Mudando o olhar dentro de casa

Ao sofisticar nossas necessidades e achar que não podemos sobreviver sem alguém para cuidar da nossa casa, podemos nos esquecer do que de fato é essencial: cuidar de si e dos outros

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Mudança de estilo de vida: às vezes, é preciso rever conceitos; nesta imagem, mulher sentada no sofá de olhos fechados remete a alguém que está feliz e pode ter passado por transformações pessoais
Não é hora de pensar naqueles pequenos luxos e mimos que dependem de terceiros

Às vezes tomamos decisões que parecem difíceis ou estranhas aos olhos das outras pessoas. Em 2017 me mudei de Belo Horizonte para São Paulo para ficar perto do meu marido, que havia sido transferido dois anos antes.

Até me mudar eu fazia o tipo classe média mimada. Meu filho nasceu em 2009, contratei empregada e enfermeira, matriculei no berçário, voltei a trabalhar 28 dias depois que ele nasceu no meu escritório de arquitetura. Tinha horário fixo na manicure e não sobrevivia a um bom corte de cabelo a cada dois ou três meses. Fazia as sobrancelhas mensalmente. Fazia todas essas coisas que, dentro de uma hierarquia, permitiam que eu me sentisse melhor, mais apresentável.

Em 2014, parei de fazer as unhas no salão e de usar esmalte no dia a dia. Passei a tirar os pelinhos da sobrancelha que me incomodavam e a deixá-la mais natural.

Em 2015 fechei meu escritório de arquitetura para me dedicar ao Padecendo no Paraíso, mídias sociais e eventos para mães. Tirei meu filho do horário integral na escola para passar mais tempo com ele. Tivemos que nos adaptar à nova rotina e a essas horas diárias a mais de convivência, não foi fácil.

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Quando me mudei, com um filho de sete anos, para uma cidade que eu conhecia pouco, e não teria rede de apoio, achei que não iria sobreviver se não contratasse uma pessoa que dormisse em casa. Mas quando as coisas foram se ajeitando, eu dispensei até a diarista e vi que era possível trabalhar, cuidar da família e da casa.

Passei os últimos três anos me dividindo entre o computador, o fogão, a máquina de lavar, o leva e busca de menino na escola e atividades extras. Deixei o cabelo crescer, porque me cansei de ter que cortar a cada dois meses, já não pintava, assumindo os fios brancos desde que começaram a aparecer.

No ano passado o desafio foi um câncer de mama, com direito a muitas tardes de passeio no hospital, entre consultas, exames, radioterapia… Minha mãe passou algumas semanas conosco quando fui operada, contratei uma pessoa para limpar a casa só enquanto estava no pós operatório.

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Aquela pessoa que sempre tinha alguém para fazer as tarefas que ela não gostava de fazer, não existe mais. A pessoa que está aqui agora nem consegue se imaginar sendo aquilo que foi um dia.

Essa mudança de pensamento se deu quando comecei a estudar sobre o racismo estrutural e sobre o machismo. O que eu estaria ensinando ao meu filho? Ter uma mulher trabalhando na minha casa, fazendo o serviço que a gente não queria fazer, não era coerente com os valores que eu queria passar para ele. Claro que, se alguém viesse com esse papo para mim há dez anos, eu ia achar que era maluca.

Não quero ofender quem tem funcionários domésticos, eu sei que, para a mulher que trabalha fora e quer ter filhos e tudo mais, é muito difícil não ter alguém em casa cuidado de tudo. Eu já estive nesse lugar. Eu apenar repensei e decidi fazer diferente.

Não quero desmerecer o trabalho das mulheres que cuidam das casas de outras pessoas, pelo contrário. Espero que o isolamento social ajude as pessoas a entenderem como esse trabalho merece ser mais valorizado, essas mulheres estão saindo das suas casas, deixando de cuidar dos próprios filhos para cuidar dos filhos e das casas de outras pessoas. Me preocupo ainda mais com as mães nesse momento, às vezes tendo que voltar ao trabalho e sem a escola para deixar os filhos, porque sim, a escola também tem esse papel social. Quando a gente trabalha e resolver ter filho a gente considera que parte do dia eles estarão na escola.

Para minha família, mudar o estilo de vida se refletiu positivamente nesse momento de isolamento social. Não tivemos de mudar hábitos, cada um já tinha suas responsabilidades em casa.

Meu filho, que nunca arrumava nada, nunca guardava um brinquedo, hoje é o responsável por alimentar nossa gata, limpar a caixa de areia dela, tirar a mesa depois do almoço, guardar suas próprias roupas e organizar o seu quarto.

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O marido nunca foi aquele que ajuda, ele é o cara que divide – me casei com um homem que morou sozinho e aprendeu a cuidar de casa.

A decisão de não ter ninguém de fora trabalhando aqui veio junto com a decisão de comprar um robô aspirador, melhor amigo da casa. A lava-louças foi adquirida em maio desse ano, meu presente de dia das mães.

Eu vejo que muita gente tem tido dificuldade para viver esse momento de isolamento social, tendo que se dividir entre o home office, as aulas online dos filhos e as tarefas domésticas. Não é fácil mesmo, ainda mais quando a gente se vê obrigado a fazer isso por causa de uma pandemia.

À medida que sofisticamos nossas necessidades e achamos que não podemos sobreviver se não tivermos alguém para lavar nosso banheiro, fazer nossa comida, pintar as nossas unhas, acabamos nos esquecendo do que é realmente essencial. Cuidar de nós e dos outros. Não expor as pessoas a um vírus muito contagioso que está matando milhares de pessoas todos os dias no nosso país.

Não é hora de pensar naqueles pequenos luxos e mimos que dependem de terceiros. Luxo hoje é saber que sou privilegiada por morar em um apartamento grande, ensolarado, com internet rápida, com um computador para cada um da família. Luxo é saber que que temos comida na mesa e que meu marido está seguro trabalhando em casa e meu filho também, fazendo aulas online. Luxo é saber que posso ajudar pessoas que não tem o privilégio de ficar em casa nesse momento, nem que seja apenas não saindo de casa. Luxo maior ainda é poder apoiar movimentos da sociedade civil que levam comida a famílias que perderam sua renda.

Chegou a hora de mudar o estilo de vida. Chegou a hora de mudar seus conceitos!

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