Fobia social na infância: como reconhecer sinais do medo extremo de exposição

Ambientes opressivos ou que deixem a criança insegura, experiências sociais traumáticas e o próprio período de pandemia podem contribuir para o desenvolvimento do transtorno de ansiedade social, dizem psicólogas

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Criança com ansiedade social esconde o rosto em multidão de pessoas
A ansiedade social possui relação direta com o medo de situações de exposição e relacionamento com os outros, explicam psicólogas
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Apresentar um trabalho na frente da sala ou fazer uma leitura em voz alta são algumas situações comuns no ambiente escolar, mas que podem causar certa insegurança. Contudo, para as crianças que sofrem de ansiedade social – também chamada de fobia social – essas e outras situações de exposição geram um medo extremo, que pode provocar até sintomas físicos. “A fobia social ou Transtorno de Ansiedade Social (TAS) é um medo intenso e persistente de situações sociais ou de desempenho, através do qual a criança teme ser humilhada ou passar vergonha”, explica Mayara Alves, psicóloga clínica infanto-juvenil e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental. 

Segundo a profissional, a ansiedade social pode ser expressa por meio de choros, ataques de raiva, imobilidade e a recusa da criança em interagir em situações sociais. Caso não seja reconhecida e tratada, a fobia social pode se estender até a fase adulta. “Por isso é fundamental o diagnóstico precoce, para que seja realizada a intervenção de forma adequada de modo que esse transtorno não gere prejuízos significativos na vida adulta”, ressalta a psicóloga.

Temor de ser avaliado pelos outros

Apesar de os comportamentos das crianças com Transtorno de Ansiedade Social (TAS) se assemelharem ao de outros tipos de ansiedade, essa fobia é desencadeada por situações específicas relacionadas ao convívio com outras pessoas. “O transtorno de ansiedade social está sempre ligado ao social, dificuldade de falar em público, de se relacionar, e outras situações de exposição em outros ambientes para além do ambiente doméstico”, explica Leila Cury Tardivo, professora e membro do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP. Ela pontua que no caso do transtorno de ansiedade generalizada (TAG), por exemplo, a criança ou o adulto sente a angústia direta, não existe uma situação específica que a desencadeia. 

Dra Leila Cury Tardivo, psicóloga e professora membro do Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP.
Dra Leila Cury Tardivo, psicóloga e professora membro do Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP. | Imagem: arquivo pessoal

Além disso, a ansiedade generalizada, mesmo que possa se manifestar em situações de exposição e relacionamento com o outro, não possui a mesma motivação da fobia social. Regina Maria Fernandes Lopes, psicóloga com especialização em neuropsicologia e Terapia Cognitiva Comportamental, explica: “Geralmente as preocupações sociais são mais comuns no transtorno de ansiedade generalizada, mas o foco é mais na natureza das relações existentes do que no medo de avaliação negativa.” Ela cita informações do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais- DSM-5, um material de referência produzido pela Associação Americana de Psicologia para classificação de transtornos relacionados à saúde mental. 

“Crianças com transtorno de ansiedade generalizada podem apresentar preocupações excessivas com a qualidade do seu desempenho social, porém estas preocupações também são pertinentes ao desempenho não social e a quando o indivíduo não está sendo avaliado pelos outros. Já no transtorno de ansiedade social, as preocupações focalizam no desempenho social e na avaliação dos demais”, completa Regina.

Dra Regina Maria Fernandes Lopes, psicóloga com especialização em neuropsicologia e Terapia Cognitiva Comportamental
Regina Lopes também é Coordenadora dos cursos de Avaliação Psicológica, Neuropsicologia e Reabilitação do Núcleo Médico Psicológico | Imagem: arquivo pessoal

Como reconhecer a ansiedade social

Uma criança com ansiedade social pode apresentar alguns sinais aos pais e educadores em relação a seu comportamento. Regina Lopes pontua que é importante saber que uma criança mais tímida, que possuem mais dificuldade em iniciar conversas ou responder quando um adulto a cumprimenta não configura um quadro de fobia social. “Depois de algum tempo com a pessoa, a criança consegue interagir mais confortavelmente. Logo, de forma geral a timidez não causa problemas a criança, conforme ela vai crescendo, vai superando e isso não a impede de fazer amigos.”

Em contrapartida, as crianças que têm ansiedade social temem o julgamento dos outros, apresentam preocupação em se envergonhar ou cometer um erro na frente de amigos, professores e até de outras pessoas, diz a neuropsicóloga.

