Retorno às aulas presenciais: 10 aspectos a analisar antes da decisão

A Canguru News preparou uma lista com 10 tópicos que são uma espécie de guia de autoquestionamento, sem prejulgamentos ou juízos de valor, para ajudar os pais a refletirem quanto a mandar ou não os filhos à escola

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Retorno às aulas presenciais: 10 aspectos a analisar antes da decisão; menina de máscara apoia cabeça sobre braços sentada em carteira escolar: mãe efilha sobem escadaria de mãos dadas, cambas de máscara e criança cm mochila nas costas

Leia em 32 minutos

Por Amanda Nunes Moraes, Ivana Moreira, Malu Delgado, Renata Corte e Verônica Fraidenraich

Muitas escolas da rede pública e privada estão reabrindo para o retorno às aulas presenciais. A reabertura ocorre em um dos momentos mais críticos da pandemia de covid-19 desde que ela começou a se alastrar pelo Brasil, em março de 2020. O processo de reabertura das escolas não será unificado, pois inexiste uma coordenação nacional que oriente educadores, pais, funcionários e os próprios estudantes sobre protocolos e riscos. Sem uma diretriz nacional e coordenada, as famílias se veem diante do dilema de tomar individualmente a decisão: deixo ou não meu filho retomar o ensino presencial? É o momento adequado? Que questões eu devo levar em consideração na atual conjuntura brasileira para tomar essa decisão? 

A Canguru News preparou uma lista com 10 tópicos com argumentos que são utilizados por pais, educadores, profissionais da saúde e outros especialistas para justificar ou criticar o retorno presencial neste momento. Nosso objetivo é fornecer aos pais uma espécie de guia de autoquestionamento, sem prejulgamentos ou juízos de valor. Nem mesmo os especialistas acham possível dizer sim ou não, de forma tão enfática, a muitas das perguntas que são feitas pelos pais neste momento. Isso só corrobora a visão de que o contexto que estamos vivendo é complexo e que, muitas vezes, não se trata de tentar definir o certo e o errado.

Ao ouvir pessoas que têm opiniões opostas e apontam diferentes perspectivas sobre um tema tão complexo e delicado, reunindo também alguns dados e fatos, a Canguru News busca dar algum auxílio aos pais na hora de tomar a decisão. Por isso, elencamos prós e contras a partir de cada afirmação, ouvindo especialistas. É importante, ainda, avaliar que a realidade das escolas privadas é absolutamente distinta das escolas públicas. Mas isso também é um ponto que merece a atenção dos pais e da sociedade, segundo especialistas. Analise cada um dos itens e pense na sua decisão.

Veja aqui os 10 tópicos abordados e clique neles para ler as respostas:

  1. O déficit de aprendizagem das crianças é inegável. Isso justifica o retorno às aulas presenciais agora?
  2. O ensino remoto prejudica seriamente o processo de alfabetização?
  3. Os danos psicológicos às crianças são maiores do que o risco de se expor à pandemia?
  4. Os protocolos sanitários nas escolas são seguros, a maioria das crianças é assintomática. Isso permitiria a volta?
  5. A escola não precisa estar aberta para todos. As escolas devem abrir para atender famílias em condições específicas: com dificuldade de aprendizagem, sem acesso a tecnologias cujos pais trabalham com serviços essenciais.
  6. O bem-estar do meu filho está acima de tudo, inclusive do bem-estar coletivo.
  7. Só a vacinação vai proteger os professores
  8. A geração covid (das crianças privadas de socialização) vai pagar caro na vida adulta e profissional
  9. A escola é um ambiente seguro e atividade essencial. Se shopping pode abrir, escola também pode.
  10. Neste momento, com a disseminação de novas variantes, há um risco epidemiológico maior, então o retorno às aulas presenciais deve ser adiado.

1. O déficit de aprendizagem das crianças é inegável. Isso justifica o retorno às aulas presenciais agora?

Os prejuízos à aprendizagem durante a pandemia têm sido objeto de inúmeros estudos e pesquisas. O ex-ministro da Educação e atual secretário da Educação de São Paulo, Rossieli Soares, afirmou recentemente que a suspensão das aulas presenciais nas escolas trará “um problema geracional inestimável” que afetará a qualidade do ensino superior. Relatório do Banco Mundial divulgado em março também mostrou que, sem aulas presenciais, sete em cada dez alunos no Brasil poderão terminar o ensino fundamental sem ler nem entender textos simples.

NÃO: Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas, ex-secretária municipal de educação do Rio de Janeiro e professora visitante na Faculdade de Educação de Harvard (EUA)

“Não dá para negar que foi uma baita perda de aprendizado, principalmente na alfabetização a distância. Dentre todos os trabalhos que os professores fazem, esse seria talvez o mais artesanal, não tem como dar aula coletiva de alfabetização. Tem que olhar para cada criança e a produção textual dela, em que estágio do processo de alfabetização se encontra. Crianças de 8 e 9 anos que não se alfabetizaram, infelizmente são uma realidade. Outra coisa que perdemos é o sequenciamento no processo de desenvolvimento de habilidades. Isso prejudicou principalmente as crianças de famílias vulneráveis que frequentam escolas públicas, pois o processo de ensino e aprendizagem assíncrono (sem interação em tempo real com os professores), realizado por meio de cadernos pedagógicos ou atividades via programas de TV e rádio, não permite uma sequência no desenvolvimento de habilidades. No computador, tampouco é o ideal, mas há uma interação direta com o professor, você o vê e pode falar com ele. Pesquisas educacionais revelam que a perda de aprendizagem é muito grande. A Bélgica fez um estudo prospectivo, olhando para o futuro, que mostra que os dois meses fora da escola naquele país vão trazer impactos inclusive no salário futuro dessas crianças, quando adultas. Há também perda de vínculo com a escola, porque a aprendizagem é um processo humano, de aprofundamento, o que foi prejudicado no ensino remoto. E ao perder o vínculo com a escola, as chances de abandoná-la são imensas e já estamos lidando com isso. Ao conversar com autoridades educacionais do mundo inteiro, todos se dizem perplexos com a perda, o que não quer dizer que ela não possa ser reposta. Claro que uma coisa é repor a perda nas famílias de classe média, a outra coisa são as crianças de famílias mais vulneráveis. Nestas, o efeito escola jamais será reposto. Há uma retomada do trabalho infantil, a criança está indo trabalhar para enfrentar a crise econômica que acompanha crise sanitária. Se não tivermos políticas públicas competentes, estamos jogando as crianças na miséria, a possibilidade de mobilidade social não vai existir mais.

