Introversão não é doença: as qualidades e desafios das crianças introvertidas

Segundo a psicopedagoga Isa Minatel, muitos acham que é preciso “curar” os mais quietos e contidos, mas não é verdade, pessoas com este temperamento apenas funcionam melhor com menos estímulos

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Introversão não é doença: as qualidades e desafios da criança introvertida; criança sentada de pernas cruzadas cobrindo o rosto com as mãos
Crianças introvertidas precisam de mais tempo para recarregar as baterias sociais
Buscador de educadores parentais
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Algumas crianças são mais fechadas, mais contidas emocionalmente e gostam mais de brincar sozinhas. Não há nenhum problema nisso, como explica Isa Minatel, psicopedagoga e autora dos livros “Criança Sem Limites” e “Temperamentos Sem Limites”, durante a sua palestra no 2º Congresso Internacional de Educação Parental, organizado pela Canguru News. Estes comportamentos apenas indicam que a criança tem uma personalidade introvertida. Mas, muitos pais podem achar que há algo de errado com ela e, se não aprenderem a lidar com este temperamento, podem gerar diversos prejuízos para a autoconfiança do filho.

Segundo Isa Minatel, ser introvertido não significa ser tímido. “A timidez é o medo de desaprovação social e humilhação, é inerentemente dolorosa. Mas a introversão não. Os introvertidos precisam de menos estímulos para funcionar bem”, explica a especialista. Existem diversos tipos de temperamentos, porém, por falta de informação, os pais podem acabar colocando tudo no mesmo balaio, como diz Minatel. “O estado mental de um extrovertido tímido sentado quieto, por exemplo, pode ser muito diferente de um introvertido calmo. O tímido tem medo de falar, enquanto o introvertido está simplesmente superestimulado, com muitos fatores sugando a sua energia. Mas, para o mundo externo, parecem iguais”, adiciona.

Pessoas introvertidas podem gostar de sair e conversar, no entanto, precisam de mais tempo para recarregar as baterias sociais. “Elas podem gostar de festas e reuniões, mas logo desejam estar em casa. Preferem gastar suas energias sociais com amigos íntimos e família. Têm horror de jogar conversa fora, mas gostam de discussões profundas”, aponta Isa Minatel. Em geral, os introvertidos também tendem a não gostar de conflitos, costumam ouvir mais e podem se expressar melhor por meio da escrita.

As crianças com este temperamento podem apresentar diversas qualidades, como criatividade, sensibilidade e concentração. Isso as ajuda a se tornarem adultos de sucesso. “Sem os introvertidos não teríamos: o Peter Pan, o Google, o Harry Potter, o Snoopy, as obras de Van Gogh, os filmes de Steven Spielberg ou os pensamentos de Gandhi”, destaca a psicopedagoga.


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Como funciona o organismo de uma criança introvertida

“Foi realizada uma pesquisa com 500 bebês de 4 meses, cuja hipótese era dizer, em 45 minutos, quais bebês tinham a maior probabilidade de serem introvertidos e extrovertidos. Os bebês iam passar por algumas situações, como: ouvir vozes gravadas e balões estourando, ver móbiles coloridos e inalar odor de álcool em cotonete”, conta Isa Minatel. A partir disso, foram obtidos os seguintes resultados: 20% chorava forte, mexia muito braços e pernas; 40% permanecia calmo, mexendo pouco braços e pernas, sem movimentos radicais e 40% ficava entre esses dois. 

“A ideia não é por rótulo, enfiar numa caixa ou classificar. É entender as tendências diferentes de cada ser humano”, afirma a especialista. Os que apresentaram alta reatividade tinham uma maior tendência de serem introvertidos quando crescerem e os que tiveram baixa reatividade tinham tendência a se tornarem extrovertidos. Assim, os corpos que tiveram uma forte reação aos estímulos estão relacionados à introversão e os que ficaram quietos, à extroversão, pois os sistemas nervosos não se incomodavam com as novidades.

A introversão também é associada à reatividade da amígdala de cada pessoa. “Quanto mais reativa a amígdala, maior a taxa cardíaca, mais os olhos se dilatam, mais cortisol (hormônio do estresse) há na saliva e há mais tendência em se agitar diante de algo novo e estimulante”, explica Isa Minatel. 

“Dá para ficar querendo que alguém que nasceu com esse sistema nervoso tenha o comportamento do outro? Não. Vamos encontrar uma maneira de orientar, de contribuir, sem querer transformar um ser humano em outro”, acrescenta.

Foto da psicopedagoga Isa Minatel
Isa Minatel | Foto: Divulgação

Por que achamos melhor ser extrovertido?

De acordo com Minatel, a sociedade acaba criando a crença de que para sermos bem sucedidos e felizes, temos que ser ousados e sociáveis. Mas será mesmo?

“Vivemos num mundo que está sob o ideal da extroversão. Pesquisas indicam que pessoas extrovertidas são vistas como mais espertas, bonitas e interessantes. É a ideia de que quem fala alto e rápido é mais competente e simpático”, diz Isa Minatel. Estudos apontam que a maioria dos professores acham que o extrovertido é o aluno ideal, além disso, a grande parte dos protagonistas dos canais infantis é extrovertida. Porém, nem sempre foi assim.

Durante o século 19 e parte do 20, o ideal era ser sério e disciplinado. “O foco antigamente era a forma como a pessoa se comporta no privado. Aqueles que eram muito extrovertidos eram mal vistos”, diz a psicopedagoga. No entanto, agora, o que mais importa são as aparências e a forma como os outros o veem. Principalmente com o domínio das redes sociais, é mais atraente ser ousado e divertido. Por isso, os introvertidos são mal vistos.