“Por temerem julgamentos, apresentam dificuldades em conversar com amigos e outras pessoas, incluindo em lugares públicos. Elas temem atividades de aulas e outras que possam se expor socialmente, e isso geralmente não melhora sozinho, precisa haver acompanhamento profissional”, completa Lopes.

Além disso, Leila Tardivo, do IPUSP, ressalta que é comum que a ansiedade social esteja ligada à escola e dificuldades em realizar ações como leituras em voz alta, se relacionar com os amigos e até fazer provas no mesmo ambiente que o restante da sala. Entretanto, esses comportamentos configuram ansiedade social quando observados em crianças maiores, que já haviam passado pela adaptação escolar, e passaram a apresentar medo e insegurança novamente em relação a essas situações.

“Não estamos falando dos primeiros dias, das crianças pequenas, que é normal terem mais dificuldade, como parte do desenvolvimento. Uma criança que já se adaptou e começa a passar mal, ter sintomas físicos, começa a recusar a ida à escola, reclama de dor de barriga, que na verdade pode ser sinal de enjoo, náuseas e outros sintomas psicossomáticos, como aperto na garganta, precisa de ser avaliada”, pontua a profissional.

Psicoterapia faz parte do tratamento

Para que as crianças com transtorno de ansiedade social possam lidar com o medo extremo de se relacionar com os outros e de qualquer tipo de exposição, é importante que os pais busquem um profissional especializado. A neuropsicóloga Regina Lopes explica que cada caso de fobia social é muito particular, e depende da avaliação do psicólogo e do grau de intensidade dos sintomas. “Pode ser indicado uma forma de tratamento, ou mais, dependendo da avaliação. De forma geral, a indicação é psicoterapia e tratamento médico, se necessário”, diz.

Em conjunto, Leila Tardivo defende que, de modo geral, o tratamento para a fobia social conjuga diversas práticas diferentes, relacionando a criança, a família e até a escola. “Muitas vezes se tenta a terapia primeiro, ou junto, uma orientação familiar, e quando a criança tem sintomas físicos muito intensos, pode ser indicada alguma medicação, prescrita com cautela. É um trabalho conjunto, a escola precisa também estar envolvida, pois o tratamento envolve todas essas áreas que estão envolvidas. É preciso uma mudança ambiental, um acompanhamento com um psicoterapeuta, para analisar o que está acontecendo em cada caso particular, priorizando os atendimentos psicossociais.”


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Ansiedade e pandemia

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), quase 19 milhões de brasileiros vivem com algum grau de ansiedade, o que equivale a cerca de 9,3% da população – o maior número de ansiosos no mundo. Durante o período de pandemia, esse número se tornou ainda mais significativo: dados do levantamento semanal Tracking the Coronavirus, realizado pela Ipsos em 2020, mostrou que quatro em cada dez brasileiros sofriam de ansiedade por conta do surto de coronavírus.

Em relação ao transtorno de ansiedade social, o contexto pandêmico também proporcionou ainda mais situações propícias para seu desencadeamento. Devido ao período de isolamento social e de insegurança em relação ao vírus, a psicóloga Mayara Alves afirma que as crianças também tiveram sua saúde mental abalada.

“Foi necessário se distanciar dos amigos e dos ambientes que eles gostavam de frequentar e interagir, como escolas e praças. Além do excesso de informações sobre contaminação e mortes frequentes, provocando medo intenso de reencontrar os colegas e voltar a frequentar os lugares que antes se sentiam seguros e protegidos. Ou seja, o período de pandemia impactou diretamente na saúde mental dos pequenos”, diz.

Mayara Alves, psicóloga clínica infantojuvenil e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental.
Mayara Alves, psicóloga clínica infantojuvenil e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental. | Imagem: arquivo pessoal

Além disso, o convívio direto com a família também pode ter influenciado no aumento do número de crianças com o transtorno de ansiedade social, de acordo com Leila Tardivo: “Na pandemia houve um aumento enorme de violência e de conflitos entre a família, o que pode desencadear sofrimento psíquico”, pontua a professora e psicóloga. Desse modo, com as crianças em casa, expostas a contextos de conflito e, eventualmente, de violência, esse sofrimento pode evoluir para uma ansiedade social.

“Às vezes a criança começa a ter muito medo de falar, a ficar mal na escola, e é bom observar, pois pode ser que em casa a situação esteja ruim. É preciso ficar atento a isso: o ambiente doméstico deveria ser o ambiente mais seguro, mas às vezes não é, pode ser um ambiente de violência entre os adultos e gerar muita insegurança nas crianças. Por isso, cada caso é muito particular, e o que a criança está manifestando é um sinal de sofrimento psíquico que precisa ser compreendido e enfrentado”, completa Tardivo.


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