Entendo a preocupação grande dos governos em tentar levar crianças de volta à escola, mas não creio que seja o momento ideal, estamos na fase mais grave da pandemia. Há um certo sentido de urgência, que tem que ser cotejado com os riscos à saúde. Não sou epidemiologista, mas tenho a intuição que talvez valesse a pena esperar mais um pouco para voltar. Entendo quem acha que é momento de voltar. Agora como já descobrimos, na pandemia, as crianças transmitem menos e se contaminam menos, então, alguns estados e municípios estão começando a volta pelas crianças menores. Deveríamos sim ter voltado em outubro e setembro, quando muitas escolas não voltaram por interesses por parte dos governos nas eleições ou medo de que algo ruim acontecesse naquela época. Agora, vamos ter que aprender a lidar com o abre e fecha constante, dependendo das condições e estado de saúde da pandemia, até que todos se vacinem, o que vai levar um tempo.”

SIM: Isabel Quintela, mãe e porta-voz do movimento civil Escolas Abertas, que, segundo os organizadores, tem entre 150 mil e 200 mil apoiadores em todo o Brasil.

“A gente acha que o déficit de aprendizagem justifica, sim, a retomada das aulas presenciais. Existem diversas pesquisas publicadas que mostram que o ensino remoto não funciona. Um desses estudos, feito na Holanda e publicado esta semana, conduzido pela Oxford University, concluiu que mesmo no “melhor cenário” de um curto tempo de fechamento das escolas e ótima qualidade de banda larga, a aprendizagem dos alunos do ensino fundamental foi profundamente afetada. O aprendizado propriamente dito ficou a desejar no ensino remoto, que não consegue suprir o que é feito no presencial. Considerando, obviamente, que escolas que seguem os protocolos estabelecidos são locais seguros. Também de acordo com embasamento científico se comprovou que a taxa de transmissão do vírus é até 33 vezes menor nas escolas do que na comunidade, o que mostra que a escola é um ambiente controlado e seguro para as crianças. A gente acredita que o déficit de aprendizado deve ser recuperado através de aulas presenciais. Não é possível fazer isso de forma remota. A gente escuta muito as pessoas falarem que o aprendizado se recupera, mas a vida não, mas não é verdade que o aprendizado se recupera. A Organização das Nações Unidas (ONU) chegou a afirmar que este ano de escolas fechadas no Brasil pode significar uma perda de duas décadas de aprendizado e isso não se recupera em um ano nem em dois anos. Trata-se de uma geração que terá sua vida afetada de forma permanente pelo fechamento das escolas. Há uma estimativa que 1,8 milhão de crianças no ano passado deixaram de ser alfabetizadas só no Estado de São Paulo. Essas crianças provavelmente não voltarão a ser alfabetizadas. Minha opinião quanto à retomada das aulas presenciais é especialmente para a rede pública, em que muitas crianças não participaram das aulas e não chegaram a fazer nenhuma das atividades propostas. Acho que a criança da rede privada acabam tendo mais comunicação e acesso que as crianças da rede pública não tem. E vale lembrar que muitas crianças não estão em isolamento social, estão nas ruas sem máscara, jogando bola nos rios, nos campos. Para essas crianças, a escola oferece mais segurança. Quanto à afirmação de que queremos mandar os filhos à escola porque não os aguentamos mais em casa, acho que isso é denegrir a própria função essencial e vital que a escola e o professor têm na formação de um cidadão. Se fosse questão de tirar os filhos de casa, poderíamos mandá-los para qualquer outro lugar.”


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NÃO: Catarina de Almeida Santos, professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) e dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

“Não é hora de retomar as aulas presenciais nas escolas. É preciso garantir as condições adequadas para a oferta do ensino remoto emergencial e pensar com cautela. Nada que coloque em iminente risco a vida pode justificar que a gente retome as aulas presenciais. Não adianta resolver o déficit de aprendizagem e matar as pessoas, é preciso estar vivo para resolver o déficit, logo não posso justificar a reabertura devido às perdas no aprendizado. Precisamos pensar quais condições precisaríamos ter para retomar atividades presenciais sem colocar vidas em risco. Esse tem que ser o pressuposto básico do governo. Em nenhum lugar temos a garantia de que as aulas presenciais não colocam a vida em risco. É bom lembrar que os que mais necessitam da escola e mais sofrem com a perda na aprendizagem são os mais vulneráveis. Crianças em condições de violência, que precisam da escola não só pela questão da educação, mas também pela alimentação, socialização, falta de infraestrutura e espaço em casa para estudar, entre outros aspectos. Cabe ao governo garantir melhores condições de vida a essas famílias para que não sejam tão dependentes da escola. As crianças que estão no remoto e têm espaço em casa para estudar, acesso à tecnologia, alimentação adequada, pessoas que as ajudam, o remoto resolve muito mais. Na rede privada, há uma pressão para reabrir escolas, que estão mais bem equipadas para atender os alunos neste momento. Há famílias que não suportam a ideia de ficar em casa com os filhos. Além disso, são famílias que no caso de contaminação têm melhores condições e acesso à saúde. É um conjunto de elementos que ameaçam os mais vulneráveis e favorecem os menos vulneráveis, para os quais o déficit de aprendizagem é menor e poderá ser recuperado tranquilamente no retorno às aulas. As crianças mais pobres terão mais perdas, mas se o governo olhar com seriedade ainda pode recuperá-las. O que mais me impressiona é que está todo mundo preocupado com o déficit agora, mas ninguém se preocupa com isso quando as escolas estão abertas. Reabrir escolas pode matar esses jovens e suas famílias, mais do que já estamos matando.

