‘Não se trata somente de educar para a internet, mas sim de educar’

Para o sociólogo Bernardo Sorj, ensinar aos filhos habilidades valiosas para a vida, como empatia e respeito, é o caminho para uma rotina saudável dentro e fora das telas. Essa é a proposta de guia para famílias sobre desafios do universo digital, com foco em competências cognitivas e emocionais

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Garoto negro está no colo do pai e juntos seguram e olham para um celular
Conversar com os filhos sobre o que eles fazem e veem na internet é essencial, diz Maura Marzocchi

Nascidas em plena era da internet, as crianças da geração de nativos digitais entram cada vez mais cedo e ficam cada vez mais tempo no universo virtual. Estudo da Kaspersky, feito com mais de 11 mil pais de crianças entre 7 e 11 anos de idade, de quase 20 países, inclusive o Brasil, mostrou que grande parte delas, 61%, ganham seu primeiro dispositivo digital entre 8 e 12 anos, sendo que para 11% desse público isso ocorre antes dos 5 anos de idade. As consequências desse excesso de horas nas telas incluem desde problemas de segurança e privacidade a questões emocionais e de comportamento, interferências no sono, obesidade e miopia, entre outros prejuízos.

Ainda assim, para essa geração, a vida virtual será cada vez mais ampla – haja vista as aulas online na pandemia e a discussão em curso sobre o metaverso – e é preciso fazer com que esses jovens aprendam a navegar na web de forma segura e responsável. Como? Ensinando-lhes competências cognitivas e emocionais – como empatia, tolerância, capacidade de diálogo e pensamento crítico – preciosas ao mundo real e necessárias também no ambiente virtual. Isso é o que propõe a obra digital de acesso gratuito: “Pensando de Forma Autônoma Dentro e Fora da Internet: Guia para Famílias”, material que foi adaptado de um e-book de mesmo nome destinado ao uso escolar.

“Não se trata somente de educar para a internet, mas sim de educar. O mundo das pessoas hoje circula constantemente entre o virtual e o off-line, é aí onde se dá a formação das pessoas, porém, é central, do ponto de vista da constituição de valores, o mundo offline, é nele onde a gente pensa, reflete, sente e se sensibiliza”, diz o sociólogo Bernardo Sorj, um dos autores do guia. Recém-lançado, o livro é fruto de uma parceria da Plataforma Democrática – iniciativa da Fundação Fernando Henrique Cardoso e do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais –, do Instituto Palavra Aberta e do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

Para Bernardo, “se a criança não for educada pelos pais na base do respeito, no fortalecimento de valores de humanidade, para que tenha raciocínio critico, capacidade de questionar, ela estará muito mais fragilizada no mundo da internet”, daí a importância das experiências de convivência e relacionamento humano fora da tela.

Também autora do guia, a educadora Maura Marzocchi, consultora na área de tecnologias de educação, lembra que as crianças e os adolescentes hoje circulam pelo mundo virtual e físico sem perceber uma barreira. “Para eles, não tem diferença, o que eles fazem online e offline é rigorosamente a mesma coisa, e essa talvez seja a nossa grande preocupação”. Ela se refere, por exemplo, à facilidade com que os jovens interagem e fazem amizades online com pessoas que nunca viram antes, ficando assim mais expostos a riscos.

Para além do bate-papo com desconhecidos, há, ainda, outros muitos desafios que as crianças estão sujeitas frente ao uso de videogames, jogos eletrônicos, redes sociais e acesso a vídeos e páginas de conteúdo. Entre eles, a desinformação, o ciberbullying, a aceleração do tempo pelo hábito de respostas rápidas que dificultam a reflexão e a “eternização” das informações pessoais em bancos de dados, destaca o livro.

Para lidar com essas questões, Maura diz ser fundamental fazer com que famílias, crianças, jovens consigam perceber como interagem com as informações que recebem dentro e fora da tela, e dar a eles ferramentas para que consigam conviver com isso de forma saudável. 

“Não adianta regular o uso da tela e limitar acesso a aplicativos sociais, se não se conversa com a criança sobre os momentos que ela está interagindo na tela. A tela é o meio, regular o meio, dependendo da faixa etária, acho bastante adequado e aconselho isso. A grande questão é: enquanto meu filho está na tela preciso conversar com ele sobre aquilo que ele está vendo, que nós estamos vendo juntos”, diz a educadora.

Os vieses cognitivos que nos fazem agir sem pensar

Para o uso das telas com maior consciência, o guia propõe trabalhar os chamados vieses cognitivos, que influenciam a capacidade de reflexão e as emoções das crianças. A obra explica que os vieses cognitivos são atalhos mentais ou distorções de pensamento que podem passar despercebidos mas afetam a capacidade de raciocinar e julgar.

