Precisamos de escolas que parem de temer pais e mães raivosos e assuntos ‘polêmicos’

"Durante a pandemia meu filho aprendeu sobre resiliência, companheirismo e solidão. Mas a escola fez muito pouco por ele", diz Luciana Correa, especialista em letramento digital

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O ano 2020 está acabando. Nossos filhos, filhas e [email protected] passaram a maior parte desse tempo [email protected] em casa, vivendo por meio das telas do computador, vídeos games e celulares. Fico realmente preocupada quando escuto educadores comemorando que esse ano teve avanços que devem ser mantidos.

Entendo o entusiasmo com a tecnologia. Vejo inúmeras possibilidades educacionais envolvendo a cultura numérica. Mas não podemos esquecer o real papel da escola: ensinar a viver. Durante a pandemia meu filho aprendeu sobre resiliência, companheirismo e solidão. Mas a escola fez muito pouco por ele. Tive que ajudá-lo e, algumas vezes, forçá-lo a fazer provas e exercícios completamente vazios de sentido. Fui eu que abracei seu choro soluçante de saudades dos amigos, agora avatares em um jogo multiplataforma. Não, não está tudo bem. Esse ano deixou marcas em todas(@s) nós, em especial em nossas crianças que precisam de proteção e amor.

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Durante a pandemia meu filho aprendeu sobre resiliência, companheirismo e solidão. Mas a escola fez muito pouco por ele.

Meu filho, como todas as crianças do mundo, precisava de acolhimento. Ele não precisava de aulas sem fim na frente da tela, nem de provas, nem de conteúdos garantidos pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Pensei em mudá-lo de escola, mas ele apavorou-se com a ideia de ter que fazer novos amigos online. Ficamos reféns de uma situação impossível. Como resultado, ele concentrou todas suas esperanças nos jogos: a única janela que lhe restou para o mundo. Na escola meu filho faz somente o que lhe é solicitado, sem nenhum entusiasmo ou engajamento.  Quem pode culpá-lo? Qual alternativa a escola lhe deu?

Não houve nenhuma iniciativa de interação entre as crianças. Paradoxalmente, a tecnologia que tanto religou pessoas mundo afora, chegou na escola para isolar cada criança na frente do seu caderno. Nenhum, nenhum projeto de trabalho conjunto. Nenhum momento de interação. Nada. O mais triste é que uma instituição de ensino voltada para a humanização das relações, para a religação dos saberes e para o ensino do bem viver poderia ter feito toda a diferença…   

Agora estamos prestes a voltar para a escola. A “boa notícia” vem na forma de uma comemoração da digitalização forçada e mal planejada feita para encarar a crise sanitária, sem enfrentar a crise educacional que arrasta-se há décadas. Cercar de glamour as aulas online da pandemia é um erro tão absurdo quanto foi o de transpor um ensino disciplinar, fragmentado e conteudista para a fria realidade das telas. A educação que já estava distante dentro da sala presencial, ficou quase inexistente quando passou a ser intermediada por computadores.

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Cercar de glamour as aulas online da pandemia é um erro tão absurdo quanto foi o de transpor um ensino disciplinar, fragmentado e conteudista para a fria realidade das telas.

A inovação tecnológica na escola somente tem sentido quando acompanhada de inovação pedagógica. Quero uma escola pé no chão. Uma escola que meu filho veja uma semente brotar da terra, olhe para o céu procurando estrelas e corra descalço com seus colegas para medir distâncias, encontrar caminhos, partir e voltar.

Quero uma escola que ensine como realmente chegamos na era digital, como a filha de um poeta e de uma matemática decifrou a linguagem da máquina que iria mudar mundo. Quero meu filho com amigas seguras de si mesmas que não tentem agradar a todos, que não precisem pedir desculpas por nascerem mulheres. Quero que meu filho tenha amigos e amigas bem resolvidos, independentemente de suas religiões, etnias ou opção sexual. Quero uma escola que surpreenda meu filho com a beleza da vida, caótica, diversa e colorida. Quero meu filho montando seu próprio circuito, criando seus hardwares e fazendo mil projetos com seus amigos, amigas e [email protected] Quero meu filho no jardim plantando a cerejeira com que tanto sonha ou na sala escrevendo seu primeiro livro.  

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Precisamos de escolas que parem de temer os pais e mães raivosos, evitando temas “polêmicos” e escondendo-se sob o manto da neutralidade.

Para que esse dia chegue, precisamos de professoras e professores bem pagas(os), bem cuidadas(os) e bem formadas(os). Precisamos de escolas que parem de temer os pais e mães raivosos, evitando temas “polêmicos” e escondendo-se sob o manto da neutralidade. Precisamos de escolas que acolham e reeduquem pais e mães, curando as famílias do preconceito, do egoísmo e da ignorância. Precisamos, acima de tudo, de gestores educacionais que administrem pessoas e sonhos no lugar de coisas. Por fim, precisamos de Educadores que compreendam que as plataformas de ensino online e outros aplicativos não são instrumentos mágicos que conduzirão suas escolas a um novo patamar de evolução pedagógica. Assim como os livros didáticos, que também revolucionaram para bem e para mal o sistema de ensino brasileiro, a tecnologia numérica precisa ser vista como é: uma ferramenta que precisa de artesãs(ãos) sábias(os) para construir conhecimento.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.

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Doutora em Linguística Aplicada pela PUC-SP, trabalha com letramento em programação e Transletramento em TEIA (Tecnologia, Educação, Inovação e Afetividade). Investiga a Educação Tecnológica aplicada aos anos iniciais da Educação Básica. Fez doutorado sanduíche na Universidade de Pittsburgh (EUA). Idealizadora do Programa de Educação Tecnológica Clube01, colaboradora do IMATech e da ONG Assemble, na qual atuou como convidada expert.

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