Por nós, as escolas jamais teriam fechado. Mas a situação da pandemia está crítica. São Paulo está sem o kit intubação, por exemplo, não é coerente reabrir escolas que sequer têm ventilação. As novas cepas são mais contagiosas, fechamos escolas em situação bem mais tranquila e agora queremos reabrir no pior momento. Tem a ver com o nível de compromisso social, com o coletivo, que as pessoas têm em relação ao vírus. Não é uma responsabilidade individual, do tipo eu mando (meu filho para a escola) e assumo o risco. É uma questão coletiva, precisamos entender essa lógica.

Quando se toma decisão de reabrir escolas num país que tem uma diversidade gigantesca, não se pode pensar nas escolas públicas e privadas da mesma forma. Ao dizer que a escola não é espaço de contaminação, é preciso saber de qual escola estamos falando. É preciso ter a situação controlada, com equipamento individual de proteção e pessoal em quantidade suficiente. Estudos internacionais estão revendo posições mostrando que há dados de aumento de contaminação quando se reabre a escola, mostrando que com novas cepas essa questão muda muito. Não se pode ignorar que a rede de escolas privadas está dentro da sociedade e a pandemia não se resolve com ações pontuais em nenhum país, muito menos numa rede que é a minoritária. A rede privada precisa pensar na questão coletiva e não em resolver o seu problema. Cabe aos governos garantir condições de saúde e vida para todos os sujeitos que estão na escola, professores, servidores, alunos e familiares. Há 5 milhões de trabalhadores da educação e 50 milhões de estudantes da educação básica. Isso é um terço da população. Se considero mais duas pessoas implicadas em cada estudante, pelo contato cruzado, é muita gente que corre o risco de contrair covid. A população brasileira tem 10 milhões de estudantes na rede privada e 40 milhões nas públicas, espalhadas nos mais diferentes cantos do Brasil e em condições diversas. Precisa olhar para todos esses dados.

Debora Garofalo

SIM: Debora Garofalo, coordenadora do Centro de Inovação da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, formada em letras e pedagogia e com 16 anos de experiência como professora da rede pública de São Paulo. Em 2019 foi a primeira brasileira e sulamericana a chegar entre os top 10 do Global Teacher Prize, Nobel da Educação, sendo considerada uma das 10 melhores professoras do mundo.

“É essencial que a sociedade e os pais compreendam que estamos vivenciando um processo remoto com tentativas de fazer esse retorno presencial. Isso sem dúvida nenhuma tem um profundo déficit aprendizagem em crianças e jovens que levaram a diversos problemas psicológicos por conta da ausência da escola, a qual não é apenas um local de aprendizagem: ela cumpre outro papel, de proteção da infância, de acolhimento, de integração, mas também de socialização do espaço escolar, pautado em uma educação integral. Tudo isso deve ser levado em consideração. Todas as escolas receberam orientações claras de seguir protocolos sanitários, de realizar adequações necessárias para receber retorno gradual, respeitando inclusive um limite para realizar distanciamento social. Estudos já mostraram que jovens de forma geral não são aqueles com potencial risco de pegar a doença e de ter complicações mais sérias. Por isso que até a vacinação iniciou-se com os mais velhos que sim são considerados com grau de letalidade muito maior. Após um ano de escolas fechadas, relatório do Banco Mundial mostrou que ao menos 5,5 milhões de meninos e meninas não conseguiram no nosso país fazer algum tipo de estudo remoto, o que significa que a chance dessas crianças e jovens abandonarem a escola é muito maior. O Banco Mundial também mostra que a pandemia pode levar a uma redução global de proficiência média de 16 pontos, ou seja, esses estudantes podem retroceder no processo de aprendizagem. Sem dúvida nenhuma todos esses fatores devem ser considerados nesse momento para esse retorno gradual, que repito, não é um retorno feito de qualquer jeito, é um retorno que deve considerar protocolos e saneamentos necessários ao distanciamento social mas que também considere a educação como pilar fundamental para o desenvolvimento não só cognitivo, mas também socioemocional dessas crianças e jovens.


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2. O ensino remoto prejudica seriamente o processo de alfabetização?

Segundo o Plano Nacional de Educação, que determina diretrizes, metas e estratégias para a política educacional nacional no período de 2014 a 2024, deve-se garantir nesse prazo que todas as crianças estejam alfabetizadas, no máximo, até o final do terceiro ano do ensino fundamental, por volta dos 8 anos de idade. Porém, dados mais recentes da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), de 2016, mostram que menos da metade (45,3%) das crianças aos 8 anos de idade tinham aprendizagem adequada em leitura e 66,1% em escrita. Se conseguir avanços nesse sentido já era um desafio, com a pandemia a situação se agravou. Em nota publicada no ano passado, a Associação Brasileira de Alfabetização (ABAf) mostrou-se preocupada com a alfabetização na pandemia. A organização, que busca articular, acompanhar e fomentar pesquisas e políticas públicas no campo da alfabetização, levantou uma série de aspectos que são prejudicados no ensino remoto, entre eles o deslocamento para professores e famílias de responsabilidade que é da administração dos sistemas educacionais, sejam eles públicos ou privados. O domínio pelos professores de ferramentas de comunicação virtual e digital, de mídias específicas e suas linguagens, que não se resolvem meramente do ponto de vista técnico, é outro ponto preocupante para o êxito da alfabetização a distância, segundo a entidade.

