Grávidas e puérperas na pandemia: mais empatia por essas mulheres

Diante de todos os desafios do isolamento social, é importante ajudar gestantes e mães de recém-nascidos a não se sentirem sozinhas

Mães na pandemia: precisamos despertar empatia por essas mulheres; mulher grávida sentada no sofá olhando para a barriga

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Você entraria em um jogo sem conhecer todas as regras, sem ter claro o que pode e o que não pode? Um jogo que nem sempre é justo, que faz você ultrapassar alguns limites e que quando um dorme nem todos dormem?

E se eu te contar que é um jogo que não tem pausa, que não é possível ganhar mais vidas, e que não existem superpoderes como voar nem estar em dois lugares ao mesmo tempo?

E se eu te disser que o que funciona com a jogadora ao lado pode não funcionar com você, que mudar de fase às vezes demora muito mais do que gostaríamos e que mesmos que você esteja exausta e chore sozinha no banheiro, não tem como desistir.

Bem-vinda a maternidade!

Não quero ser cruel. Sei que quando eles dormem ficamos lá olhando apaixonadas por aqueles serezinhos que antes mesmo de nascer já roubaram nosso coração e nunca mais vão nos devolver.

Sem deixar de lado as delícias e maravilhas da maternidade, quero ser sincera: a maternidade é um desafio!

Viver nesse mundo novo, cansativo e com regras duvidosas muitas vezes é um gatilho emocional que nos fazem questionar nossa saúde mental.


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Se você é mãe, talvez nada disso seja novidade. Mas quero dividir com você algo que me fez olhar a experiência da maternidade de um jeito que nunca olhei.

Ao longo desses 20 anos na psicologia, tive a oportunidade de atender muitas mulheres que se tornaram mães. Pacientes que chegaram quando os filhos nasceram, pacientes que já estavam aqui e engravidaram, ou que chegaram aqui na inundação das emoções que uma gestação traz.

Como psicóloga tive a oportunidade de acompanhar algumas dessas mães grávidas e puérperas na pandemia. Algumas mães de primeira viagem (como se isso por si só já não atingisse a cota de desafios do ano), outras de segunda ou terceira (isso significa puerpério com outras crianças em casa full time!).

Foram pacientes que eu quis, e ainda quero, especialmente abraçar nessa pandemia, mas não pude. Pacientes que me lembravam da emoção mais desafiadora do puerpério: a solidão!

A solidão vem dos dias sempre iguais, das mamadas da madrugada, do banho interrompido pelo choro do filho, choro, cá entre nós, que nem sempre é real. Vem da xícara de chá que já esfriou 3 vezes, de equilibrar a comida no garfo enquanto amamenta, do leite que empedra, da fralda que vaza no meio da noite fria.

A solidão vem da falta de controle, do inesperado, do imprevisível.

Agora imagine tudo isso no meio de uma pandemia. A solidão, imposta pelo medo, pelo desconhecido, pelos riscos de contágio. A solidão imposta pela ausência do olhar do outro.

Sabe aquele orgulho de exibir a barriga, de todo mundo quere sentir o bebê mexer, de aproveitar para fazer tudo que gosta antes do neném nascer? Sabe aquela foto com as amigas todas barrigudas e todo mundo querendo ver como ficou o quartinho do bebê? Sabe aquela alegria de sentir que todos que são importantes estão por perto nesse momento especial? A avó que vai junto para escolher as roupinhas do bebê? A bisa que mostra com orgulho todas as touquinhas de lã e os sapatinhos de crochê que fez. A família e os amigos reunidos no chá de fraldas?

Não teve.

Todas as mães que acompanhei nesse mais de um ano de pandemia, tinham algo em comum: a falta dessa conexão com o mundo.

Isso me fez pensar muito no quanto precisamos dos outros para sermos nós mesmos. Quando eu digo de mim para alguém eu me enxergo. Quando me encontro com o outro, me encontro comigo.

A conexão com o outro faz a gente existir!

E o que eu quero com esse texto? Despertar em nós empatia! Gerar em nós movimento. Movimento em direção a essas mães da pandemia que não podemos abraçar, mas que não precisam se sentir sozinhas nessa travessia.

Que mesmo no meio dos nossos desafios diários a gente possa olhar para uma mãe dessas e ajudá-la a existir.


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Patrícia Nolêto de Campos, é mãe da Clara, 4 anos. Psicóloga, palestrante, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, trabalha há mais de 19 anos com psicologia clínica com atendimento a adultos crianças, adolescentes e pais. Desenvolveu workshop de Treinamento de pais e Treinamento de Educadores e ferramentas terapêuticas que facilitam a regulação emocional das crianças. Saiba mais em http://www.patnoleto.com.br

1 COMENTÁRIO

  1. Nossa, que perfeito seu texto! Acho a sociedade muito hipócrita e maldosa com as mães, romantizando a maternidade. Como senti culpa por sentir tudo isso que vc escreveu, como pode todo mundo amar ser mãe, ser a coisa mais linda do mundo e eu achar o contrário. Eu devo ter algum problema, estou exausta, física e emocionalmente, “quero parar de brincar”… Depois tudo se ajeita, mas o puerpério é bem difícil. Parabéns pela matéria

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