Durante quarentena, por que nosso cérebro sente tanta falta de abraços?

A vontade de abraçar até fez com que fosse criada a "cortina do abraço", engenhoca que permite abraços com redução do risco de contaminação pelo coronavírus

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Menina de dez anos criou
Paige, de 10 anos, sentia tanta falta de abraçar os avós durante a quarentena que decidiu construir a "cortina do abraço". Foto: Reprodução/Facebook

Faz cerca de dois meses que a quarentena começou, trazendo recomendações de manter distância de pelo menos dois metros das outras pessoas e evitar contato muito próximo, beijos e abraços. Mães e pais que trabalham na linha de frente do combate ao coronavírus, por exemplo, estão isolados dos filhos, não podendo abraçá-los. Crianças sentem falta de abraçar os avós, tios, tias, colegas… Mesmo ficando na mesma casa, não é recomendado ficar o tempo todo abraçando e beijando os pequenos. Nesta sexta, dia 22 de maio, foi celebrado o Dia Nacional do Abraço. E, com o mundo vivendo a pandemia do novo coronavírus, a data não pôde ser comemorada do jeito tradicional. Que falta faz um abraço! 

A vontade de abraçar é tanta que fez com que a menina Paige, de 10 anos, que mora na Califórnia, nos Estados Unidos, construísse uma verdadeira engenhoca. Durante a quarentena, a garota relatava que sentia muita falta de abraçar seus avós. Então ela trabalhou para tornar isso possível. Paige instalou uma cortina de plástico com mangas na porta da sua casa. De um lado e de outro, há os espaços para colocar os braços. Veja o vídeo: 

Imagens: Reprodução/Facebook

Paige usou cortina de chuveiro, sacos plásticos, cola e pratos descartáveis. Segundo Lindsay Okray, enfermeira e mãe de Paige, a menina passou horas construindo a cortina. 

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No Brasil, um avô também construiu uma “cortina do abraço”, desta vez sem estar presa a uma porta, apenas pendurada em um varal. Ela foi feita com o plástico de uma embalagem de colchão e fitas adesivas. O avô, que é médico e se chama José de Moura Campos Neto, mora em Mogi das Cruzes e estava sem abraçar os dois netos há 60 dias. 

Em entrevista ao G1, José alertou que a cortina requer cuidados para não colocar a saúde em risco. “Tem que ser grande e tem que desinfetar os dois lados. O lugar de enfiar o braço [é] totalmente fechado. Não pode ter furo, vazamento. As crianças só vão do lado delas”, explica. 

Por que sentimos tanta falta de abraçar? 

Marina Campos, filha de José e mãe das crianças, é biomédica, professora e palestrante que trabalha com neurociência do comportamento humano, gestão de pessoas e desenvolvimento. Ela afirmou ao G1 que ações de carinho como a que foi realizada por seu pai, que criou a cortina para abraçar os netos, contribuem para a liberação da ocitocina, conhecida como “hormônio do amor”, trazendo um sentimento de otimismo, bem-estar e coragem para enfrentar momentos como o que vivemos. 

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“O abraço libera no nosso organismo esse hormônio. A gente tem esses receptores nas células do tato, da pele, e esse contato faz com que o nosso organismo libere ocitocina […], responsável por fazer com que a gente se sinta seguro e, consequentemente, corajoso para realizar as coisas. É um hormônio extremamente importante para nos dar a capacidade para enfrentar esses desafios que vêm pela frente”, declara ela.

Segundo o médico neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes, o abraço estimula as funções cerebrais e ativa os cinco sentidos. Sem ele, não há a mesma troca de “energia” entre as pessoas e o cérebro sofre fisiologicamente. “O cérebro trabalha com recompensas e o fato de abraçar – ou ser abraçado – é capaz ativar o circuito mesolímbico dopaminérgico do cérebro, região responsável por emoções agradáveis, e uma descarga de neurotransmissores e substâncias que causam bem-estar são disparadas para todo o corpo, levando à sensação de conforto que só um abraço bem apertado é capaz de causar”, explica.

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O médico afirma que, como somos programados para vivermos em sociedade, estabelecer conexões nos torna mais fortes. “Isso está no nosso DNA e, por mais que isso não seja compensado por uma ligação em que se vê [a pessoa] do outro lado da tela, essas ações são as únicas possíveis atualmente e podem ajudar a sanar o buraco que essa fase tem causado”, diz ele.

Além da falta dos abraços, a quarentena afeta as pessoas de várias formas. “Neste momento de pandemia os níveis de dopamina e serotonina se alteram e aumentam naturalmente a irritação, a intolerância, fazem perder a noção do tempo, do dia da semana, do mês. Isso tudo vai aumentando o estresse oxidativo”, diz o médico. Para amenizar a situação, é preciso cuidar da alimentação,  e do sono e manter as atividades físicas. Fernando também chama a atenção para a importância de manter uma rotina organizada. 

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