Renata Frauendorf, formadora do Instituto Avisa Lá

SIM: Renata Frauendorf, coordenadora de programas de alfabetização do Instituto Avisa Lá, que oferece projetos de formação para professores

“A escola é um espaço potente para contribuir com o processo de alfabetização das crianças, mas em situações extraordinárias como esta, se não há outra alternativa que não o ensino remoto, não vou dizer que não se pode fazer nada. Muitas crianças, que têm estrutura em casa para as aulas online, aprenderam no ano passado e seguem aprendendo. Porque a leitura e a escrita acontecem socialmente, não é só na escola que a criança experimenta situações que envolvem a linguagem. Em casa, ela está cercada por livros, jornais, mensagens de texto, ela observa as pessoas escrevendo mensagens no Whatsapp, vê os recados na porta da geladeira e tudo isso contribui para aproximá-la do universo letrado. Para a grande maioria das escolas, porém, conseguir alfabetizar a distância é um desafio. Porque a alfabetização é um processo amplo, que inclui intervenções do professor e uma relação maior com a cultura escrita, que permita vivenciar situações diversas de leitura e promova a reflexão sobre o texto escrito. Além disso, e, principalmente, é preciso promover a interação das crianças com seus pares – a troca de experiências entre uma que sabe mais e uma que sabe menos favorece o aprendizado. No ensino remoto, há uma perda grande nesse sentido. Agora, quem entende a alfabetização como o simples aprendizado das letras do alfabeto e a capacidade de escrever palavras, pode dizer que o ensino remoto funciona. Ao meu ver, alfabetizar de forma remota é um dado atual num contexto específico, e isso não deve ser entendido como o habitual. Tampouco deve ser usado de exemplo para a defesa do homeschooling, prática que não defendo em hipótese alguma. Avalio porém que neste momento grave da pandemia vale aguardar mais um pouco antes de mandar as crianças à escola”

SIM: Amanda Cristina Lino, professora de escola municipal em Iperó, no interior de São Paulo, e com experiência anterior em escolas particulares do município.

“Há muitas barreiras e dificuldades no ensino online, a começar pela falta de acesso à internet e equipamentos para poder participar das aulas. Com ferramentas digitais você consegue introduzir as crianças no universo da leitura e escrita, mas o processo mais amplo de alfabetização, que não se resume à memorização de palavras, depende do ambiente escolar, do trabalho realizado em sala de aula, a frequência à biblioteca, e professores presentes nessa prática cotidiana, o que muitas famílias, mesmo de escolas privadas, não conseguem desenvolver. Também é importante a referência de outras crianças nesse processo, a troca de experiência entre elas, sempre com a mediação do professor, o que no online não acontece, é preciso um ensino individualizado, com orientação aos pais, priorizando atividades lúdicas. Você até consegue ensinar uma sequência alfabética, mas todo esse processo rico da cultura letrada é mais difícil. Alfabetizar uma criança não significa ensinar a ela a escrever palavras, é muito mais que isso. Quando a gente ensina a criança a escrever seu nome, por exemplo, ela também vai aprender que o nome dela diz muito sobre sua história, qual a relação dela com os familiares, tudo sendo trabalhado com muita ludicidade, o que no online exige a mediação de um adulto, mas nem sempre os pais têm condições de assumir esse papel. Além disso, num contexto coletivo a criança responde positivamente, já com os pais ela tende a apresentar mais resistência em executar atividade, a relação com o ambiente de escolarização é outro. A pandemia trouxe um processo de interrupção de escolarização. Nos adaptamos em algumas atividades, mais com foco no letramento do que em superar índices de analfabetismo existentes no país.

SIM: Lúcia Denardi Guapa, professora do 2º ano do do ensino fundamental da rede municipal em São Paulo, e de filosofia no ensino médio na rede estadual paulista.

“Eu acredito que não é possível alfabetizar no online. Meus alunos do 2o ano, que no ano passado eram do 1o ano, não sabem escrever o seu nome, nem reconhecem o alfabeto. Na minha sala, apenas dois alunos de um total de 32 acessam as aulas via remota. Tenho também cinco alunos indo no presencial. Os outros, vamos começar a fazer busca ativa – ir na casa deles falar com os pais – e pedir que busquem as atividades na escola. Nessas condições, o ensino remoto não funciona, assim como não está funcionando a alfabetização presencial, dadas as circunstâncias dos alunos virem no revezamento. A criança precisa de acolhimento, de contato, e mesmo de afeto, o que não podemos ter agora por questão de segurança. É uma troca para conseguir que avance no processo de alfabetização e isso a gente não consegue fazer a distância. Ainda assim, acho melhor o remoto do que o presencial porque ao menos a criança está segura e o professor também.”


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NÃO: Marta Christina Barros Bello, professora do 1º ano do ensino fundamental da Ueb Professor Rubem Teixeira Goulart, e coordenadora local da Rede Conectando Saberes, em São Luís (MA). Martha também atuou por 20 anos na rede privada, dando aulas de filosofia e artes no ensino fundamental e no ensino médio.