Mas mesmo antes disso, essa mudança já começou a ocorrer. Em 1920, surgiu o Complexo da Inferioridade, que pode ser definido como aquele sentimento de não estar à altura dos padrões sociais. “Para que as crianças não caíssem no complexo de inferioridade, os psicólogos, assistentes sociais e médicos focavam na criança com ‘personalidade desajustada’, principalmente nas crianças tímidas”, aponta Minatel. Assim, era acreditado que a timidez poderia levar ao alcoolismo e ao suicídio. 

Segundo a especialista, os profissionais aconselhavam os pais a proporcionar uma boa socialização aos seus filhos, utilizando a escola para “ajudar e orientar a personalidade”. Inclusive, um reitor de Harvard, em 1940, declarou que a universidade deveria rejeitar o tipo “sensível e neurótico” em favor do tipo “saudável e extrovertido”. Nesse mesmo ano, diz Isa Minatel, também foi anunciado que Harvard via pouca utilidade em um introvertido brilhante. Por isso, a introversão passou a ser vista como uma doença na época.


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‘Medicar crianças introvertidas é grave’

Por ser considerada uma patologia, foram criados remédios para tratar a introversão. Em 1954, surgiu o ansiolítico Miltown que, segundo Isa Minatel, foi o remédio mais rapidamente vendido na história dos Estados Unidos. Em 1960, um terço das receitas do país era para o Miltown ou para o Equanil, medicamento similar. Outro remédio que se tornou popular na época foi o Serentil, que tinha como anúncio: “para a ansiedade que vem da inadequação”. 

“Os pais não queriam ser cruéis, só queriam preparar os filhos para o mundo real, que vigora no ideal de extroversão. Mas esses remédios são uma anestesia, aí, as pessoas introvertidas não sentem nada, nem alegria”, aponta Isa Minatel. Além disso, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais considerava o medo de falar em público uma patologia. “A introversão não era vista como um desafio ou uma desvantagem, mas uma doença, se interferir na performance do trabalho”, completa a psicopedagoga.

Isa Minatel no 2º Congresso Internacional de Educação Parental/ Reprodução

A dor do introvertido 

“Se você é introvertido, pode conhecer uma profunda dor psicológica. Pode ter ouvido seus pais se desculparem pelo seu jeito: ‘não repara não que ela é desse jeitinho, meio tímida mesmo’, ou até ouvido que deveria sair da concha ou que o gato comeu a língua”, diz Minatel. Estas falas e comportamentos podem abalar a autoconfiança das crianças introvertidas, deixando-as mais desconfortáveis. Muitos acham que precisam ajudar a “curar” os pequenos de sua introversão, fazendo com que eles falem mais e se soltem, mas isso não é indicado.

“Quanto mais a pessoa é introvertida, mais o outro tenta fazer ela falar. Quanto mais ele tenta, mais desespero a pessoa que é introvertida sente e menos ela vai conseguir falar. Deixe-a quietinha, tire o foco dela que ela vai se expressar”, destaca Isa Minatel. Os pais têm um papel fundamental, de acordo com a especialista. “Se alguém perguntar se a criança é tímida, diga: ‘não, só demora mais para se soltar, está só aquecendo’. A palavra da mãe pesa 10 vezes mais para a criança”, afirma.

Existem formas de ajudar os introvertidos a se sentirem melhor quando a família vai fazer algo que envolva muitas pessoas. “Prepare a criança introvertida muito antes para o programa, ensaie, conte como vai ser, explique que vai ter mais gente, ajude, oriente, sempre com calma e carinho”, diz Isa Minatel. É preciso ter paciência e aceitar que em algumas situações, a criança introvertida pode precisar de mais tempo para se acostumar. “Entenda que a adaptação escolar, por exemplo, não vai acontecer em uma semana”, adiciona. 

“Alguns animais carregam o seu abrigo para onde vão, alguns humanos também. Quando tiver a honra de conviver com uma criança introvertida, não pergunte o que precisa ser consertado nela, pergunte o que você pode aprender com ela”, destaca Isa Minatel.

Introversão e sensibilidade

Crianças introvertidas podem apresentar diversas qualidades, normalmente elas tendem a ser mais empáticas e sensíveis. “Claro que todas as crianças sentem emoções e percebem seus ambientes, mas as introvertidas parecem sentir com mais intensidade. É como se processassem mais profundamente as informações”, diz Minatel. A capacidade de se colocar no lugar do outro é uma característica muito benéfica. “Elas geralmente se concentram em temas e problemas pessoais que os outros consideram ‘pesados demais’. Muitos psicólogos são introvertidos, porque estão conectados com outras almas humanas sem esforço”, ressalta.

Mas é preciso tomar cuidado, pois essa alta sensibilidade também pode trazer problemas. “Crianças introvertidas tendem a pensar e sentir intensamente as experiências do dia a dia. Por isso, podem ficar remoendo, lembrando o que aconteceu, enquanto os extrovertidos já desencanaram. Se, por exemplo, quebrarem o brinquedo de outra criança por acidente, podem sentir uma mistura mais intensa de culpa e tristeza”, explica.

Além disso, existe uma relação entre introversão e criatividade. De acordo com Isa Minatel, foi realizado um estudo sobre mentes criativas que reuniu arquitetos, matemáticos, cientistas, engenheiros e escritores. Os que mais se destacaram em relação à criatividades eram introvertidos, isso porque passar um tempo sozinho para pensar e praticar era fundamental. “Se a solidão é uma chave para a criatividade, é importante apreciá-la”, finaliza a especialista.


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