Liberdade sobre rodas: bikes ganham relevância na pandemia

Famílias contam sobre a experiência de fazer atividades ao ar livre ao longo do isolamento social

Liberdade sobre rodas: andar de bicicleta ganha mais relevância na pandemia; menina andando de bicicleta com máscara e face-shield
Em 2020, houve um cresciemnto de 50% nas vendas de bicicletas em relação ao ano anterior, aponta Aliança Bike.

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Seja para transporte, esporte ou lazer, o uso de bicicletas aumentou significativamente durante a pandemia. “Vejo como um momento para relaxar e desestressar, já que ficar em casa o dia todo não é muito interessante, principalmente para crianças”, diz Nathalia Esterci, professora, de Angra dos Reis, Rio de Janeiro. A professora normalmente anda de bicicleta acompanhada do seu filho de dois anos e meio, que é carregado na cadeirinha. O menino praticamente nasceu pedalando, pois Nathalia o leva nos passeios desde os oito meses. Ela procura sair de bike quase todos os dias. Para a professora, andar de bicicleta traz uma grande paz, o contato com a natureza tem sido muito importante ao longo do isolamento social.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou no ano passado que, quando for necessário se deslocar, deve-se considerar andar de bicicleta ou caminhar, se possível. O órgão informou que essas atividades não só fornecem distanciamento físico, o que diminui o risco de contaminação do coronavírus, como também ajudam a manter o mínimo de exercício diário.

Nathalia Esterci e Ricardo, seu filho de 2 anos/Foto: Arquivo pessoal

Isadora Noronha, 19 anos, estudante de Jundiaí, São Paulo, também aderiu à tendência. Ao pôr-do-sol, na companhia da sua irmã mais nova, os passeios de bike são os momentos mais relaxantes e libertadores do seu fim de semana. Até o início da pandemia, Isadora não sabia andar de bicicleta. Aprendeu quando era pequena e, após passar muitos anos sem praticar, acabou esquecendo. Já sua irmã, sempre gostou de andar de bike, mas, com o distanciamento social, não tinha quem acompanhá-la. Por isso, quando ela ganhou uma nova bicicleta, decidiu que era o momento ideal para aprender novamente. “Somos só nós duas juntas andando de bicicleta. Não usamos nenhum celular, nenhum computador. Andar de bicicleta em companhia é uma boa forma de escape dos estresses da pandemia”, relata a estudante.

Isadora Noronha e sua irmã, Maria Fernanda, de 8 anos/Foto: Arquivo pessoal

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O boom na quarentena

Muitas famílias como as de Mônica e Isadora recorreram às bicicletas para aliviar as tensões do isolamento social. Poucos meses após o início da quarentena, entre junho e julho de 2020, houve um enorme aumento de 118% nas vendas de bicicletas no Brasil, em comparação ao mesmo período de 2019, segundo levantamento da Aliança Bike. De acordo com a associação, houve uma alta de 50% nas vendas durante todo o ano de 2020.

O número de usuários ativos de bicicletas compartilhadas também cresceu no período. Em São Paulo, o aumento foi de 150% de abril a novembro de 2020, segundo a Tembici, sistema de bicicletas compartilhadas. Em 2021, os números continuam subindo. No comparativo entre o segundo trimestre de 2020 e o primeiro trimestre deste ano, a Tembici registrou um crescimento de 83% no número de viagens e 306% em novos cadastros. A empresa realizou uma pesquisa em setembro do ano passado e observou que mais de 49% dos usuários entrevistados que precisaram sair de casa durante a pandemia optaram pela bicicleta como meio de transporte. 

Em paralelo ao crescimento de vendas de bicicletas, foram construídos 139 km de novas ciclofaixas em São Paulo. Além disso, de acordo com dados da Strava Metro, plataforma sobre deslocamento em transporte não motorizado, houve um aumento de 277% na circulação na ciclovia do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, em julho do ano passado. Em São Paulo, o maior crescimento aconteceu na ciclovia da Faria Lima, com 248%.

Na capital paulista, também foi implementado o programa Novo Rio Pinheiros, que tem o objetivo de revitalizar este importante símbolo da cidade. Na última sexta-feira (7), o Governo de São Paulo, em parceria com a Enel, entregou o primeiro sistema de iluminação da Ciclovia Novo Rio Pinheiros, em que foram colocados 130 pontos de lâmpadas inteligentes no trecho da região da Vila Olímpia. A iniciativa faz parte de um plano mais amplo para transformar o local na primeira ciclovia inteligente do país. A meta até o fim de 2022 é reduzir o esgoto despejado nos afluentes do Rio Pinheiros, melhorar a qualidade de água e integrá-lo de volta à cidade. Dessa forma, será possível que as pessoas consigam usufruir da nova ciclovia para lazer, esporte ou para se locomover.


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Um respiro diante da sufocante pandemia

Embora as regiões Sul e Sudeste continuem sendo as principais consumidoras de bikes, também houve uma alta na demanda no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, de acordo com a marca de bicicletas Caloi. Mônica Neiva, artista musicista de Goiânia, Goiás, conta que costumava levar seus três filhos para andar de bicicleta, patins ou skate esporadicamente, mas, com a pandemia, essa se tornou uma rotina ainda mais frequente. Inicialmente, estava mais receosa de sair na rua, porém, com a extensão da pandemia, passar tempo ao ar livre, sempre seguindo as recomendações de segurança, começou a ser uma necessidade. “Ficamos meses dentro de casa. Até resolvermos que precisávamos retomar o hábito para o equilíbrio emocional de todos no lar”, diz Mônica Neiva.

Mônica Neiva e seus filhos: Amora (3 anos), Cauã (8 anos) e Aimê (11 meses)/Foto: Arquivo pessoal

O isolamento social com certeza transformou a rotina de diversas famílias, deixando o trabalho ainda mais cansativo. Por isso, Mônica Neiva procura organizar seus horários de home office de forma que consiga levar as crianças para praticar as atividades sempre que possível. “Já tiveram dias da necessidade ser tamanha que decidimos não almoçar no horário e ir para rua com eles para enxergar a natureza e viver essa sensação de um respiro em meio a um dia sufocante”, relata.

Os adultos normalmente vão ao passeio à pé, pois eles têm uma bebezinha e julgam importante que a pequena também tenha contato com o meio-ambiente. “Pelo menos aqui em casa, tudo em família é mais prazeroso, temos muita conexão um com outro”, afirma Mônica. Para ela, esses pequenos momentos praticando atividades físicas fora de casa são essenciais. “É como se a pandemia estivesse tirando o ar não só dos enfermos, mas daqueles que permanecem isolados em seus pequenos metros quadrados”, completa a artista. 

O uso de bicicletas também é benéfico para o meio ambiente, já que elas não são poluentes. Somente em 2020, a Tembici registrou mais de 4 mil toneladas de CO2 economizados com pedaladas, que, se fossem emitidos, seria necessário o plantio de aproximadamente 30 mil árvores. Por isso, a OMS incentiva que o uso de bicicletas permaneça sendo uma tendência mesmo no período pós-pandêmico.


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