prioridade para tomar a vacina contra o coronavírus. Ano passado, o número de crianças por covid-19 equivale a cerca de 0,6%, neste ano, o número desce para aproximadamente 0,3%, segundo a especialista. É uma quantidade grande, sem dúvidas, mas, proporcionalmente, é um volume baixo. “Vacinar crianças e adolescentes é importante, mas tem a sua hora e tem que ser dentro do que as nossas vacinas permitem”, afirma.

Outro fator que tem atrasado a vacinação da população mais jovem é a falta de adesão das pessoas do grupo de risco. Sem que elas sejam imunizadas, o calendário vacinal não consegue ser antecipado ou seguir para as outras faixas etárias. Tânia Petraglia ressaltou que diversos municípios do Rio de Janeiro apresentaram números abaixo do que é considerado satisfatório em relação à vacinação. “A população não está indo se vacinar, isso é importante frisar. Antes não tinha vacina, agora tem, mas não estão se vacinando. O povo precisa aderir à campanha de vacinação”, enfatiza.

Por isso, a pediatra acredita que ainda não é o momento de vacinar os pequenos, mas é preciso continuar avançando nas pesquisas. “O que eu posso dizer é que a avaliação de crianças será a próxima etapa das pesquisas. Chegou a hora de estudar o papel da criança na doença e a necessidade de vacinação. Isso vai acontecer mais pra frente, mas tem que avaliar quando é o momento ideal para começar”, aponta. Portanto, no Brasil, é possível que a vacinação das crianças pequenas contra o coronavírus apenas aconteça após a imunização das faixas etárias que correm maior risco e com a confirmação da eficiência e segurança da vacina.

A importância de vacinar crianças contra a covid-19

Quando o momento certo chegar, as especialistas reforçam que é fundamental que os pais levem os pequenos para serem vacinados. Mesmo que as crianças geralmente apresentem sintomas leves, elas ainda podem transmitir o vírus para outras pessoas. Há também crianças que pertencem ao grupo de risco, apesar de ser mais raro, que podem desenvolver quadros graves. “A Síndrome Inflamatória Multissistêmica em crianças (MIS-C), por exemplo, é uma doença grave que está associada a infecção prévia pelo coronavírus”, explica a médica Maria Vitoria Seidl.

Além disso, a imunização das crianças é crucial para atingir uma alta cobertura vacinal da população. “Todos que estão sendo chamados precisam ser vacinados. Precisamos diminuir a circulação do vírus, o desenvolvimento de casos graves, a quantidade de óbitos e a possibilidade do surgimento de novas variantes”, conclui Tânia Petraglia.


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