“Em 2020, iniciamos as aulas somente em agosto, mas consegui alfabetizar minha turma, um grupo de 15 alunos. O coletivo fica totalmente comprometido, as trocas entre as crianças não acontecem da maneira como gostaria, mas procurei outras maneiras de envolvê-los nas atividades, fazendo apresentações de conteúdos em slides, vídeos, áudios, leituras, jogos e produções artísticas, sendo o principal meio de comunicação o Whatsapp. Tudo parte sempre de um planejamento bem pontual e encadeado, com uma sequência bem amarrada para promover um melhor aproveitamento dos conteúdos. Eu não trabalho com disciplinas separadas. Misturo, por exemplo, matemática, língua portuguesa e ensino religioso em uma mesma aula. Preparo material de forma que eles se interessem pelos temas, porque no remoto é difícil prender a atenção de crianças, e ainda mais sendo uma escola pública de periferia no Maranhão, em que muitos pais não sabem ler nem escrever e muitas vezes as crianças ficam também com os avós, que estão pouco familiarizados com as tecnologias. Não crio, portanto, aulas mirabolantes, procuro fazer coisas simples, em que as crianças possam participar de verdade. Até porque elas já estão muito sobrecarregadas emocionalmente, se forço a barra fica muito estressante. O papel dos pais na alfabetização online é fundamental, e se eles não têm domínio das ferramentas tudo se torna mais difícil – mas não impossível. Quando o assunto é mais complexo, faço uma espécie de tutorial para os pais poderem fazer a atividade com o filho – se é um jogo, gravo um vídeo explicando como deve ser jogado e se alguém não entende repito a explicação de outra forma. Exploro muito a oralidade, peço que as crianças expressem o que entenderam, se faz sentido para elas e assim tenho conseguido alfabetizá-las. No 1º ano, elas não precisam estar totalmente alfabetizadas, mas elas saem conhecendo o sistema alfabético e conseguem produzir pequenos textos, explicar fenômenos.

3. Os danos psicológicos às crianças são maiores do que o risco de se expor à pandemia?

Lidia Nakamura

SIM: Dra. Lidia Nakamura, psiquiatra da infância e da adolescência do Centro Psiquiátrico Interdisciplinar (CENPI), em São Paulo.

É inegável que o isolamento social gera muitos impactos psicológicos nos pequenos. “As crianças têm tido mais sintomas de insônia, ansiedade, depressão e aumento de exposição a tempo de tela. Além disso, mais conflitos familiares acontecem e elas ficam mais vulneráveis a situações de violência”, explica a Dra. Lidia. Ela ressaltou que a escola tem um papel fundamental na formação da criança, que vai além do pedagógico: “É lá que elas vão viver experiências que contribuirão para o desenvolvimento de suas competências sócio-emocionais, e isso é muito precioso. Os danos psicológicos como consequência do isolamento social podem de fato ser muito extensos. A volta às aulas, com os cuidados necessários, deve ser priorizada, desde que se cumpram as recomendações”, completa Lidia. Entretanto, ressalta que como São Paulo saiu da fase emergencial recentemente, nenhum lugar fora de casa é completamente seguro. Por isso, reforça que é compreensível que algumas famílias ainda estejam receosas e não se sintam seguras a respeito da aula presencial.

DEPENDE: Cristiane Rayes, psicóloga clínica e educacional de São Paulo, coautora de “Autoestima de A a Z”

Para Cristiane, o emocional das crianças durante a pandemia é um assunto muito complexo: “Quanto aos danos psicológicos, não posso afirmar se são maiores do que se expor, depende muito do contexto que a criança está inserida, da rotina da família, dos estímulos oferecidos”. Cristiane ressaltou que, mesmo que algumas crianças tenham a possibilidade de ficar mais próximas dos pais ou familiares quando estão em casa, essa não é a realidade de todos.

“As crianças precisam de socialização, precisam de escola. De forma geral, elas sentiram e ainda sentem muita falta das aulas presenciais”, diz a psicóloga educacional. Segundo Cristiane, uma recomendação para as famílias, independente da escolha, é mostrarem-se seguros sobre a decisão para não transmitirem seus medos e ansiedades para os pequenos.


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NÃO: Fabíola Freire Melo, doutora em psicologia da educação e professora da PUC-SP

“Me preocupa profundamente os danos psicológicos que a pandemia está gerando a todos, incluindo as crianças. Mas, o princípio maior para pautar o retorno da escola é a vida. O ponto de partida dessa decisão não podem ser os prejuízos psicológicos individuais”, explica. Fabíola destaca que, embora as crianças sejam menos contaminadas, elas também estão em risco. “É difícil de ensinar para as crianças, mas elas precisam aprender sobre a responsabilidade coletiva necessária para este momento que estamos vivendo. Esse também é o papel da educação”, defende.

Segundo a doutora, seria muito mais danoso para as crianças precisarem lidar com perdas de pessoas que podem estar relacionadas com a reabertura das escolas. Além disso, as aulas presenciais têm aumentado o contágio entre professores. Para ela, é possível buscar interação entre as crianças de forma remota. Os professores estão cada vez mais se adaptando ao modelo digital.

NÃO: Sergio Luís Braghini, psicólogo e professor docente na FESPSP – Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

“Danos psicológicos nem sempre são permanentes. Danos causados pelo vírus podem ser permanentes. Um deles é a morte de alguém. A criança assintomática pode transmitir o vírus a outros. E qual é o dano psicológico que essa criança vai sofrer ao imaginar que talvez a avó dela tenha morrido e foi ela que transmitiu? Estamos pensando neste dano psicológico? Agora a criança não está pensando nisso, nesta faixa etária ela nem tem condições de pensar sobre isso. Mas isso virá à tona quando ela entender o mundo. Essa premissa é equivocada. Eu prefiro tratar de danos psicológicos do que de sequelas irreversíveis. A Fapesp já fala sobre a necessidade de se criar protocolos para os sequelados de covid-19. Não é uma doença em que você tem problemas de olfato e paladar e isso passa. Cinquenta e cinco por cento das pessoas infectadas têm problemas cardíacos. Achar que o dano psicológico é maior é uma premissa equivocada.”