“É a famosa reação no automático, sem pensar. E essas reações ocorrem o tempo todo, ao ler uma noticia ou ao falar com alguém no WhatsApp, na sala de aula ou em um jantar em família”, afirma a antropóloga Alice Noujaim, também autora do guia. Ela esclarece que é como dizer a alguém que gosta muito de bolo de chocolate, que esse bolo faz bem para o coração e não engorda. Certamente, quem reage no automático estará mais propenso a acreditar nessa informação, sem questionar muito sua veracidade.

“Você abre mão de seu senso critico, que é o que está em jogo o tempo todo, o mundo da informação joga pesado nisso, eles são profissionais em reforçar crenças preexistentes para gerar reações automáticas”, relata Alice. E o guia busca justamente dar “fichas” para evitar que as crianças caiam em armadilhas como essas.

“Uma vez que a gente sabe que tem um comportamento inconsciente, pode ganhar consciência sobre ele e mudar esse comportamento, ficar mais atento a ele”, completa a antropóloga.

A importância da reflexão

Entre os temas abordados ao longo dos oito capítulos do livro estão a “empatia como fundamento da sociabilidade” , “dissonância cognitiva e a necessidade de conviver com visões diferentes”, “viés da normalidade: cada pessoa tem direito a ser de seu jeito”, e o “viés do maniqueísmo”, entre outros. Ao fim de cada capítulo, há conselhos para os pais de como trabalhar aquele assunto com a criança, inclusive com listas de filmes e livros que abordam a temática em questão. 

Um dos aspectos que o livro propõe refletir com os filhos diz respeito à tendência de procurarmos leituras, postagens e informações que confirmam aquilo em que já acreditamos, dando assim pouco espaço à reflexão e novos aprendizados.

No mundo online, a maneira como algoritmos de inteligência artificial atuam também faz com que vejamos sempre temas relacionados a páginas que acessamos, buscas que realizamos e postagens que curtimos e compartilhamos. A obra pontua que tal prática limita a nossa navegação e reduz as chances de contato com pensamentos diferentes ao nosso.

Para evitar que isso ocorra, o guia propõe que pais façam com as crianças exercícios como o de “sair da bolha” para entender o que acontece fora de nossa zona de conforto e conhecer mundos e opiniões divergentes. “É uma atividade importante para que crianças e adolescentes desenvolvam empatia e aprendam a entender como o outro pensa e de que maneira as opiniões contrárias às deles podem colaborar para o debate e para o crescimento.”

O exemplo dos pais

Os especialistas lembram que tão importante quanto o ensino de competências cognitivas e emocionais às crianças, é o exemplo que os pais dão aos filhos, a começar pelo uso do próprio celular e da maneira como se relacionam no convívio familiar. “Se você quer que o filho respeite os outros, você tem que ser respeitoso com ele. Se quer que tenha análise crítica, ajude a desenvolver com ele esse tipo de atitude, de explicar e entender”, ressalta o sociólogo. 

O estudo da empresa de segurança e privacidade digital Kaspersky revelou que, no Brasil, 91% dos pais passam três horas ou mais online, e 86% dos filhos fazem o mesmo, o que indica uma propensão dos menores a reproduzir os hábitos dos pais. Segundo a pesquisa, os adultos estão convencidos que tanto eles (59%) quanto as crianças (53%) passam tempo suficiente online. Refletir, portanto, sobre nossos comportamentos e promover mudanças que sirvam de referência aos filhos é primordial.

“Ou somos capazes de fazer uma profunda revolução na educação afetiva e intelectual de nossos filhos, e dos professores com relação aos alunos, ou estamos fadados ao fracasso. Não há manual que resolva os fatos da realidade. Nosso texto ajuda a refletir e entender o problema, mas se pais e professores não se apropriam, não corporificam neles essa proposta, não adianta, porque não é só de teus filhos que estamos falando, cara-pálida, é sobre você em primeiro lugar”, alerta Bernardo Sorj.

Filmes para assistir em família*

“Up: altas aventuras” (2009) Livre (classificação etária)

“Extraordinário” (2017) +10

“Divertidamente” (2015) Livre

“Sexta-feira muito louca” (2003) Livre

“Billy Elliot” (2000) +12

“Blackfish, fúria animal” (2013) +12

“Intocáveis” (2011) +14

*Dicas de filmes para falar sobre empatia com os filhos, retirados da obra “Pensando de Forma Autônoma Dentro e Fora da Internet: Guia para Famílias”.


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Editora da Canguru News, cobre educação há mais de dez anos e tem interesse especial pelas áreas de educação infantil e desenvolvimento na primeira infância. É mãe do Martim, 8 anos, sua paixão e fonte diária de inspiração e aprendizados.

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