Criança de regime: saiba como implementar uma nova rotina alimentar

A adequação alimentar permite que as crianças percam o excesso de peso de uma maneira saudável

Menino obeso medindo barriga com fita métrica
A circunferência abdominal é um dos critérios avaliados por profissionais antes de indicar mudanças na alimentação infantil

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Muitos adultos engordaram durante a quarentena e isso virou motivo para piadas compartilhadas em várias redes sociais. Segundo um questionário elaborado pelo grupo Vitabe, 4 em cada 10 brasileiros engordaram na quarentena. O mesmo ocorreu com crianças no isolamento social devido à má alimentação e à falta de exercícios físicos. No entanto, o sobrepeso infantil não deve ser trabalhado com dietas famosas. “Criança não deve fazer lowcarb, jejum intermitente ou dietas da moda. Isso pode acarretar prejuízos no desenvolvimento e crescimento, além de causar uma relação ruim com a comida desde cedo”, explica Simone Ferraz, nutricionista materno infantil.

Por isso, o mais indicado é uma adequação ou reeducação alimentar. Mas antes disso, a criança precisa ser avaliada por um profissional. “Inicialmente é necessário avaliar se a criança está acima do peso ideal para a idade conforme prediz nas diretrizes e nos métodos de avaliação que usamos, como gráficos pediátricos de curva de crescimento desenvolvidos pela Organização Mundial da Saúde, que incluem curvas de índice de massa corpórea”, esclarece a nutricionista Juliethe Mardones Falcão.

De acordo com as especialistas, as curvas são fundamentais para o diagnóstico e a avaliação da evolução do paciente durante o tratamento. “Somente visualizando o gráfico da criança é que podemos verificar o quanto pequenas variações no peso e, consequentemente no IMC, podem ser significantes. A partir dessa avaliação, e de acordo com a necessidade individual da criança e a fase de crescimento que se encontra, é possível predizer a necessidade de um protocolo para perda de peso”, afirma Juliethe.


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“Meu filho precisa emagrecer. O que eu faço?”

“O primeiro ponto é alinhar a família. Quando a alimentação da família é muito diferente da alimentação da criança, fica muito sofrido e difícil fazer mudanças alimentares”, destaca Simone. Além disso, durante a mudança, pode ser que os pais se deparem com comportamentos desafiadores dos pequenos, mas é possível mudar essa realidade.

“Tenha calma, seja amigo de seu filho e esqueça as trocas e castigos para criar uma trajetória positiva para o crescimento saudável e cheio de bons hábitos da criança de hoje! Apesar da relutância, é importante manter a oferta e o estímulo para o consumo de verduras, legumes e frutas”, explica Juliethe.

Segundo a profissional, o exemplo é crucial para que a próxima geração de crianças seja saudável e desenvolva uma boa relação com os alimentos. “Nessa fase, a participação da família é essencial para incentivar, mostrar diferenças de cores e texturas e apresentar os alimentos. O bom senso e a tranquilidade devem ser servidos à mesa junto com a comida!”, ressalta Juliethe.

“O bom senso e a tranquilidade devem ser servidos à mesa junto com a comida”

JULIETHE MARDONES FALCÃO, NUTRICIONISTA.

Trocas na alimentação diária

Nos consultórios, muitos pais reclamam das dificuldades em adaptar a alimentação a nova rotina de alimentação. Quais alimentos oferecer, o que não deve ficar fora do prato e o que precisa ser evitado são dúvidas comuns. “Nenhum grupo alimentar deve ser retirado do cardápio, só precisam estar em equilíbrio”, sintetiza Simone. Segundo a nutricionista, a exclusão de bons carboidratos e proteínas pode levar a prejuízos no desenvolvimento.

“Frutas e vegetais como espinafre, couve, brócolis, cenoura, abóbora, manga e mamão são ricos em vitamina A e zinco, importantes para a liberação do GH (hormônio do crescimento conhecido como somatotropina). Esses alimentos contêm importantes vitaminas, antioxidantes e fibras que auxiliam na prevenção de constipação, aceleram o crescimento e diferenciação celular, auxiliam na absorção de cálcio e ferro, e melhoram o amadurecimento do sistema imune, visto que 70% a 80% das células de nosso sistema imune estão concentradas no intestino”, exemplifica Juliethe.