4. Os protocolos sanitários nas escolas são seguros, a maioria das crianças é assintomática. Isso permitiria a volta?

Desde dezembro do ano passado, a educação é tratada como essencial em São Paulo e, assim, o funcionamento é permitido em todas as fases do Plano São Paulo. No entanto, o decreto assinado em 26/03/2021 pelo governador João Doria vai além da pandemia. Em nota oficial divulgada no último dia 13 de abril pelo governo estadual, o Estado de São Paulo reconhece para qualquer fim que a educação básica no Estado de São Paulo é uma atividade essencial. Segundo a nota, “o Projeto de Lei (PL) nº 5595/2020, que tramita na Câmara dos Deputados, sobre a essencialidade da atividade Educação, merece todo o apoio de qualquer gestor público e cidadão que tenham o mínimo de visão e consciência sobre a importância do tema para vencermos todo o déficit gigantesco de aprendizagem que milhares de estudantes estão tendo em meio a esta terrível e perversa pandemia”.

Para o governo do Estado, as escolas abertas contribuem para a segurança alimentar dos mais pobres, para a socialização, saúde mental, integridade física e proteção social dos estudantes. Além disso, a Secretaria de Estado da Educação de SP instituiu a Comissão Médica da Educação, formada por médicos pediatras, entre eles membros da Sociedade Brasileira de Pediatria e do próprio Centro de Contingência do Coronavírus, para orientação sobre os protocolos de segurança.

Na sexta-feira, dia 16, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), divulgou nota criticando a categorização de aulas presenciais como um serviço essencial. “Na prática, isso significa que, mesmo em situação de alto risco na pandemia, os estados e municípios serão obrigados a manter as aulas presenciais”, diz trecho da nota divulgada pelo Consed.


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DISCORDO: Patrícia Canto, pneumologista e pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
“A maioria das escolas tem feito suas adaptações, definindo protocolos de saúde, que devem ser bem rígidos, bem como a vigilância entre os profissionais da Educação. Porém, não existe risco zero. Toda vez que há um grupo de trabalho, da escola, sempre existe a possibilidade de alguém adoecer, mesmo tomando todos os cuidados. As crianças realmente são um grupo menos acometido pela doença, mas mesmo assim nós não podemos garantir, 100%, que não haverá transmissão. O tema deve ser discutido individualmente, em cada escola, com pais, alunos e professores, dentro do possível, sabendo que risco zero, infelizmente, não existe”. Abaixo, Patricia comenta o retorno às aulas presenciais.


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CONCORDO: Claudia Vidigal, mestre em psicologia social e representante da Fundação Bernard van Leer no Brasil (fundação privada voltada ao desenvolvimento da primeira infância)

“Acreditamos no potencial das cidades e Estados para articular o retorno às aulas presenciais de forma responsável. O retorno é possível, mas ele depende de uma reflexão profunda, com perdas e ganhos, e um planejamento que considere adaptações nas dinâmicas escolares para torná-lo mais seguro para as crianças e os profissionais envolvidos”.

5. A escola não precisa estar aberta para todos. As escolas devem abrir para atender famílias em condições específicas: com dificuldade de aprendizagem, sem acesso a tecnologias cujos pais trabalham com serviços essenciais.

“Para as crianças com dificuldade de aprendizagem, as aulas online representam perdas muito grandes, reais, e, por vezes, até irreparáveis”, diz a psicopedagoga Marisa Bianco, psicopedagoga especialista no atendimento de alunos portadores de distúrbios de aprendizagem. Segundo ela, as perdas são nos campos cognitivo, afetivo e social. Marisa lembra que crianças portadoras de transtornos dificilmente conseguem acompanhar o ritmo da turma no ambiente virtual, não falam sobre suas dúvidas e acabam tendo uma defasagem ainda maior em relação aos colegas. “Para essas crianças, o olho no olho com os professores e os colegas é essencial”, afirma a especialista, que é favorável ao retorno às aulas presenciais. “Nada substitui o trabalho presencial para esses alunos.”

6. O bem-estar do meu filho está acima de tudo, inclusive do bem-estar coletivo.

Sergio Luís Braghini, psicólogo e professor docente na FESPSP – Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

“Chegamos a esse ponto porque realmente o Brasil não adotou uma política que muitos países fizeram e trouxeram resultados mais eficazes. Você faz um lockdown sério, por duas, três semanas, ou um mês, e depois retoma as atividades, e faz de novo. Esse pensamento de que a importância do filho é maior do que a coletividade não é muito diferente do que pensa o governo quando faz as contas sobre o número de hospitalização, de vagas na UTI. Não estão pensando na morte das pessoas. E eu estou pensando na minha estrutura, e não na vida dos outros. Então vamos dizer que essa lógica está disseminada no Brasil. Essa premissa vai gerando as outras, como essa do retorno ou não às aulas presenciais. É inegável que o ensino online, e todos os nomes chiques que se possa dar a isso, na educação básica, ele realmente não tem a mesma eficácia que o ensino presencial. Jamais. Até porque este modelo de levar a educação através de escolas, historicamente datado, acompanha essa nossa história de que a coletividade se dá com o laço social com o outro. Então a escola não é apenas o lugar de transmitir conhecimento. É o lugar em que muitos saberes estão sendo transmitidos, tanto bons quanto ruins. Inegavelmente aquilo que se chama de saúde mental vai depender do contexto em que vivemos. O momento pandêmico é muito singular. E a forma como as pessoas conseguem articular as suas vidas dentro deste contexto de alguma maneira promove o que é possível para evitar maiores transtornos mentais. O que isso significa: que uma família que consiga estabelecer suas rotinas ou, de alguma maneira, consegue trabalhar e manter o seu padrão de vida, a tranquilidade e consegue trabalhar de casa, fica mais fácil manter a saúde mental da família. Agora, se a pessoa não tem essas condições, que é justamente a grande maioria do país, porque precisa sair para trabalhar, rodar na cidade para trabalhar, ao mesmo tempo arrisca a sua vida e a vida de quem está dentro de casa porque pode trazer o vírus para a sua família. A partir daí, pensar ou não no retorno à escola é uma grande dificuldade para o poder público, porque não consegue fazer esse lockdown por um período razoável. Nessas políticas pontuais, o cobertor é curto. Quando alguém pensa que é muito mais importante a saúde do meu filho do que a saúde do coletivo, é uma lógica equivocada, tanto é que ele manda a criança para a escola, onde ele encontra a coletividade. E na escola, a criança vai se preocupar com o amiguinho. O adolescente se preocupa com o amigo e com a amiga, a coletividade vai existir, quer se queira, quer não. Se só se preocupa com a saúde mental do filho, então não tem nem sentido mandar para a escola. Se você não consegue manter a saúde mental do seu filho no seu universo familiar, você precisa entender o seu universo familiar, e não a coletividade.

