Aulas online e maternidade atípica

Eu tenho medo da volta às aulas, mas estou ficando com mais medo das consequências de todo esse tempo de aulas virtuais, sem amigos e sem o restinho de infância que precisa ser vivido

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Aulas online e maternidade atípica; na imagem, menino de blusa vermelha pinta algo em frente a um tablet e faz bico com a boca para o lado

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Quase seis meses em casa, sem ver os colegas, sem brincar junto, sem interação social, só aulas online, jogos online, conversas online. A completa dependência dos eletrônicos. E livros, salve os livros!

Sou uma mãe de um pré-adolescente que adora ler. Já passaram por aqui, em 2020, muito livros bons, cito alguns deles:

  • O menino do Pijama Listrado – John Boyne
  • Extraordinário – J.R. Palacio
  • Ranges Ordem dos Arqueiros 7 e 8 – John Flanagan
  • As Bruxas – Roald Dahl
  • Os Imaginários – A.F. Harrold

Acontece que o fato de não sair de casa acaba nos levando a mais tempo de tela, mesmo dividindo o tempo entre isso, os livros e uma partida de badminton no meio da sala. E aqui, como em muitas casas, tem um agravante, tenho um filho único, adolescente e atípico. Escrevi sobre o diagnóstico dele no meu livro: “Sem Paraíso e Sem Maçã”. Diagnóstico que, nesse momento de isolamento, me fez ter consciência sobre meus comportamentos e minha forma de pensar. Muita coisa da minha vida fez sentido quando entendi que, possivelmente, ele puxou tudo de mim.

Essa minha loucura de estar sempre lendo uns três livros ao mesmo tempo. De cantar uma música enquanto escrevo um texto sobre qualquer coisa que não tem nenhuma relação com aquela letra. De um dia deixar a casa completamente de pernas para o ar, e no dia seguinte ter um surto de organização, guardar tudo, jogar um monte de coisas fora. Mudar o layout da sala. Ou queimar o arroz porque saí da cozinha para pegar alguma coisa no quarto e aproveitei para guardar umas roupas.

Conviver com um cérebro hiperativo, que pensa em várias coisas ao mesmo tempo é muito cansativo, gera ansiedade. E mais tempo de tela só piora o quadro. A gente precisava muito mudar essa rotina. Sair e andar a pé como fazíamos todos os dias indo para a escola. Caminhar num parque, ficar em contato com a natureza. Tem tempo ao ar livre, andar de bicicleta, descansar a mente. Ter aula na escola, interagindo com os colegas, olhando nos olhos, sentindo a presença.

Entre a saúde física e a saúde mental, será que conseguiremos encontrar um caminho do meio antes que o ano letivo termine?

Mas as aulas presenciais não voltam, e se voltarem teremos o medo do retorno. Como vai ser para as crianças, não poder ter contato físico, não trocar objetos, não abraçar, conversar de longe, usar máscara? Acho apavorante pensar na transmissão do coronavirus no ambiente escolar, sem vacina. Entre a saúde física e a saúde mental, será que conseguiremos encontrar um caminho do meio antes que o ano letivo termine? Eu tenho muito medo da volta às aulas, mas estou ficando com mais medo das consequências de todo esse tempo de aulas online, de isolamento. Dessa falta dos amigos, das brincadeiras, do restinho de infância que ainda precisa ser vivido.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.

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