Outros alimentos importantes na rotina das crianças são as proteínas presentes em carnes, leites e derivados, leguminosas como feijão, lentilha, ervilha, grão-de-bico e soja. Elas servem para estruturar e fortalecer os ossos e músculos do corpo, fator essencial durante a fase de crescimento. Já as fontes de ômega-3 ajudam na proteção neural e no desenvolvimento intelectual das crianças.


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“E não tão menos importantes são os carboidratos que fornecem energia. O mais importante neste grupo são as fontes. Evite os refinados, açúcares, biscoitos recheados, salgadinhos, macarrão instantâneo, sucos artificiais, doces, refrigerantes, embutidos, enlatados, frituras e guloseimas que não possuem valor nutricional”, recomenda Juliethe.

Simone ainda sugere outras trocas: “Substituir a bisnaguinha por um pão integral ou caseiro. Hambúrguer industrializado por um feito em casa. Creme de avelã por uma versão mais saudável. Nugget por um feito em casa sem gordura excessiva e assado”, exemplifica.

Boas práticas e incentivos

Algumas ideias podem ajudar os pais a evitar o sofrimento da mudança da alimentação, como fazer com que a criança participe da escolha dos alimentos, do planejamento do cardápio e do preparo. Outro fator importante é explicar às crianças sobre a origem dos alimentos. “Quando falamos em didática alimentar na prática clínica, muitas respostas das crianças assustam os pais. ‘Você sabe de onde vem o leite?’. Algumas crianças entre 4 a 12 anos, já em idade escolar, respondem: ‘Sim! Da caixinha!’. ‘E os ovos? Do mercado!’. E pasme… os pais se dão conta de que muito do básico ainda não é ensinado”, salienta Juliethe.

Por isso, mais do que falar sobre os benefícios de cada alimento, também é necessário explicar de onde vem, por quais processos passam até chegar à mesa e mostrar as formas de preparo. Essa prática inspira a criatividade dos pequenos e desperta o interesse por alimentos novos. Levar as crianças ao supermercado ou à feira também pode ser benefício e didático. O exemplo os auxilia a fazer escolhas mais saudáveis durante as compras e saber como escolher ou identificar os melhores alimentos inclusive em outros ambientes, como a escola.

“As estratégias de comunicação voltadas ao público infantil, com cores e mágicas, enfatizando o sabor, associando ilustrações ligadas ao universo das crianças são muito bem estruturadas”, sugere Juliethe. Dessa maneira, ela aconselha oferecer alimentos saudáveis de maneiras divertidas. “Frutas em espetinhos, saladas em formato de desenho ou usando personagens, snacks de legumes no forno, palitinhos coloridos de legumes, trocas saborosas como oferecer mousse de fruta no lugar de doces, sorvete por banana ou manga congelada batida, suco industrializado por água saborizada ou achocolatado por cacau”, exemplifica.

“Antes de se alimentar, é preciso saber o que estamos ingerindo”

JULIETHE MARDONES FALCÃO, NUTRICIONISTA.

Ajuda extra: os exercícios

Além das mudanças na alimentação, profissionais da saúde podem recomendar exercícios físicos adequados à cada idade. “A prática de atividade física, mesmo dentro de casa, como dançar, ou qualquer brincadeira que traga movimento para essa criança”, sugere Simone Ferraz.

“Não é necessária uma academia ou uma casa super equipada com utensílios esportivos. Um simples tapete e uma competição de polichinelos no quintal, jogar a bola o mais alto possível estimulando o alongamento, pular corda, correr um pouco, fazer um relaxamento antes de dormir reduzem os níveis de estresse, ansiedade e agitação do confinamento”, exemplifica Juliethe.

A profissional ainda ressalta que o ideal é consultar um profissional de educação física, que irá propor exercícios estratégicos e divertidos para a idade na intensidade adequada. E lembra: “Estudos mostram que crianças que se exercitam entre 4 a 7 horas por semana possuem aptidão cardiorrespiratória e indicadores metabólicos que reduzem o risco de sobrepeso, obesidade e síndrome metabólica”.

Entre outras coisas, a nutricionista materno infantil Simone Ferraz ainda sugere duas boas práticas: “Aumentar a ingestão de água para equilibrar a saciedade e diminuir o tempo de tela, pois geralmente está associado ao sedentarismo e ao aumento da ingestão alimentar”. Então, atente-se à hidratação dos pequenos e ao tempo gasto nos aparelhos.


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