7. Só a vacinação vai proteger os professores

Entidades profissionais ligadas à educação têm reivindicado que trabalhadores de escolas sejam priorizados na vacinação, como forma de dar segurança ao retorno às aulas presenciais. Em São Paulo, docentes acima de 47 anos começaram a ser imunizados, mas há muitas dúvidas ainda sobre quando haverá a imunizacão em massa.

Economista Naercio Menezes Filho
O economista e pesquisador Naercio avalia que as aulas poderão ser retomadas após os professores receberem as duas doses da vacina contra covid-19

Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância, o economista, professor e pesquisador do Insper

SIM: “A vacinação dos professores é uma medida é muito boa. Depois que eles tomarem as duas doses, as aulas tendem a retornar. Porque as chances de hospitalização são quase nulas. Os professores podem ainda continuar transmitindo o vírus, para as crianças e os pais. O que a vacina evita é a hospitalização e morte. Ao imunizar esse grupo, a situação tende a melhorar, mas precisamos ter a vacinação em massa, a imunização de rebanho e parar de circular o vírus e as novas variantes. De toda forma, é uma boa ajuda, com isso poderemos retornar às aulas, sobretudo os professores que não são do grupo de risco.

SIM: Sergio Luís Braghini, psicólogo e professor docente na FESPSP – Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Agora os professores entraram na lista de prioridades para a vacinação. Então por que não aguardar isso, para medirmos melhor e quem sabe conseguimos montar um plano maior de distanciamento social? Qual é o professor que vai estar tranquilo agora? Imagine! Uma coisa é a gente fazer isso numa escola privada, que consegue fazer alguma separação e muitos pais não precisam da estrutura da escola e podem fazer um revezamento. Mas e a escola pública? E não são só 30% dos alunos. Teria que ver se há também só 30% dos professores. Retorno presencial tem que ser feito com um planejamento público sério. Em tudo. E não um acochambrado como temos feito. Não é uma questão simples, de dizer se é a favor ou contra o retorno às aulas presenciais. Tem que ter um plano sério, sentar com professores, coordenadores. Tivemos um ano para organizar. Poderíamos ter passado 2020 inteiro organizando isso, chamando equipes de diretoria de ensino, médicos, epidemiologistas, pedagogos, psicopedagogos, conselhos de educação, etc. Cadê? E a gente acha que agora já dá.”

8. A geração covid (das crianças privadas de socialização) vai pagar caro na vida adulta e profissional

Sergio Luís Braghini, psicólogo e professor docente na FESPSP – Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

“Somos seres que conseguem se adaptar a determinadas situações, mal ou bem, com consequências ou não. As consequências para a aprendizagem são possíveis de serem recuperadas, principalmente se você tiver cuidados específicos. Qual é o cuidado quando a escola está fechada: é o apoio a essas crianças por não poderem ir à escola. Pode atrasar? Pode. Uma criança que pegue uma doença grave e fique por longo tempo sem frequentar a escola, ela consegue recuperar. É possível resgatar, principalmente as crianças. A gente se esquece de um momento da nossa história da educação em que as crianças iam para a escola aos 7 anos. Calma. Na verdade, muitas pessoas estão tentando encontrar justificativas para aquilo que elas desejam. Mas a realidade é clara: o país tratou mal a questão da pandemia e estamos todos pagando um preço, crianças, adultos, jovens, e alguns com a vida. Estamos sim pagando com um atraso de aprendizagem. Mas é resgatável. Para que não haja resgate, a pessoa precisaria estar isolada de qualquer relação com o mundo, como Kaspar Hauser. Sou contrário ao retorno presencial. Tenho netos em idade escolar, que não estão indo para a escola. Como classe média branca conseguimos uma professora particular. Mas isso é realmente um privilégio. Sou contra não por meu exemplo. Sou contrário não só pelos riscos à crianças, mas os riscos à comunidade escolar são muito grandes.

9. A escola é um ambiente seguro e atividade essencial. Se shopping pode abrir, escola também pode.

Muitos estados e municípios discutem se a educação deve ou não entrar na lista de atividades essenciais na pandemia. O Projeto de Lei Nº 5595/2020, que tramita na Câmara dos Deputados, propõe que a oferta presencial da Educação Básica e do Ensino Superior seja considerada atividade essencial. O Consed (Conselho Nacional de Secretário de Educação) divulgou nota posicionando-se contra esse projeto. Segundo o conselho, “na prática, isso significa que, mesmo em situação de alto risco na pandemia, os estados e municípios serão obrigados a manter as aulas presenciais”. O projeto proíbe a suspensão de atividades presenciais, exceto em “situações excepcionais cujas restrições sejam fundamentadas em critérios técnicos e científicos devidamente comprovados”.

DISCORDO: Catarina de Almeida Santos, professora da Faculdade de Educação/UnB e dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

“Essa discussão sobre se a educação deve ser considerada atividade essencial está ocorrendo na Câmara Legislativa Federal e em âmbito municipal, em vários outros lugares do País. É preciso trabalhar a questão do tempo, porque fica parecendo que quem é contrário à lógica da atividade essencial não entende a essencialidade da educação. Nós sabemos o quanto a educação é fundamental e única possibilidade para a grande parte da população brasileira, que conta com a escola não só para o aprendizado das crianças, mas também para sua alimentação e socialização, entre outros aspectos. As escolas não pararam de funcionar, já que ofereceram o ensino remoto, mas dizer que o retorno às aulas presenciais é necessário, independentemente de qualquer coisa, é uma loucura. Essencial hoje é salvar e preservar vidas, então, não posso dizer que o funcionamento presencial é essencial, pois isso é colocar as pessoas em risco de morte, arriscando as suas vidas”.

CONCORDO: Claudia Vidigal, mestre em psicologia social e representante da Fundação Bernard van Leer no Brasil

“A escola é uma atividade essencial e precisa ser priorizada para que retorne às atividades antes de outros serviços. Temos visto um avanço importante nas reflexões acerca deste posicionamento, com lideranças municipais e estaduais olhando mais atenciosamente para a importância da educação no desenvolvimento das crianças. O que estamos vivendo hoje é a consequência das escolhas realizadas no ano passado, e vemos um movimento de aprofundamento na reflexão sobre a importância da educação e do retorno às aulas presenciais. Cada Estado e município tem a responsabilidade de planejar este retorno de forma cuidadosa e segura”.

CONCORDO: Rachel Stucchi, médica infectologista e professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Sim, a atividade da educação deve ser considerada essencial. Os alunos no Brasil perderam cerca de ¾ ou o ano todo de aprendizado em 2020; nós temos que recuperar este aprendizado, não só de conhecimento, como também de convívio social e amadurecimento emocional dessas crianças. Em algum momento a escola deve fechar? Sim, só quando tudo estiver fechado – comércio, cultos religiosos, atividades esportivas, tudo! Só mesmo quando a pandemia estiver fora de controle. A escola deve ser a última a ser fechada e a primeira a ser aberta.

10. Neste momento, com a disseminação de novas variantes, há um risco epidemiológico maior, então o retorno às aulas presenciais deve ser adiado.

CONTRA: Marcelo Otsuka, vice-presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo

“Quando falamos de reabertura das escolas, não podemos considerar apenas os aspectos epidemiológicos. De forma geral, a chance da criança ter um quadro mais grave, evolução pior, mesmo com a piora atual do número de casos, é pequena. Não houve uma maior gravidade atual nas infecções no público infantil, e a gente sabe que nesse grupo, a covid-19 tende a apresentar um comportamento bem tranquilo. Não costuma ter uma evolução fatal, ou necessidade de UTI, ou severidade maior. Acontecem, sim, mas em taxa muito menor do que nos adultos e muito menor do que em outras infecções, como influenza, que leva proporcionalmente a uma mortalidade maior. A questão é: existe, sim, chance de a criança ter um quadro grave, mas é bem menos frequente do que a gente espera. Mas, mais do que isso, nós vemos os prejuízos que as crianças estão tendo em não ir às escolas. Primeiro: grande parte da nossa população tem como principal refeição, a refeição na escola. Temos visto aumento de desnutrição nas crianças. Segundo: grande parte das crianças do Brasil não têm acesso à internet. Muitas das que têm, na verdade é através de celular, o que impossibilita o ensino à distância adequado. Muitos dos professores públicos não têm uma programação de ensino à distância adequada, outro problema e prejuízo importante para o aprendizado. As crianças têm sofrido com prejuízo no aprendizado, prejuízo na motricidade, no aspecto psicológico e, portanto, em todos os aspectos do desenvolvimento neuropsicomotor. Esse comprometimento muito provavelmente será irreversível. Então a gente precisa impedir, de certa forma, que as crianças tenham esse prejuízo. E mais do que isso: com a permanência em casa, as crianças vítimas de agressão e de abuso aumentaram muito, o que é outra situação muito complicada. Temos que nos atentar a isso e temos que fazer algo para evitar. E mais: os pais hoje saem para trabalhar e muitas vezes deixam um cuidador com várias outras crianças, de outras famílias. As crianças ficam em ambientes despreparados e com certeza a escola seria um ambiente muito melhor para elas. É lógico que, apesar de os estudos não demonstrarem isso, elas podem sim transmitir para os adultos. Então isso deve sim ser pesado, em relação à criança ir ou não à escola. Outra situação que temos que entender: a criança tem que ir para a escola de alguma maneira, e muitas vezes usando serviços públicos de transporte. Aqui há outro problema, com serviços lotados. Temos sim que evitar essa superlotação porque é uma forma de transmissão. É lógico também que muitas escolas ainda não estão adequadamente preparadas e paramentadas, com álcool em gel, máscaras, papel higiênico… São novas situações que devem sim ser treinadas, fiscalizadas e preparadas para que os alunos voltem. Da mesma forma, o treinamento adequado de professores, merendeiros, faxineiros, todos devem ser devidamente treinados para receber as crianças. Então não é um aspecto simples. Vários aspectos devem ser analisados. Os pais precisam participar desse processo, da mesma forma que não é só a Secretaria da Educação, a Secretaria da Saúde tem que estar junto neste processo, de capacitação até para os pais saberem riscos e o que fazer. É importante realizar questionários epidemiológicos para os pais saberem como devem proceder, e se devem ou não levar a criança para a escola. São orientações que precisam acontecer. Mas, pensando no prejuízo que as crianças estão sofrendo, temos sim que fazer de tudo para caminhar para o retorno às aulas presenciais, de todas.”


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